
Uma conversa de Lourenço Gimenes com Ellie Stathaki
A arquitetura brasileira carrega um paradoxo que é ser, numa só, uma grande potência e uma grande limitação. Estamos falando, claro, do legado do modernismo. Ao longo do século 20, Niemeyer e tantos outros projetaram o país para o mundo com uma linguagem própria cheia de ambição. Essa herança, no entanto, também se tornou uma espécie de lente, às vezes estreita, por meio da qual se define o que é ou não reconhecido como “arquitetura brasileira”.
Nas últimas décadas, uma produção mais diversa, que ora dialoga com o modernismo, ora o reinventa, vem aparecendo com força. A arquitetura do país parece habitar um campo de forças permanente, em que tradição e experimentação disputam espaço. O arquiteto Lourenço Gimenes e a diretora de arquitetura e meio ambiente da Wallpaper*, Ellie Stathaki, refletem sobre continuidades e rupturas, e tentam entender como o Brasil, com sua escala continental e diversidade incontornável, segue redesenhando a si mesmo através da arquitetura.
Lourenço Gimenes: Ellie, antes de começar a conversa de fato, é importante já colocar na mesa: o modernismo brasileiro é, ao mesmo tempo, nosso maior cartão de visitas e a nossa sombra mais persistente. Nomes reconhecidos no mundo inteiro, como Lina Bo Bardi, Roberto Burle Marx e os ganhadores do Pritzker Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha — mas também figuras fundamentais das diversas vertentes da arquitetura brasileira do século 20, como Vilanova Artigas, Affonso Reidy, os irmãos Roberto e Rino Levi, Oswaldo Bratke e Lelé, entre tantos outros — nos deram uma linguagem, uma ambição e certa autoconfiança. E, quase sem querer, esse legado acabou se tornando uma espécie de filtro, tanto aqui quanto fora, que por vezes determina o que “pertence” e o que simplesmente não entra na conta.
A ideia aqui é falar sem cerimônia: refletir, mais do que tentar decifrar qualquer coisa de forma definitiva, e explorar — a partir do seu olhar estrangeiro, atento e generoso — como esse legado ainda opera hoje. E o que a arquitetura brasileira das últimas décadas fez quando decidiu abraçar, tensionar, remixar ou simplesmente ignorar suas raízes modernas.
Olhando de dentro, e com todos os vieses que isso implica, talvez a arquitetura brasileira viva numa tensão constante entre “identidade” e “diversidade”. Como você lê esse atrito? Ele aparece, de alguma forma, na cobertura internacional?
Ellie Stathaki: Sim, entendo o que você quer dizer. O modernismo no Brasil — e, em certa medida, em várias partes do mundo — foi um movimento extremamente poderoso, com uma linguagem visual muito marcante. Por isso, desde que surgiu, acabou dominando tanto o debate quanto o campo criativo. Não sei se essa tensão entre “identidade” e “diversidade” aparece de forma tão explícita globalmente, mas concordo que a arquitetura brasileira costuma ser associada a certo “visual” que, para muita gente, parece representar melhor o país, e esse visual carrega claramente a herança modernista.
Ao mesmo tempo, já me deparei com escritórios muito interessantes que trabalham a arquitetura no Brasil por outros caminhos. Há práticas que dialogam com o modernismo em espírito, pela experimentação, pela abertura, por certo compromisso social, mas cuja estética não é imediatamente reconhecível como parte desse universo. Penso, por exemplo, no Apartamento Paraíso, de Julia Peres, Victoria Braga e Elky Santos, ou em trabalhos do Estúdio Flume, como o Centro de Referência das Quebradeiras de Coco Babaçu. Talvez seja esse espírito mais amplo do modernismo que aparece nesses casos, e talvez seja justamente essa dimensão que valha a pena preservar.
Ao mesmo tempo, o Brasil é um país tão grande, cultural e geograficamente diverso, que parece natural que sua arquitetura também seja.
LG: Acho que você tem razão: escala geográfica costuma trazer diversidade. E, sim, conseguimos apontar alguns nomes aqui e ali que produzem uma arquitetura menos comprometida diretamente com o modernismo. Ainda assim, como ele surgiu justamente no momento de grande expansão populacional para além do eixo Rio-São Paulo, faz sentido que tenha se consolidado como a linguagem que acompanhou essa ocupação do território, quase como a expressão arquitetônica de construir e moldar novos espaços. Nesse sentido, é um legado difícil de contornar. E nem se trata de evitar esse legado, mas de encarar o desafio de ir além dele.
ES: Acho importante lembrar também que essa necessidade de evolução foi um desafio do próprio modernismo em várias partes do mundo, praticamente desde o início. Era um movimento internacional, mas que precisava se adaptar a diferentes territórios e climas. Essas expressões regionais também são um legado rico e valem ser discutidas, exploradas e, por que não, levadas ainda mais adiante. Qual seria, por exemplo, o próximo passo dessa trajetória?
LG: Analisando historicamente, logo depois da inauguração de Brasília, o país entrou em mais de duas décadas de ditadura militar, o que acabou nos deixando um pouco desalinhados em relação às críticas ao modernismo que surgiam na Europa e nos Estados Unidos. Depois disso, prevaleceu mais uma lógica de retomada do que de ruptura. Pensar no próximo passo é difícil. Espero que a gente consiga honrar a arquitetura que nos formou, mas também assumir mais riscos, não por oposição, mas escapando de certas fórmulas, materiais e soluções já dadas.
