#38O RostoMúsicaSociedade

Dois e dois são dois: Bruno Cosentino e Filipe Catto

por Bruno Cosentino Filipe Catto

Foto de Ana Rovati

Bruno Cosentino é cantor e compositor. Em 2020, lançou Bad Bahia, seu quarto e mais recente álbum. É também editor da revista de crítica musical Polivox e doutor em Literatura Brasileira pela UFRJ, com tese sobre amor e erotismo nos poemas e canções de Vinicius de Moraes. 

Foto de Lucas Silvestre

Filipe Catto é multiartista, transitando entre a música como intérprete, compositora, produtora musical e instrumentista, até o universo da perfomance, do vídeo e das artes visuais. Nascida no Rio Grande do Sul, já dividiu o palco com os maiores artistas da MPB em dez anos de carreira e tem três discos de estúdio. 

Bruno Cosentino Quando penso em cara ou em rosto, penso muito em performance, em máscara. Queria começar ouvindo você. O que você pensa sobre performance, sobre estar no palco? Você tem uma máscara social ou usa a mesma no palco e fora dele?

Filipe Catto – É uma questão muito filosófica e boa. Incrivelmente, nessa pandemia, todo o meu processo psíquico vem dentro desse questionamento, porque tenho me preparado para um próximo projeto que tem me exigido desde 2018 questionar exatamente isso que tu me perguntou. Qual é a pessoa verdadeira? Qual é a pessoa real? Aquela que está ali sem nenhum tipo de pudor ou a pessoa construída pela sociedade? Eu acho que eu sou muito mais íntegra em cena. O ser humano não é uma coisa só, temos várias camadas e personas, e isso é um processo com várias arestas. Mas é engraçado que eu sempre me senti muito mais completo no palco e muito mais desconfortável na vida em sociedade. Quando a gente está em cena, com o nosso aparato psíquico-espiritual-performático-artístico, a gente está com uma recepção para a emoção muito verdadeira. Acho que ali é que a gente se expressa no nosso desejo, na nossa libido, e como que a nossa libido tem a ver com isso também, como ela se expõe. Nem sempre a gente consegue estar num estado de plenitude máxima no palco também. 

BC – Você sabe que, quando eu comecei a ir para o palco, bem no iniciozinho, eu ficava muito travado, tipo um Chico Buarque sem charme. E eu não gostava daquilo. A certa altura, eu achei que era uma trava corporal, que eu devia aprender a mexer melhor com o corpo, e aí comecei a fazer aulas de dança. Mas, depois, ainda tinha alguma coisa que me incomodava. Daí eu saquei que não era a parte física, mas desligar uma chavinha psíquica, tipo: “agora eu sou um personagem, um personagem de mim mesmo, um outro eu”. Porque, durante o show, do palco, você vê na plateia pessoas próximas, que te conhecem muito bem – aquilo me travava. Eu fui percebendo que o meu estudo tinha que ser pela via do teatro, porque meu corpo respondia muito bem à música; o problema era a vergonha das pessoas que me conheciam. Então, eu comecei a entender que o palco era um lugar de impessoalidade, que ali não era eu, mas um personagem de mim mesmo. Eu realmente comecei a entender isso, e aí podia ter mãe, pai, avô, avó, pessoas que me conhecem desde pequeno, não importava, eu ia fazer o que eu quisesse ali em cima. E assim foi, assim é. No fim das contas, para mim, isso foi importante, porque na vida pessoal sou muito entocado, sabe? Ficou uma dicotomia muito forte no meu caso. No palco eu sabia que eu era uma outra coisa. E hoje, no palco, eu me sinto muito à vontade. Uma liberdade que o social não te permite, o social está te cerceando, te julgando, te moralizando o tempo todo, é horrível.

