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#16RenascimentoCulturaSociedade

Renascimento perpétuo

por Emmanuel Rengade

Foto de Tinko Czetwertynski

No dia 30 de junho de 2002 – dia em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo contra a Alemanha –, sofri um acidente quase fatal. Após ter deixado meu lucrativo emprego em Londres para renovar, sozinho, durante mais de um ano, uma pequena pousada em Picinguaba – uma minúscula vila de pescadores perto de Paraty –, resolvi fazer um break e ver o jogo na cidade. Não conhecia ninguém em Paraty, pois havia seis meses que só trabalhava. Na euforia do dia, encontrei algumas pessoas que me convidaram para assistir ao jogo. A Copa do Mundo era sediada no Japão e na Coreia, por isso a partida seria de manhã. Começamos a beber na véspera, continuamos durante o jogo e depois de o Brasil ganhar o título. A celebração duraria todo o dia.

No final desse segundo dia, acabamos em um barco a motor para tomar um banho de mar perto de uma ilha, na frente de Paraty. O barco era pequeno e meu novo amigo, Pipo – que um minuto depois salvaria a minha vida –, tirou a roupa e mergulhou da proa do barco, com seu impulso fazendo com que o barco girasse mais ou menos 180 graus, enquanto eu, sem perceber, me trocava. Mergulhei logo depois, de cabeça, pela frente, de onde Pipo mergulhara e onde eu pensava estar o oceano, então encontrando rochedos… Esta é minha última memória: um cachorro estava latindo…

Minutos depois estava consciente, coberto de sangue, e alguém costurava a minha cabeça no cais de Paraty. Colocaram-me num táxi para Mangaratiba, o lugar mais perto para uma ressonância. Não tinha nada. Voltei sozinho para Picinguaba e, chegando, encontrei meu vizinho, Marujo, que me viu com a cabeça enfaixada e me perguntou sobre o que acontecera. Falei-lhe que alguns alemães de má-fé insistiram em falar que a final fora roubada e que, portanto, tive de me meter na briga para defender a honra do Brasil (uma referência sutil à final entre França e Brasil em 1998…), e que, inevitavelmente, fiquei um pouco ferido…

Ele pareceu impressionado em como me levantei para defender seu país. Falei que eu era agora um caiçara legítimo, motivo pelo qual aquilo era totalmente normal. Depois, contei para ele a lamentável verdade. Desta vez, não pareceu nada surpreso ou impressionado, e simplesmente falou: “Ah, então você nasceu de novo!” Percebi que isso era exatamente o que acontecera. Tive uma segunda vida de graça! O que iria fazer com isso? Um sentimento de felicidade e força maravilhoso me invadiu. Depois de um ano muito difícil trabalhando, contra o conselho de todo mundo, para fazer nesse lugar o primeiro hotel boutique do país, sem dinheiro, num ambiente desconhecido e longe das cidades, consegui em pouco tempo transformar a Pousada Picinguaba em um dos pequenos hotéis de charme do Brasil. Tinha renascido. Nada podia conter minha energia renovada.

No decorrer da vida, morremos e renascemos muitas vezes, sem que isso seja necessariamente uma morte clínica. É um processo natural, como na natureza. Quando uma árvore recebe um raio, ela continua a prosperar; às vezes mais forte. Quando o mesmo raio provoca um incêndio, a floresta queima, as árvores mais resistentes sobrevivem, as sementes da grama germinam de novo, tudo renasce, regenera. Quando se corta uma bananeira, ela já cresce de novo, indefinidamente. A vida é muito forte. Sempre renasce. É muito difícil apagá-la. Nos desertos mais áridos ou frios, existe sempre vida. A contemplação da natureza nos ajuda a entender que temos uma ideia inexata da vida e da morte: uma não é o inverso da outra; mas a sua condição e necessidade. Celebramos os nascimentos, não as mortes. Outras culturas (no Xingu, por exemplo) fazem o contrário: o nascimento é natural, a morte é celebrada. A morte é a finalidade da vida.

—

Tenho 25 anos. Estou dirigindo, moro em Lisboa. De repente, em pleno centro da cidade, um carro passa no sinal vermelho e bate no meu a 80 quilômetros por hora. Não estou com o cinto de segurança. Em uma fração de segundo, o carro atinge a parte da frente do meu veículo, do lado do condutor. Uma fração de segundo mais tarde, eu batia no carro da frente, passando através do vidro. Não me machuco. Saio, chocado e bravo, gritando para o condutor imprudente. De repente, depois de meses sem conseguir, eu falo português! O meu carro está completamente fora de uso, sem chance de conserto. Vou para a companhia de seguro. Recuso-me a sair de lá sem um cheque. O cheque é cinco vezes o valor que paguei no meu carro na França (isso foi antes do euro e o meu veículo era um Turbo, na época muito valorizado em Portugal). Pela primeira vez na minha vida, tenho dinheiro no bolso. Mando-me para o Brasil. Viajo um ano com o dinheiro. Nunca mais voltei. Comecei uma outra vida. Renasci.

