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Canteiros da Varanda, de Genaro de Carvalho (1966).
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Melodia das Tramas e a riqueza da tapeçaria brasileira

por Revista Amarello
Do abstrato ao figurativo, exposição reúne nomes essenciais da arte têxtil brasileira.

A Galeria Passado Composto Século XX inaugurou, em 29 de março, a exposição Melodias das Tramas – de Genaro de Carvalho a Jorge Cravo, reunindo um seleto conjunto de obras que ilustram a diversidade e a sofisticação da tapeçaria moderna brasileira. Com curadoria de Alejandra Muñoz e Graça Bueno, a mostra permanece em cartaz até 21 de junho de 2025 e ocorre paralelamente à participação da galeria na SP-Arte 2025.

Tapeçaria bordada, de Sylvio Palma (1973)

A exposição reúne obras de nove artistas que, em diferentes momentos e contextos, expressaram a identidade brasileira por meio da tapeçaria. Com estilos que vão do abstrato ao figurativo, a lista de artistas homenageados é de peso, com nomes fundamentais da nossa arte têxtil: Genaro de Carvalho, Jacques Douchez, Norberto Nicola, Jean Gillon, Rubem Dario, Sylvio Palma, Maria Helena Andrés, Gilda Azevedo e Jorge Cravo. O recorte temporal da seleção engloba obras criadas entre 1960 e 1988, e explora técnicas diversas, como tapeçarias planas e escultóricas, bordadas à mão ou tecidas no tear.

Essa pluralidade de técnicas se soma ao conceito central da exposição, que gira em torno da ideia de sinfonia visual, com cada obra refletindo um “compasso” único de formas e cores em harmonia. Melodias das Tramas, assim, canta e dança o legado de artistas que, ao longo das décadas, trabalharam com tapeçarias como forma de expressão artística, conectando elementos da natureza, da cultura e das tradições brasileiras. A exposição inclui não apenas tapeçarias, mas também cartões-modelo, pinturas, serigrafias, gravuras, quadros e desenhos, oferecendo uma visão abrangente das diferentes fases e processos criativos desses artistas. 

Tudo pensado para que a experiência visual da exposição seja sinestésica, convidando o espectador a perceber a interseção entre as cores, os ritmos e as formas como se fosse uma grande obra musical que atinge grande notas de brasilidade.

Além dessa abordagem ampla que se refere aos nove artistas, o título da exposição remete à musicalidade presente, sobretudo, na obra de Jorge Cravo (1927-2015), que iniciou sua trajetória na tapeçaria em 1972. Suas composições vibrantes dialogam com as experimentações dos demais artistas expostos, destacando-se pelo ritmo melódico e pela sofisticada combinação de cores e formas. Com um estilo único, suas tapeçarias parecem seguir partituras visuais, onde texturas e ritmos ganham vida própria, traduzindo influências musicais em tramas entrelaçadas. Sua obra é marcada por um tratamento sensorial, no qual a justaposição de tons e volumes evoca imagens, cadências e harmonias. Inspirado tanto pelo modernismo quanto pela cultura popular brasileira, Cravo conseguia transportar para a tapeçaria a expressividade do gesto pictórico e a fluidez do movimento sonoro, criando composições que parecem vibrar no espaço, como se o olhar pudesse escutar o que as tramas contam.

Para destacar outros nomes, o francês Jacques Douchez (1921-2012), que se estabeleceu no Brasil aos 26 anos, e Norberto Nicola (1931-2007) exploram a tridimensionalidade e a abstração em suas obras. Já o romeno Jean Gillon (1919-2007), que chegou ao país em 1956, e Rubem Dario (1941-1978) transitam entre o geométrico e o orgânico com notável elegância. Sylvio Palma (1946-1978) e Gilda Azevedo (1924-1984), por sua vez, criam composições vibrantes, nas quais cores e formas se misturam em uma coreografia visual.

Estandarte, de Norberto Nicola (1965)

Esta mostra, cujas escolhas denotam muito cuidado e um propósito claro, reflete o trabalho da Galeria Passado Composto Século XX, que, ao longo de 16 anos, tem se dedicado à pesquisa e ao resgate da tapeçaria moderna brasileira, colocando em evidência a importância dessa arte no contexto cultural nacional e internacional. A galeria continua a enaltecer a história e o legado de artistas, preservando a memória e a identidade têxtil do Brasil. Além da exposição principal, a galeria participa da SP-Arte 2025 com uma mostra individual de Jorge Cravo, também chamada Melodias das Tramas. 