FC – Essa coisa que emerge no palco é a nossa verdadeira natureza. A gente devia ser assim 24 horas, porque fiquei com toda essa questão de entender que eu sou uma pessoa trans. Eu demorei muito tempo para ter essa facilidade de movimentação no palco – semana passada gravei um vídeo legal para o meu disco ao vivo, e foi tão bom, porque aquele movimento estava tão verdadeiro, com muita corporeidade e expressão. E aí eu fiquei pensando nisso, como foi bom ter vivido toda essa desconstrução e entender que aquela pessoa verdadeira sempre esteve ali, tentando aparecer. Na verdade, a pessoa que eu não aguento mais ser é a pessoa que tem medo do fora. Eu não aguento mais ter esse dedo com o outro. Pelo menos eu, que cresci muito oprimida com a minha identidade. Tenho uma visão sobre isso hoje de que parece que eu fugi de uma seita satânica. Sabe aquela sensação de que você sobreviveu a uma seita satânica? E agora eu não tenho mais isso. Ao mesmo tempo, é muito louco entender que tem ali aquela pessoa que é um vulcão em cima do palco, mas tem também o lado da garota responsável, que faz as suas coisinhas e que tem a sua vida doméstica, que é super recolhida também, que tem uma vida também muito zen. Fiquei tanto tempo em contato com essa parada meio lilithiana, dessa minha identidade feminina que era muito forte porque ela estava ali tentando sair de dentro de mim como um animal furioso, que agora finalmente estou entendendo: “calma, não precisa ser tão louca, tão agressiva assim, pode ficar um pouco mais tranquila”. Eu sentia falta de ter esse poder e esse fogo dentro da minha vida. Mesmo não tendo um problema com a minha performance, eu queria saber como usufruir da vida com mais vitalidade, porque parecia que fora do palco a vida era muito chata e cheia de opressões, julgamentos – e cheia de insatisfação com a política, com a sociedade. A minha arte precisa me dar esse prazer agora, na hora em que eu estou bebendo um copo d’água, eu preciso ter isso dentro da minha vida, viver isso, que isso seja também um ritual tão poderoso quanto é subir em um palco e ter a liberdade de ficar nu se eu quiser. Esse êxtase espiritual que está presente nos nossos rituais artísticos precisa encarnar na nossa rotina. 

BC – É a presença, né? É isso que faz a vida ficar intensa. E, no palco, mal ou bem, a gente ritualiza isso. Às vezes, no mesmo show, você está ali e você não sabe mais quem você é – é quando eu digo que “virei”. É bom quando trazemos esse transe do palco para a vida. Claro, nem sempre é possível, porque a vida fica intensa e perigosa demais, e também muito arriscada e muito boa. 

FC – Um aprendizado muito legal é celebrar a imperfeição da coisa. A imperfeição e a estranheza do instante, do movimento. Quando o passado acontece, as coisas ficam para trás, e tu consegue olhar com amor para aquilo. Eu acho que é um momento de resgatar essa poesia para viver o agora.

BC – No início da pandemia, eu fiquei muito abatido, sem desejo de fazer as coisas. Eu tenho certeza de que foi pela impossibilidade dos encontros. Eu sei que são os encontros que alimentam meu tesão na vida, de realizar coisas, sabe? Ainda mais na música, que é uma criação muito coletiva. Mas, agora, já passou esse bode, e isso se tornou uma espécie de aprendizado. Tenho voltado aos poucos, porque não está dando ainda para encontrar tantas pessoas. Você encontra aqui e ali de máscara, protegido. É muito estranho. A gente não pode trocar gotículas [risos], que é uma coisa importante para que as coisas aconteçam. E você está falando sobre essa coisa da imperfeição. Um instante é sempre imperfeito, mas se ele tiver uma intuição verdadeira, um gesto, ele tem força expressiva. A presença traz a intuição, que é a verdade do corpo. Eu acho que essa é a verdade mais difícil, uma verdade que requer sensibilidade e os sentidos em alerta. A música e a dança são muito mais gozadas pelo sensual do que pelo intelectual. 

FC – Claro, é totalmente inconsciente. Ela vai direto no simbólico, no emocional.

