
Anatomia de uma roupa: Carnaval Carioca – Universo dos Bate-bolas por FARM Rio
O Carnaval não precisa somente de sambódromo, camarote ou transmissão ao vivo para existir. Ele acontece onde houver gente disposta a celebrar. A criatividade brasileira sempre encontra um jeito de ocupar ruas, avenidas, vielas ou qualquer espaço capaz de abrigar energia, brilho e inventividade. E, nesse oceano de glitter e fervo, talvez ninguém encarne com tanta intensidade a vocação nacional para a folia quanto os bate-bolas.
“Para mim, o que os bate-bolas fazem é uma das coisas mais lindas que existem no mundo. Cada detalhe das fantasias conta uma história e eles fazem isso de forma sofisticadíssima, em muitas camadas. Isso é muito rico e é o extremo do que a gente faz na roupa casual. Por outro lado, até os dias de hoje, os bate-bolas são muito estigmatizados e colocados como uma cultura de violência. Mostrar o quanto essa cultura é coletiva, de família, de educação e de comunidade é fundamental.”
— Daniela Moritz,
Head de Direção Criativa da FARM Rio



Símbolos da cultura popular carioca, oficialmente Patrimônio Cultural local desde 2012, os bate-bolas tomam de empréstimo as ruas do subúrbio do Rio de Janeiro com fantasias e máscaras vibrantes para manter viva uma tradição que atravessa gerações e se confunde com a história da própria cidade. Meses antes de aparecerem no desfile informal das ruas, essas fantasias começam a ser planejadas nos quintais da Zona Norte e da Zona Oeste do Rio. É ali, longe dos grandes palcos e da “programação oficial” de trios elétricos, que são pensados os temas, os desenhos dos figurinos e a organização das turmas. Esses grupos não se resumem apenas à imagem impactante do personagem mascarado que corre, dança e performa. Ele faz parte de um processo, de uma comunidade, de uma herança, de um conjunto de técnicas que não para de se reinventar. “É um trabalho”, comenta Daniela, “que acontece o ano inteiro e ensina muito para a comunidade.”
Os bate-bolas deixam claro que sistemas culturais complexos também se expressam por meio do vestir. E, em um país tão vasto e diverso como o Brasil, essas manifestações se multiplicam e assumem formas distintas, carregando histórias, símbolos e modos de vida. A FARM Rio entende isso muito bem e, sensível ao que pulsa para além dos holofotes, tem uma unidade criativa dedicada a projetos especiais e coleções-cápsula com foco cultural.

“Dentro da FARM, temos uma unidade criativa que se propõe a falar da cultura brasileira com mais profundidade, com parcerias, vivências, pesquisas e imersões. Esse núcleo possibilita que a gente hoje tenha mais estrutura para convidar os protagonistas dessas histórias a contá-las junto com a gente. As coleções começam a ser desenvolvidas cerca de um ano e meio antes do lançamento e não seguem o calendário comercial da moda. Existe um comitê cultural, composto por pessoas de diversos times, que se reúne semanalmente para entender quais são as necessidades mais latentes para contarmos essas histórias. É uma troca amparada durante todo o processo de criação das coleções, da narrativa até a chegada no cliente final.”
— Domitila de Paulo,
Consultora de Comunicação e Marketing
O núcleo acolhe a complexidade de um país multifacetado e exuberante em suas muitas formas de existir, dedicando-se a investigações culturais aprofundadas. Como explica Daniela Moritz, “o grande barato de fazer moda é olhar para o Brasil”, especialmente quando existe “um tempo diferenciado para essa troca de saberes”. É como se as roupas deixassem de ser apenas objeto de desejo e passassem a operar também como linguagem e reflexão. “A gente olha pra roupa não apenas como um desejo estético, mas como um produtor de conhecimento da riqueza que a gente tem no Brasil.”

Nos últimos anos, por meio dessa célula criativa, a marca expandiu sua identidade carioca ao estabelecer diálogos com diferentes territórios e agentes culturais, como as indígenas Yawanawa e o artista e carnavalesco Alberto Pitta. Com a internacionalização, o olhar também se voltou para a América Latina, dando origem ao movimento Buena Gente. Em 2026, a marca assumiu o tema “As Cariocas” e naturalmente concentrou seu foco inventivo na cidade do Rio de Janeiro e nos movimentos culturais locais.