Conversamos com Graça Bueno, que, além de curadora da exposição, também é proprietária da galeria. Confira abaixo:

Pensando nesse mosaico da tapeçaria moderna brasileira que vocês criaram, como foi o processo de seleção das obras para a exposição?

Graça Bueno: Esta seleção vem sendo formada ao longo dos últimos 16 anos, a partir da oportunidade de encontro com as obras artísticas que fomos nos apaixonando, e, intuitivamente, nos dedicamos à redescoberta ou ao resgate de artistas fundamentais para a tapeçaria moderna no Brasil. Alguns desses artistas são pioneiros, tendo sido reconhecidos ao longo de suas carreiras tanto nacionalmente quanto internacionalmente e tendo participado, simultaneamente, de exposições marcantes sobre este tema no Brasil.

A tapeçaria tem uma forte tradição artesanal, mas também abre espaço para inovações. Como vocês enxergam esse equilíbrio entre preservar as técnicas tradicionais e experimentar novas abordagens?

GB: Acreditamos na “Inteligência Artesanal” que envolve componentes e técnicas tradicionais ou inovadoras e sustentáveis, individualmente ou juntas em equilíbrio, executadas por artesãos especializados ou pelo próprio artista. O mais importante é que a obra seja executada com uma direção artística criativa e única, que a torne reconhecível como sendo do artista que a concebeu.

Fale um pouco mais sobre a relação da tapeçaria e a musicalidade, tanto especificamente na obra de Jorge Cravo quanto na exposição com um todo.

GB: A curadora Alejandra Muñoz comenta sobre o conjunto das obras: “Às vezes, parece que estamos diante dos compassos e movimentos de uma grande sinfonia.” Ruy Castro descreveu Jorge Cravo como “Cravinho”, para os amigos, um baiano fanático por cantores de jazz e pela música popular brasileira. Acreditamos que foi o amor pela música que sensibilizou o homem de negócios Jorge Cravo, fazendo-o revelar seu talento artístico, que também foi incentivado por amigos como Carybé e Jorge Amado.

Tapeçaria em lã, de Jorge Cravo (1972)

Vocês acreditam que há um crescente interesse pela tapeçaria moderna brasileira no circuito internacional de arte?

GB: Sim, acreditamos muito nisso. Além de colecionadores, temos recebido solicitações de curadores e instituições para o empréstimo de obras para exposições nos Estados Unidos e na Europa. Uma das participações internacionais mais significativas recentemente foi com obras do artista Genaro de Carvalho na exposição itinerante nos Estados Unidos: “Black Orpheus: Jacob Lawrence & the Mbari Club”, realizada entre 2022 e 2023 pelo Chrysler Museum, com curadoria de Kimberli Gant.

Impulsionado por artistas como Jorge Cravo e Genaro de Carvalho, que têm um impacto imenso, qual é o futuro da tapeçaria brasileira?

GB: O futuro e o presente passam por ver mais tapeçarias modernas sendo retiradas das reservas técnicas dos museus e incorporadas em exposições, tanto permanentes quanto temporárias, como atualmente na Pinacoteca do Estado de São Paulo, com a exposição “Tecendo a Manhã”, que inclui uma obra do nosso acervo do artista Genaro de Carvalho, além de obras de diversos artistas tapeceiros de outras coleções. Hoje, muitos artistas contemporâneos têm demonstrado o desejo de criar obras têxteis, seja em colaboração com artesãos ou feitas por eles mesmos, como, por exemplo, as tapeçarias da artista Beatriz Milhazes, que vêm sendo executadas em ateliês na região de Aubusson, na França, e recentemente foram expostas na Bienal Internacional de Veneza de 2024.

Melodias das Tramas – de Genaro de Carvalho a Jorge Cravo
Local: Galeria Passado Composto Século XX
Endereço: Alameda Lorena, 1996, Jardins, São Paulo
Período de visitação: 29 de março a 21 de junho de 2025
Horários: Segunda a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 14h

SP-Arte 2025
Local: Pavilhão da Bienal, Parque IbirapueraDatas: 2 a 6 de abril de 2025

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