BC – Muitas vezes, quando estou gravando a voz de um disco, decido que vou gravar não me preocupando em fazer direito. A ideia é gravar vários takes, porque aí depois eu faço a colheita, cato as cerejas, e as cerejas mais gostosas são sempre aquelas que têm uma forma estranha, aquela hora em que você deu uma falhada de voz, uma engasgadinha, os pequenos erros da performance – mas os erros que são lindos, é claro. 

FC – Tem uma coisa que eu acho engraçado também nessa questão do resgate do erro. Desde 2018 que estou trabalhando no meu disco de inéditas, e cheguei nesse ponto, agora ouvindo: “eu não vou regravar esses teclados, não”. Por que eu vou regravar? Só para tentar chegar perto da imperfeição da demo que eu fiz lá em casa? Que no fundo foi feita de qualquer jeito, com qualquer timbre. Nas demos tinha toda uma brutalidade, uma visceralidade, uma paixão e, claro, a presença do erro. Uma urgência naquilo que, depois, nunca vai se traduzir. E eu acho que isso é uma coisa que cada vez mais eu percebo como artista, que, em qualquer aspecto da minha vida, a partir de agora, é fazer com que valha o momento do registro, ou seja, grava já valendo, porque talvez seja exatamente aquela gravação que tu vai usar. Usar a tecnologia para esses pequenos hábitos. Pega o celular. Grava a ideia, anota, fotografa. Isso de registrar o processo me remete ao ateliê. Antes de levar a música para o arranjador, vou fazer aqui, porque tem coisas que são inclusive da imperfeição, da minha relação com o violão, que eu sempre toquei em casa, como um punk de pracinha, hippie, violão de nylon e bordão. Depois de um tempo, comecei a perceber que aquilo tinha uma composição interessante com a voz, porque unir o virtuoso com o sujo, isso é uma linguagem. E a linguagem é interna.

BC – Eu adoro quando é o compositor tocando e cantando, aquele que supostamente não é o melhor instrumentista e cantor de suas canções, mas que, para mim, é sempre o melhor intérprete de suas canções. Nelson Cavaquinho, incrível, uma coisa bruta, tosca e linda, exuberante. O Luís Capucho, com aquela voz, um príncipe.  

FC – A arte é uma parada que nunca chega. Ela está o tempo todo te provocando mudanças, reflexões e ideias novas e trocas, porque chega uma hora que tu te repete, e sente que tem que fazer coisas diferentes, ir para outro instrumento. Ao aprender esse novo instrumento, sai muita coisa autoral, porque a linguagem está aí. O pequeno é o meu lema agora, porque ele torna as coisas possíveis. Ainda mais agora que está tudo parecido, acontecendo na mesma lógica de camada sobre camada, sobreposições, entradas, saídas, fades, efeitos, delays, reverbs, cores e loucuras. É uma coisa que parece muito difícil, porque a indústria musical diz que você tem que ser o melhor naquele nicho. Só que a gente não é assim. A gente faz tudo mais ou menos bem e mais ou menos mal ao mesmo tempo, e esse é o nosso jeito. 

BC – Essa é mesmo a nossa definição: nós, cancionistas, somos generalistas, não sabemos fazer nada direito – ou não temos essa convicção, que é do especialista –, mas agimos intuitivamente e, acima de tudo, somos realizadores. Você estava falando sobre os erros… Isso tem muito a ver também com uma obra em progresso, eu acho. Estou pensando em Walt Whitman, que ficou a vida toda dele escrevendo um livro só, o Folhas de Relva. Foram várias edições. A primeira é um pouco mais fininha, e a última, a edição do leito de morte, é muito maior – nela, ele não só acrescentou poemas e capítulos, como revisou ao longo da vida os poemas que estavam desde a primeira edição. Ele não escreveu mais do que um livro durante a vida toda, e é considerado o maior poeta dos Estados Unidos. Tem um poeta português também, que agora esqueci o nome. Ele lançou vários livros durante a vida e foi sempre fazendo notas sobre poemas de livros anteriores ou colocando poemas alterados, sempre voltando à sua obra. E eu comecei a ver os meus discos um pouco como uma coisa só. Eu acho que todo disco que eu faço é o mesmo disco ou a continuação dos anteriores. Eu acho que você tem isso, e muitos artistas têm isso: acima de tudo, a obra do artista é aquilo que ele é. É uma existência artística daquela pessoa, que está ali viva. Então, os temas estão presentes desde o início. O estilo é a gente vivo. A repetição é ritual. E isso que você falou do mínimo, eu também me atenho à limitação de recursos. Quanto menos coisa tiver, melhor, sabe? 