ES: Não posso falar por todo mundo, mas talvez, para algumas pessoas, a imagem da arquitetura brasileira ainda esteja mais associada ao século 20 do que a períodos anteriores, justamente por causa do impacto do modernismo — além de todas as questões sociais, econômicas e políticas envolvidas. Ainda assim, gosto de pensar que hoje existe uma abertura maior para buscar alternativas às narrativas dominantes — em arquitetura e em outros campos. Vejo um interesse crescente por saberes locais, técnicas tradicionais e indígenas, e uma disposição para redescobrir elementos que sempre estiveram ali, mas foram menos explorados.
Também há questões globais, como as mudanças climáticas, que tendem a gerar respostas muito específicas para cada contexto, como deve ser. Tenho curiosidade de ver como o Brasil vai responder a isso. Acho que falar mais sobre a diversidade do patrimônio e das paisagens brasileiras, em todos os sentidos, ajuda a abrir esse campo de discussão. Ao mesmo tempo, pensar de forma lateral, ou até romper com o que se espera, também pode ser um motor potente, consciente ou não. Você percebe algo assim na arquitetura brasileira?
LG: Embora o mainstream, aquilo que circula mais, que é publicado e exportado, ainda esteja concentrado em um grupo relativamente pequeno, muitas vezes herdeiro direto ou indireto do modernismo, há exemplos fortes surgindo hoje que lidam com questões de identidade, tanto indígena quanto afro-brasileira, além de um olhar atento para materiais locais e climas específicos.
Ainda assim, essa arquitetura mais solta parece enfrentar uma crise de visibilidade. A arquitetura brasileira também é um campo bastante dominado por homens brancos, com pouco espaço para mulheres e menos ainda para pessoas negras em um país majoritariamente negro. Isso se reflete na pouca atenção da mídia e na posição ainda periférica em certos círculos acadêmicos. São barreiras que começam, aos poucos, a se desgastar. E, à medida que isso acontece, outras camadas da arquitetura brasileira vão se revelando, ainda que sempre tenham estado ali.
Mudando um pouco o foco: o que mais te intriga no Brasil hoje? A casa, esse objeto tão bem fotografado; a cidade, com seus conflitos; ou o ambiente, com sua urgência? E o que você sente que ainda é pouco representado na narrativa internacional?
ES: Acho que tudo isso é igualmente importante. Estamos todos juntos nisso, e na arquitetura também. Claro que há forças maiores que influenciam planejamento, financiamento e políticas públicas, mas acredito que até a menor casa pode fazer uma grande diferença. O modernismo, afinal, começou com muitas casas, inclusive habitação social.
Sou fascinada por casas pelo poder que têm e pelas vidas que expressam. E vale dizer: projetos residenciais são, de longe, o que mais recebo. Sem dúvida existem projetos públicos importantes pelo país, e eu adoraria ver mais deles. Na Wallpaper*, publicamos recentemente uma matéria sobre o renascimento de um projeto de Lina Bo Bardi em Salvador, na Bahia, onde a instituição Pivô trabalha com comunidades locais e artistas para reativar o edifício e seu entorno. Ainda é um plano em estágio inicial, mas a ideia me encanta. Se houver mais iniciativas assim pelo país, quero muito conhecer.
LG: O Brasil costuma olhar muito para os Estados Unidos e a Europa. Temos pouca troca com nossos vizinhos latino-americanos de língua espanhola, o que é curioso, e isso também aparece no diálogo arquitetônico. Você, por outro lado, tem um olhar mais transversal sobre a arquitetura global. Quando olha para o Brasil dentro da América Latina, como enxerga nossa produção em comparação com os pares? Mais tímida ou mais ousada? Mais presa ou mais livre? E, talvez mais importante, você vê pontos de convergência? Afinidades, preocupações comuns?
ES: Acho muito difícil rotular um país assim, então vou escapar um pouco da pergunta! Cada país tem seus próprios desafios — políticos, sociais, geográficos, climáticos. Vejo uma produção muito potente no Brasil, e gostamos muito de publicar isso. Há países da América Latina que acabam sendo mais difíceis de acompanhar, seja por falta de presença local ou de acesso a informações mais rápidas. Mas há muito dinamismo em toda a região, e faz parte do meu trabalho criar conexões com esses contextos. Temos uma relação longa com arquitetos e designers brasileiros, muito por conta do legado modernista, que sempre teve bastante espaço na Wallpaper*. Isso rendeu trocas muito ricas ao longo dos anos, inclusive com pessoas como você.
Isso não significa que eu não queira conhecer mais de outros países também. Há arquitetura incrível e gente criativa em todo lugar. E quanto mais a gente aprende e troca, mais oportunidades surgem, e mais interessante o futuro se torna.
LG: Tive uma ideia meio maluca agora: quem sabe a gente não organiza umas viagens de campo? Leva as famílias junto e tenta entender melhor a arquitetura latino-americana na prática. Topa?
ES: Eu ia amar!
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