#37Futuros PossíveisLiteratura

Eu sou a minha própria embarcação

por Luedji Luna

São tempos difíceis, eu sei: segundo ano de pandemia, instabilidade política e morosidade na distribuição das vacinas. Nesse bojo, desmonte da cultura e ausência de políticas públicas de incentivo ao setor.

Não está fácil ser artista nesse país, mas, para quem é artista preto, nunca foi – esse é o fato!

Lembro do discurso de Conceição Evaristo no prêmio Bravo de 2018, alguns meses após a morte de Marielle Franco e dois anos depois do golpe contra a ex-presidente Dilma. O clima era de tensão, e o discurso de todos os vencedores era de temor diante do futuro. Mal sabiam eles. Conceição fez uma fala assertiva sobre como o medo ali colocado sempre esteve dado a artistas negros nesse país.

Eu não conheço nenhum artista preto, amigo meu, que não tenha trabalhado, criado, e produzido na escassez. Na falta de produtor, a gente mesmo se vende, se produz, inventa um nome falso para responder aos e-mails. Na falta de estúdio, grava-se dentro do armário. Eu mesma já cansei de confeccionar meus próprios “flyers” por não ter condições de pagar um designer. É a falta que nos faz ser tão inventivos! Se não sabemos, a gente aprende; se não tem, a gente inventa. Mas cansa.

Cansa não ser remunerado adequadamente, cansa não ter a visibilidade merecida apesar do esforço em dobro, cansa não ter o mesmo reconhecimento, cansa ter de ser criadora e também fazer todo o trabalho indireto necessário para manter sua arte viva, vista e verdadeira acima de tudo. Muito se fala em solidão da mulher no campo afetivo, mas ela tem várias nuances, pois me sinto só nessa corrida competitiva pelo sucesso e reconhecimento. “Eu sou minha própria embarcação, minha própria sorte”, frase cantada em meu primeiro disco, nasce dessa sensação de que, se eu não fizer por mim, ninguém o fará.

A despeito de tudo, há motivos para continuar! Porque a arte sempre foi uma tecnologia de sobrevivência e resistência de um povo; era com as cantigas de capoeira que se planejava a fuga, era com a dança do jongo que o mapa ao quilombo era passado. A arte não só sustenta a mim e minha família como me mantém sã; ela me cura antes de curar quem me escuta, me faz rememorar que o canto é ancestral e, para nós negros, ela serve bem mais que para pura arte e entretenimento, serve para a manutenção das nossas existências materiais e simbólicas.

Há 500 anos sobrevivemos ao Atlântico. Sobreviveremos a essa maré ruim dos últimos tempos também.

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