FC – Afinal, a música não é algo tão vasta. E nós viemos dessa escola de artistas. Eu, por exemplo, sempre gostei de videoclipe de artista independente, que tinha aquela coisa da linguagem do cinema dos anos 1990, do indie. Então não faz sentido colocar na minha obra clipes com orçamentos gigantes, quando, na verdade, a minha visão foi forjada em coisas mais minimalistas e independentes. Sempre me atraí muito pelo mínimo, porque achava aquilo uma forma de resistência, de possibilidade, de inspirar pessoas como eu, lá no lugar onde eu estava – que era o meu quarto, com o meu violão, sem computador –, de poder sonhar em gravar um disco, sem depender de gravadora ou ter uma banda, de poder expressar as minhas ideias com quatro ou cinco acordes. E foram coisas que a gente foi vendo o rock criar, toda essa escola do pós-punk, do punk em diante, e isso é para sempre. Eu tenho uma alma totalmente devota desse lugar do punk. Essa falta de recursos é inspiradora, porque tu percebe tudo que pode te proporcionar. Se são apenas três acordes, vamos estudar os acordes. Como é que tu vai fazer esses acordes? Tu vai fazer em qual parte do violão? Com qual timbre? Com qual atmosfera? Daí tu pode mergulhar com três acordes, com um violão de nylon, pode gravar isso de tantas formas, gravar debaixo do chuveiro, em cima da cama, colocar reverb, tirar reverb, colocar delay, não colocar nada. Tu pode fazer um milhão de coisas com essa informação. Então eu acho que a coisa da arte é muito mais traduzir o que está dentro da tua cabeça para uma coisa física do que necessariamente depender tanto do recurso, porque o recurso é flexível para caramba. 

BC – Quando eu comecei a estudar teatro, pensando na questão corporal que te falei, comecei a ler o Grotowski, do teatro pobre [Em busca do Teatro Pobre], e é isso que ele fala. Tira, deixa pobre a cena. Deixa crua, porque o que interessa são os atores, é a atuação. Toda minha relação com música era eu e meu violão. Nunca fui um instrumentista, mas sei tocar violão para as músicas que eu quero cantar. Quando tive uma banda, eu ficava muito frustrado porque a gente nunca conseguia chegar ao nível de confluência, entrosamento da voz ressoando com a corda do violão, que eu conseguia sozinho. A banda nunca chegou a uma simbiose tal como aquela que eu tinha com o violão. Eu praticamente não toco violão em casa, ou, quando eu toco, toco escondido, porque tenho vergonha. Eu tenho vergonha de tocar e de cantar em casa, porque sinto isso como uma invasão de privacidade, fico muito vulnerável. Sabe aquilo que você diz para sua analista? Eu canto aquilo que eu poderia estar dizendo para o meu analista. Mas no palco, não. É aquilo que falamos antes, é impessoal. No palco, eu posso virar a diaba.

FC – A questão é essa sobre as máscaras: a gente tem que entender que esse espaço de experimentar livremente, sem nenhum tipo de restrição, é fundamental para a nossa saúde. A gente está o tempo todo numa batalha tão física, tão crua, tão real com os nossos limites físicos e de idade, com o tempo, com as contas, que não adianta. Eu não quero mais esse problema, sabe? O problema da minha não liberdade, o problema da minha restrição, o problema da minha vergonha comigo. Foda-se isso. Eu tenho pavor de ser aquela vizinha cantora que fica cantando o dia todo. Que vergonha, que chata. Vontade de matar, né? Eu tenho bode também de gente que fica o dia todo cantando, entretendo as pessoas. Eu falo: “menos amigo, menos. Menos alegria…” 