Chegar aos bate-bolas, portanto, foi questão de tempo. A unidade assumiu o desafio de olhar para além da superfície da festa e investigar as camadas sociais, históricas e simbólicas que sustentam a tradição do subúrbio carioca. Se pensar a anatomia de uma roupa significa desmontar o objeto final para compreender suas tramas invisíveis, no caso da fantasia de bate-bola isso envolve observar volumes, técnicas de costura, escolha de tecidos, composição cromática, iconografia, mas também compreender a tessitura social que permite que ela exista hoje e ontem.
“Os bate-bolas”, conta Daniela, “sempre encantaram muito a Katia [Barros, fundadora e diretora criativa da FARM] e a mim também, e fazia muito sentido trazer esta homenagem neste ano. O encantamento levou à curiosidade e à pesquisa. O primeiro passo foi chamar o pesquisador Luiz Antonio Simas, a Rafaela Pinah, nossa parceira de muitos projetos, que vive de perto essa manifestação, e a Luiza Sousa, que tinha acabado de lançar um mini documentário sobre os bate-bolas para a Revista Amarello, para uma espécie de letramento de todo o time da unidade criativa. O Simas fez uma associação que me marcou muito relacionando o movimento bate-bola com a morte do indivíduo em prol de um corpo coletivo. Ao mesmo tempo que é meio denso, eu também acho lindo, porque diz muito sobre o nosso trabalho. A gente faz as coisas a muitas mãos e ama ser coletivo, colaborativo. E essa também é a beleza dos bate-bolas: passa de geração em geração, você trabalha o ano inteiro pra ter o momento de celebração coletiva no carnaval.”
A pesquisa levou a equipe a Realengo, na Zona Oeste do Rio, bairro onde se concentra uma das tradições mais fortes do movimento. Entre aviamentos, brinquedos e rolos de tecido, encontraram o armarinho Peter Pan. O proprietário, Seu Hélio, é figura central na história. Por iniciativa própria, ele se tornou um guardião da memória dos bate-bolas, reunindo registros, fantasias e relatos ao longo dos anos. Esse gesto, feito de forma independente e movido por nada mais que compromisso afetivo, tem sido fundamental para preservar e fortalecer a tradição desses grupos.

Muito embora existam há décadas, os bate-bolas nem sempre tiveram a atenção midiática que mereciam. Porém, sempre houve quem lhes desse o devido valor, como Seu Hélio, que enxergou a beleza desses grupos. Se os jornais não tinham interesse em tirar fotos dos cortejos, tudo bem, Hélio tiraria.
“Quando olhamos para o Seu Hélio, entendemos que a existência dele e do armarinho Peter Pan eram uma resistência cultural dos bate-bolas, ainda que ele nunca tenha sido um bate-bola de fato. Ali existe um registro de muitos anos, um acervo de uma pessoa apaixonada por essa cultura que possibilitou que a gente construísse um visual que representasse também o nosso encantamento.”
— Zuri Kennedy,
Especialista em cultura e narrativas
Há mais de trinta anos, o comerciante fotografa as turmas que passam por sua porta antes de sair às ruas. Cada fotografia carrega nomes, histórias, mudanças de geração, transformações estéticas. Observando as imagens, percebe-se a evolução das silhuetas, a intensificação das cores, a incorporação de novas referências visuais. Ao mesmo tempo, há permanências, como o volume exagerado, o brilho, a dramaticidade. “O acervo de fotografias dele”, comenta Daniela, “foi uma super inspiração para a gente. Para a construção da coleção, a visita ao armarinho foi crucial e mudou muita coisa do que eu estava imaginando.”

A mensagem estava posta: o bate-bola não pode ser reduzido à estética. Ele é estrutura social, economia local, cadeia produtiva que envolve bairros inteiros. É tempo investido coletivamente, ao longo de meses, em torno de um projeto comum.
Foi justamente essa dimensão que chamou a atenção de Domitila durante o processo. Para ela, além do impacto visual dos bate-bolas, “a camada da coletividade” merece destaque. “O ‘fazer junto’”, afirma, “faz parte da felicidade, da autoestima, da comunhão familiar. E é muito importante o reconhecimento dos artistas responsáveis pela permanência de uma das linguagens culturais mais potentes do Brasil, que é o carnaval. Por vezes, a gente olha muito para o encantamento, a beleza, mas eu acho que a camada do coletivo é uma das mais bonitas. É onde as pessoas se veem e se reconhecem. A camada da construção de autoestima que o carnaval traz, no território do Rio de Janeiro, é uma das coisas mais bonitas de ser observada.”
A equipe se aproximou também da Turma do Chapeleiro Louco, acompanhando suas dinâmicas. Ativo desde 1989, o grupo abriu as portas de casa para a FARM, revelou etapas essenciais do processo de criação das fantasias e foi fundamental para o nascimento da peça alegórica que veio simbolizar a coleção. O nome do grupo, inspirado no personagem excêntrico de Alice no País das Maravilhas, vem a calhar: há um componente teatral e imaginativo evidente na concepção dessas indumentárias. Como, então, transformar essa densidade em linguagem de moda? Como traduzir exuberância sem caricatura? Como preservar a potência simbólica ao deslocar o contexto?


