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#16RenascimentoCulturaSociedade

Panela velha

por Hermés Galvão

Chão ou vão, de Felipe Cohen (2013)

Tomamos uma anestesia qualquer que nos impede de seguir em frente, ir adiante quando todo mundo, no sentido mais amplo da palavra, já passou de fase e experimenta um novo instante, onde tudo parece, se não melhor, ao menos diferente. Nós, não. Repetimos os erros e persistimos nos acertos até torná-los equívocos por exercício de conforto e falta de impulso. Morremos aos poucos dia a dia, confinados em nossa própria história pregressa, revivendo um passado de média glória quando entregamos aos olhos curiosos um pouco de ousadia e criatividade. Faz tanto tempo…

Fomos modernos um dia, quase avant la lettre, diria. Não inventamos, mas caprichamos e adaptamos arte e música, arquitetura e moda à nossa moda; éramos felizes e sabíamos, e levamos à flor da Terra no apogeu do século XX o que poderia ser apenas o começo de um futuro brilhante. Anabolizamos o pouco que tínhamos e não ganhamos musculatura para crescer e aparecer – deu no que deu. Em quase nada. São Paulo em sua inútil paisagem ainda força uma barra pesada naquele (que já foi) bom e (agora é só) velho modernismo outrora irreverente, escandaloso e anárquico que rompeu com estruturas do passado.

Tudo em volta é concreto e armado, bruto e árido; projetos se erguem e ideias se constroem baseados em lições de página virada. Como buscar agora o original e o polêmico quando tudo e todos perderam a pouca crítica que tinham para, então, denunciar a realidade? A queixa vale para conversas e pessoas, todas quadradas. E casas também. A cena é dura, vidrada, pesada, cinza chumbo. É pau, é regra, é o fim de um caminho que segue para o Rio, onde os mesmos moldes de um Brasil inventivo desabaram pela força do tempo e do vento. Ficou de pé aquela base frágil do banquinho e o som morninho de um violão que há meio século não toca um outro refrão.

Nostálgicos de uma Ipanema burguesa – e de todas as outras épocas que não viveram, da belle époque em Paris à crise americana de 1929 –, cariocas ensaiam na mesma praia arranjos com a mesma base para surtir os mesmos efeitos em tempos nada melódicos. De frente para o mar e de costas para o mundo, a vida segue sem recriação, mas com aquela recreação dos tempos do rei. E as princesinhas de Copacabana, naturais e operadas, ainda estão lá, operando a todo vapor. Firmes e fortes, como só elas.

A ver o renascimento, ou talvez a ressurreição, olhamos agora lá na frente com a ansiedade dos medicados para reconstruir nossa temática, nosso destino e estar no mundo. Recapitulando: o modernismo datou, a bossa nova dançou. E nos deixamos prescrever, viramos démodé, saímos de circulação e deixamos de ter, com a mesma velocidade que passamos a ser, brilho próprio e força de foco.

O planeta girou e a gente saiu da roda. Não somos globais, longe disso. Regionais e autocentrados como senhores feudais ou burgueses reais, insistimos porque não existimos – o que aconteceu com a gente? Onde foi que erramos, onde paramos, para onde vamos e com quem? Voltamos tantas casas que já deixamos de jogar, perdemos o fio da meada, o bonde, tudo. Meu realismo, outrora pessimismo, é óbvio e raso, rasante e arrogante. É qualquer coisa para que se sinta qualquer coisa, quando mais precisamos é de uma injeção de ânimo.

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