BC – Outro dia eu vi um documentário sobre as pinturas rupestres nas cavernas [A Caverna dos Sonhos Esquecidos], do [Werner] Herzog, e tem uma hora em que um cara fala assim: “aqui, neste lugar, provavelmente tinha uma fogueira, e as pessoas dançavam”. Então você imagina, numa caverna, aqueles bichos lindos pintados a carvão nas pedras, uma fogueira com as chamas bruxuleando e as pessoas dançando com as suas sombras animando os bichos. Uau, devia ser emocionante demais. Era um ritual religioso e artístico. Eu não tenho religião, não tenho nenhuma instituição religiosa a que eu seja ligado, mas eu me considero religioso, no sentido de espiritualidade. E aí, no final do filme, um cara que morava ali perto das cavernas diz uma coisa tão bonita: “a gente, o homem, nós não somos o homo sapiens, não é isso que nos define, porque a gente não sabe tanto assim; a gente deveria se chamar homo spiritualis, porque somos muito mais do que sabemos”. Somos capazes de comungar com outros, principalmente através da arte. 

FC – E o que a gente diz saber é o que a gente, na verdade, acredita saber. Porque o que a gente sabe é muito pequeno. O conceito de conhecimento muda muito rápido. Eu tenho uma vida, e isso é um fato. Vou basear minha vida em um conhecimento católico que tem 500 anos nesse continente? Ou eu vou basear minha vida dentro do conhecimento natural de bilhões de anos, de bilhões de coisas que não variam? A verdade é uma questão de você vê-la e testemunhá-la. Verdade é: eu sou um animal, eu sou um corpo aqui neste momento; não sei como vim parar aqui, nem por que, mas o que eu preciso é estar ao alcance das coisas. Liberdade, alimento, água, sexualidade. Eu preciso de certas coisas muito claras para viver e fazer o meu trabalho aqui. O resto é achismo e cultura; e a cultura é muito breve. 

BC – Se vivêssemos mais o instante, viveríamos mais de nossas experiências pessoais e não de experiências emprestadas das convenções morais. Normalmente, nos anulamos e nos tornamos muito menores do que se seguíssemos a verdade de nossa própria experiência no mundo. Que máscara é essa da realidade? Que máscara é essa que fica entre o que você é e o que acham que é? 

FC – As máscaras caíram. Ou melhor, estamos nesse estado de máscaras o tempo inteiro. Entramos num novo país, nova época, novo século, com novos problemas, outras ideias, outras questões, um problema ambiental latente e, ao mesmo tempo, dopados por redes sociais, dentro de um lugar que eu, sinceramente, só consigo ver como muito autoritário. Se tem uma coisa que eu aprendi na crise, nesse enfrentamento de guerra, é que não há nada mais importante que o teu alimento, o teu sono, cuidar da tua rotina. Até mesmo o contato com o nosso trabalho. Quando tenho que ir para os meus infernos, eu vou. Eu tenho que ir porque preciso estar lá também, ao mesmo tempo que é preciso crescer e aprender a administrar a realidade em um mundo em que tudo parece uma farsa. 

BC – Talvez tenhamos que viver nos nossos grupos, como espécies de grupos de guerrilha afetivos. Grupos dentro do qual você tem afeto e aquilo vai te salvar, vai ser o nosso bunker.

FC – É isso mesmo. Sempre estivemos em grupos pequenos. A cultura sempre esteve restrita a pessoas com olhar muito qualificado. Antes, era preciso ir atrás de locadoras diferentes para conseguir ver os filmes que interessavam. Os shows que a gente ia eram vazios, as bandas que a gente gostava ninguém conhecia. E vai continuar sendo assim. O mainstream não chegou para a comunidade GLS. Não teve esse momento. A verdade é essa. A gente nunca deixou de ser meio gótica. Acho que essas pessoas inconformadas, rebeldes, as pessoas que são jogadas para fora do senso comum são sempre aquelas que vêm com a solução, mas que têm que dar uma apanhada para poder olhar de forma crítica aquilo que está acontecendo no mundo. Em certo sentido, não consigo mais separar o que é o palco e o que é a vida. Gosto de estar o tempo todo no ritmo da espontaneidade, porque sinto que isso me protege, me deixa tranquila. 