Tenho 30 anos. Estou agora no meio do mato, no interior do Ceará. Sou um executivo de uma grande empresa americana. Resolvi entrar na maior corrida de aventura de todos os tempos, no norte do Brasil. Oitocentos quilômetros em dez dias, a pé, de veleiro, de caiaque no mar, de bicicleta. Mas acabaram as minhas forças e fiquei perdido no mato. Estou numa rede dentro de uma casa simples, onde há uma paz incrível. Tenho febre. Estou delirando. Escuto um helicóptero me procurando, mas não tenho força nem vontade de me levantar. Estou bem, cercado do amor invisível das pessoas humildes que me recolheram. Não posso andar, tenho os pés machucados. Estou bem, muito bem. Corri durante anos, agora finalmente parei. Vou sair agora desta correria. Vou deixar de ser executivo, vou montar um hotel na praia, vou reaprender a viver. Renasci.

Tenho 35 anos. Estou em um lugar muito remoto da Patagônia, uma fazenda esquecida. E tão remoto que está cheio de animais selvagens, coelhos, raposas, pumas. Em um lago, pesco uma truta gigante, e a preparo para comer. Estou com uma linda mulher. Tomamos um banho num lago frio da montanha. Adormecemos no sol de verão. Quando acordamos, estamos cercados de uma dezena de lindos cavalos selvagens, que se aproximaram, curiosos… o momento está incrível. A natureza nos invade com uma evidência total. Algo dentro me toca profundamente. Sem que isso seja planejado, eu a peço em casamento. Não vejo outra coisa a fazer. Ela sente que eu vou fazer isso. Já entendeu, está pronta. Ela aceita. Ela se chama Filipa, que significa “que ama os cavalos”. Encontramo-nos a primeira vez faz apenas seis meses, numa praia, que se chama a praia da Fazenda. Agora eu sei que a minha vida vai ser compartilhada com ela até a minha morte. Renasci.

Mais tarde, sem bem entender como tudo isso ocorreu, Filipa e eu chegaremos a cuidar juntos de uma fazenda cheia de cavalos, natureza selvagem e lagos. Começamos, sem saber porquê, a seguir os caminhos que poderiam ter levado a uma fazenda, sem planos nem dinheiro, até que um dia ela estava lá. A fazenda ficou, pouco tempo depois, nas nossas mãos, como se fosse algo muito natural. Um dia percebemos que havia nesse lugar algo mais profundo, que nos ligava a uma realidade ancestral. Esta fazenda foi criada e construída por franceses que eram da minha cidade na França, Lyon, numa época em que o Brasil ainda era de Portugal. Filipa é portuguesa, e a família dela morou no Brasil nessa época. Gostaram muito do país, dedicaram-se a ele, mas tiveram de voltar à Lisboa e sempre tiveram saudade do Brasil.

Agora, por causa de alguns cavalos, Filipa voltou. É como se tudo, de uma forma totalmente inexplicável, nos impelisse a fazer o que fazemos hoje: construir, no Brasil, um país que não é o nosso, um lugar para as pessoas se reconectarem, um lugar de renascimento. A verdade é que esses lugares, a fazenda e o país, nos chamaram. Nessa história, o renascimento se confunde com o nosso destino.

É possível que, a cada vez que seguimos o nosso destino, na verdade renasçamos.

No México, centenas de milhões de borboletas Monarca vêm a cada ano do Canadá, sempre no mesmo lugar. Elas fazem mais de 5 mil quilômetros seguindo os ventos, e voltam do mesmo jeito. Mas, no decorrer deste ano, passam-se seis gerações; elas renascem seis vezes. Mesmo assim, sempre acham o mesmo lugar…

Somos bichos da natureza. Ela é o nosso ambiente natural e original. Não é uma questão de preferir campo ou cidade. É um fato. Por isso, por mais que esqueçamos, a nossa memória ancestral se lembra disso. Este ciclo da morte e da vida está gravado dentro de nós. As regras da natureza, então, aplicam-se a nós também.

No decorrer de nossa vida renascemos várias vezes. Talvez renasçamos um pouco todos os dias. Talvez, como na natureza, a gente nunca morra.

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