Rafaela Pinah, que participou da pesquisa, ajudou a traçar caminhos.
“Sou cria de Realengo, bairro que, na minha opinião, é a capital dos bate-bolas. Dentro das suas características estéticas, o bairro mudou esse percurso do clown ou do clóvis europeu para beber muito da Folia de Reis, do Babá Egun, da La Ursa do Recife… Foi incrível fazer parte dessa pesquisa, dividir minha vivência e apresentar os criadores dessa cultura, os verdadeiros estilistas que trabalham nisso o ano inteiro. Acho que a FARM teve um cuidado muito grande de ouvir essas pessoas e estar no território. Levar os meninos pra dentro do universo da FARM e apresentar pro time da FARM quem são os cabeças de turma, como os temas são desenvolvidos, foi uma conexão verdadeira. Existe um lugar similar de construção de identidade que foi muito genuíno.”
— Rafaela Pinah,
Pesquisa, direção criativa e styling para o editorial Bate-Bola da Farm
Se as fantasias originais se caracterizam por volumes amplos, mangas infladas, balonês dramáticos, a coleção precisaria incorporar essa lógica formal. Mas não fazendo uma cópia literal. A tradução exigiu estudo técnico: tecidos capazes de sustentar forma, construção interna que garantisse volume, acabamentos precisos que mantivessem sofisticação.
No processo de criação, Daniela Moritz partiu da forma como as fantasias transitam entre referências diversas, especialmente personagens do imaginário popular. “As fantasias dos bate-bolas sempre falam de personagens do universo infantil ao mesmo tempo que passeiam por outros universos”, explica. Esse trânsito entre repertórios guiou a criação das estampas, que buscaram estabelecer um diálogo entre essa tradição e o próprio DNA da marca. “Fomos atrás dos personagens da nossa raiz, do DNA da FARM, como o tucano e a arara, que tinham que estar representados, assim como Realengo e outros ícones do Rio.”




Em vez de reproduzir diretamente a estética das turmas, optou por traduzir suas camadas históricas por meio da cor e da linguagem gráfica. “Na coleção, as representações das gerações ficam mais evidentes na cartela de cor. As estampas em preto e branco representam as referências do carnaval antigo, como clóvis e pierrot, e as mega coloridas representam o contemporâneo”, afirma a designer. Assim, o preto e branco funciona como memória, enquanto a explosão cromática incorpora a energia atual das ruas, muitas vezes marcada por uma estética próxima ao cartoon e pela mistura intensa de símbolos.
O resultado é a coleção Carnaval Carioca: O universo fantástico dos bate-bolas.
“Essa é uma cultura extremamente marginalizada”, conta Rafaela Pinah, “e quando a FARM, uma marca global, vem de um lugar tão positivo fazendo essa campanha e apresentando esse universo tão rico pro mundo é muito prazeroso. Depois do lançamento, umas 10 turmas procuraram o escritório Coolhunter Favela para entender como esse encontro aconteceu. Teve uma mãe que me falou ‘eu não sabia que meu filho era um artista’. Então, ver pessoas que consomem a marca vendo os bate-bolas por outro viés prova que é possível a gente falar das culturas e dos feitos que estão desse lado do túnel, o lado que o Cristo está de costas. Essa coleção abarca todos os que são bate-boleiros e têm a vivência dos bate-bolas.”
Vestir uma peça inspirada nesse universo é inscrever no corpo uma narrativa coletiva. A moda, nesse contexto, opera como mediadora entre mundos, conectando o subúrbio ao circuito ampliado, aproxima tradição e contemporaneidade, coloca o fazer artesanal em diálogo com o sistema industrial. A anatomia dessas roupas revela, então, camadas sobrepostas: desenho, corte, costura, matéria-prima, além de escuta, pesquisa, deslocamento e responsabilidade cultural.
“A FARM sempre teve um olhar muito genuíno para o Brasil”, finaliza Zuri Kenedy. “De uns anos pra cá, tivemos uma virada de chave de olhar para os movimentos brasileiros por um viés de inspiração, mas decidimos ir além: queremos que essas histórias sejam contadas a partir das pessoas que as escreveram. O carnaval é a máxima potência do fazer manual e também da história do Rio, que é uma verdade para a FARM. Nosso interesse é celebrar quem continua perpetuando uma cultura. Quando buscamos os bate-bolas, quisemos nos conectar com quem fazia tudo de forma manual. Construir legado a partir dos fazeres genuínos do Brasil é o nosso jeito de contribuir para que uma cultura se mantenha viva.”
Lançada como parte de um movimento maior de exaltação da cultura carioca, a coleção carrega consigo o tempo do preparo, o gesto coletivo e o saber acumulado, honrando a cadeia de relações que permitiu que cada uma dessas peças existisse.
O que se veste é uma história compartilhada.

Descubra a coleção Carnaval Carioca: O universo fantástico dos bate-bolas
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