BC – Para mim, a principal coisa antes de subir no palco é ficar muito sozinho e calado. Claro, em algum momento faço um vocalize para esquentar a voz e tal. Mas, dependendo do show, eu passo maquiagem ou não. A maquiagem pode ser simbólica também. De uma certa forma, armo a minha cara, mesmo que eu não passe nada nela. Armo a minha cara para o show, porque aquilo é um ritual, e eu me coloco naquele estado de concentração; ela precisa de mim, que eu me desconecte do alheamento e distração da vida real. Antes, eu pensava “ah, e se o som ficar ruim?”, “e se aquilo der errado?”. Eu não tenho mais um script. Se der errado, eu paro, começo de novo. Teve uma vez que deu ruim [sic], e alguém da banda precisou afinar o instrumento. E eu fiquei esperando ele afinar, um minuto parado, olhando para o alto, balançando levemente o corpo com o microfone colado na boca. Depois do show, o Lucas Weglinski, que é do teatro Oficina, da Cia dos Prazeres, veio me dizer que aquilo ali tinha sido muito bonito, muito performático: “o músico afinando a guitarra e todo um silêncio, você parado ali, balançando o corpo”, porque eu estava pleno! Eu não posso estar como se eu estivesse na vida real. Tem que ter alguma coisa incomodando, alguma coisa que me coloque artificialmente numa imagem descontraída.

FC – Sim, é a consciência cênica, de saber que tu está em cena. E, ao mesmo tempo, tem uma coisa legal que é desmistificar o público. São só pessoas.

BC – Eu também acho. Eu sou artista, porque hoje eu posso dizer que eu sei o que isso significa, mas eu não quero que me vejam como um. Clarice Lispector que dizia: “em casa eu sou dona de casa, sou mãe dos meus filhos”. Uma pessoa comum. Ela não se intitulava escritora. Ela é uma puta escritora e ela sabia que era, mas tem essa diferença entre o que a gente sabe que a gente é e como os outros nos veem.

FC – Para chegarmos num resultado poético decente, a gente tem que estar fora disso. O homem que diz “eu sou”, no fundo acaba não conseguindo ser. A Clarice Lispector só consegue chegar no resultado de escrever sobre “O ovo e a galinha” se ela puder olhar para o ovo e para a galinha com o olhar de uma criança. É algo que se conquista na desconstrução, e não na erudição. É claro que é importante conhecer a forma, a estética, conhecer tudo que já foi feito. Mas tem também uma parte boa da arte que é se afastar da referência. Esquece quem fez. Esquece o que foi feito. Esquece tudo e faz do teu jeito. Faz feio mesmo. 

BC – La ref soy yo! Para mim, o novo é a pessoa, aquilo que ela traz e o que somente ela pode trazer. Se você realmente achar que está fazendo uma coisa nova, ainda mais hoje em dia, pelo amor de deus. Eu vi aquele documentário do [Martin] Scorsese sobre o blues. Os guitarristas tocam sempre a mesma estrutura, na escala pentatônica, que é o que nos faz reconhecer o som do blues, mas cada um é um mundo, completamente diferente do outro. Como os caras, repetindo um mesmo esquema, com recursos muito limitados, dentro de um modelo musical estrito, conseguem ser tão imaginativos, incríveis e originais? Isso é o novo. Essa originalidade que só a pessoa traz.

FC – E aquilo fica e penetra nos novos artistas. A menor doação que a gente faz para a música já é grande porque contribui para a continuidade desse processo. É um propósito espiritual. 

BC – Quando nos emocionamos cantando uma canção e essa canção emociona outras pessoas, está feito o elo, está aí a religiosidade. O traço do religare, que é uma possível origem da palavra “religião”, de religar, de conectar as pessoas, se completa. 

FC – Falando em religare e ancestralidade, lembrei que a pandemia me aproximou da ideia de cantora. Eu estava na descoberta de como ser uma pessoa não binária, trans, e como processar esses pronomes na minha vida. Foi aí que me senti pela primeira vez uma das cantoras do Brasil. Sabe quando tu pensa: o que você é? Qual é a tua missão? Eu sou uma das cantoras desse país. Um pequeno grão de areia desse lugar de grandes vozes femininas, de grandes artistas mulheres que são, para mim, as mais injustiçadas e as mais corajosas entidades artísticas desse país. Todas as pessoas que foram suprimidas, as mulheres, as pessoas trans, as pessoas LGBTQIA+, todas. Até hoje há uma cultura patriarcal nojenta nesse país, que coloca a mulher como a cantora e não como a compositora, a pensadora do seu trabalho. Eu já cantei com todas as maiores cantoras desse país, mas também sou essa cantora do bar que toda semana está lá cantando música a pedido. Antes de ser uma cantora chiquérrima, eu sempre fui uma cantora vira-lata da rua e eu amo isso. Essa condição me deu uma sensação de muito pertencimento, de pertencer a essa linhagem de cantoras brasileiras que vão do Theatro Municipal ao pior pé sujo já visto. E a força dessa entidade é a força do feminino, não apenas da Elis ou da Maysa, mas o poder de cada cantora que está aí na batalha há anos, tocando na noite, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, para botar comida em casa, pensando o quanto também que esse glamour da arte brasileira, hoje, virou um pano de chão que não serve para nada. Estamos todos nessa emergência, em que o artista como entidade pede socorro nesse país. 

BC – Muita gente só pode ser artista hoje porque tem renda ou situação material privilegiada. Se você pensar que existe um gênio, um artista incrível, que está tendo que trabalhar no McDonald’s ou correndo para ganhar dinheiro e não tem tempo nem condições para desenvolver sua arte… É foda. É a máquina de moer gente. 

FC – Tudo é dinheiro. Quando tu tem o dinheiro e o número, o resultado, que é conquistado através do dinheiro, as outras coisas acontecem naturalmente. É muito fácil tu chegar para a organização de um festival com 150 milhões de players e falar: “eu quero tocar nesse festival”. Tu quer tocar e tu toca. 

BC – É, claro, porque tu conseguiu chegar nas pessoas. Pagou os assessores, pagou os empresários, pagou todo mundo.

FC – A indústria é sempre jabá, e isso foi para o digital também. Claro que o digital tem certas coisas que funcionam ainda. Também saber que diante dessa crise existe um público no Brasil que é maravilhoso. Existe! Ele está aí! Eu acho que isso é uma coisa importante de ser valorizada. Tem muita gente interessada em arte no Brasil. Muita. Eu acho que o negócio é a gente ficar firme e forte com essa galera forever and ever. A gente é essa galera. A gente é artista, profissional, mas também é consumidor. Acho que já existem formas, players de música e sites que ainda não conhecemos, mas que em breve todas as bandas legais vão estar, deixando para trás as grandes gravadoras. Tem também uma coisa do próprio circuito de se retirar de onde está ruim e ir para outros lugares e começar novas cenas. Daqui a pouco a gente vai ter serviços de streaming só focados em música independente brasileira. Tudo que é muito mainstream acaba se autodevorando. Porque não dá para a gente só querer números. Nem sempre os números são verdadeiros. Tem gente que tem muitos seguidores na rede social e não consegue fazer show. 

BC – Pior é que tem programador que define muita coisa de contratação só pelos números. Não ouve a música da pessoa. É como se ele não tivesse o poder e responsabilidade de formar público. Não, não querem fazer mais nada, querem pegar tudo pronto. Fora as falcatruas de rede social: compra de chinesinhos, matéria paga com cara de mídia espontânea, porque se for pago fica feio, pega mal. 

FC – Virou uma coisa insustentável. Reconhecer o que é bom e verdadeiro, esses são os desafios da nossa época. 

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