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#56O que está acontecendo?CulturaLiteratura

Nos labirintos de Umberto Eco

por Silvana Maria Rosso

Dez anos após a morte de Umberto Eco, Bolonha abriu ao público um dos espaços mais aguardados por estudiosos e admiradores do escritor: a Biblioteca Eco. Instalada no histórico Palazzo Poggi, sede da Universidade de Bolonha, ela preserva não apenas cerca de 32 mil livros, mas a arquitetura intelectual de um dos maiores pensadores do século XX. Visitar esse acervo é percorrer os caminhos de uma mente que fez da curiosidade, da dúvida e das associações improváveis sua forma de compreender o mundo.

Quando um livro muda uma vida

Umberto Eco e sua Obra Aberta transformaram profundamente minha maneira de enxergar o mundo. Naquelas páginas, descobri que nenhuma obra está concluída em si mesma: ela só se realiza plenamente no encontro com quem a lê. Com Eco, compreendi que interpretar também é criar. Desde então, deixei de ser apenas espectadora para me tornar cocriadora de tudo aquilo que a arte, a arquitetura e a literatura colocavam diante de mim.

Essa descoberta me levou a percorrer outros caminhos de sua obra. Vieram os romances, os ensaios, a semiótica e o sonho (nunca realizado) de um dia ser sua aluna na Universidade de Bolonha. Quatro décadas depois, a vida desenhou um roteiro inesperado: Bolonha tornou-se meu lar. Caminhar por suas ruas é, de certa forma, acompanhar as trilhas deixadas por Eco.

Mesmo dez anos após sua partida, sua presença continua viva na cidade, agora ainda mais intensa com a inauguração da Biblioteca Eco. Visitá-la foi como entrar em uma cartografia da sua inteligência. Entre estantes, descobri não apenas os livros que leu, mas a rede de relações que alimentava sua curiosidade inesgotável. Foi dessa experiência que nasceu este texto, dedicado a um dos intelectuais que mais marcaram minha formação.

O homem que uniu saberes

Nascido no Piemonte, em 1932, Umberto Eco foi filósofo, semiótico, romancista, ensaísta e um apaixonado pelos livros. Professor da Universidade de Bolonha, contribuiu decisivamente para consolidar a semiótica e os estudos da tradução, mas conquistou o mundo também como escritor, sobretudo com O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault. Em sua obra, filosofia medieval, literatura, comunicação, cultura de massa e tecnologia convivem sem hierarquias, como se todo conhecimento integrasse um mesmo universo.

Sua biblioteca particular, com cerca de 32 mil volumes, refletia essa visão. Os livros não eram organizados para impressionar, mas para criar aproximações inesperadas. Eco acreditava que, muitas vezes, o livro de que realmente precisamos é justamente aquele que repousa ao lado do que procurávamos. Talvez esse seja seu maior legado: ensinar que o conhecimento nasce menos das certezas do que da descoberta.

Biblioteca Eco: percorrer uma mente

Poucos dias depois da inauguração da Biblioteca Eco, em julho deste ano, tive o privilégio de participar de uma visita guiada conduzida por Francesca Tancini, responsável pelo projeto de reinstalação do acervo, e por Ilaria Bortolotti, coordenadora da biblioteca. Mais do que conhecer uma coleção de livros, tive a impressão de percorrer a própria arquitetura do pensamento de Umberto Eco.

Instalada na ala novecentista do histórico Palazzo Poggi, sede da Universidade de Bolonha, a biblioteca ocupa um edifício onde séculos de conhecimento parecem repousar sobre as mesmas pedras. Entrar por seu discreto acesso na Piazza Puntoni é quase um rito de passagem. O ruído da cidade fica para trás e, pouco a pouco, somos conduzidos a um lugar onde as ideias continuam respirando.

Na casa de Eco, em Milão, a biblioteca ocupava um longo corredor de cerca de 16 metros, onde cada estante fazia parte de um percurso cuidadosamente construído ao longo da vida. No Palazzo Poggi, esse corredor precisou ser reinventado em ambientes distribuídos por dois níveis. A disposição dos volumes foi recriada com precisão, preservando a vizinhança entre os livros e, com ela, a arquitetura intelectual do escritor. O desafio não era apenas transportar uma biblioteca, mas reconstruir um modo de pensar.

A arquitetura das conexões

A transferência do acervo foi resultado de um acordo entre a família de Eco e o Estado italiano. A valiosa coleção de livros antigos foi adquirida pelo Ministério da Cultura e passou a integrar a Biblioteca Nazionale Braidense, em Milão. Já a biblioteca moderna foi cedida à Universidade de Bolonha em regime de comodato por 90 anos, encontrando abrigo no Palazzo Poggi, onde Eco lecionou durante décadas.

Foi durante a visita que compreendi uma das ideias mais fascinantes do professor: a “teoria do bom vizinho”, inspirada em Aby Warburg. Segundo esse princípio, o livro de que realmente precisamos nem sempre é aquele que procuramos, mas o que repousa ao seu lado. O conhecimento nasce da associação improvável, daquilo que chamamos de serendipidade. Por isso, Eco nunca se interessou por um catálogo definitivo. Preferia confiar na memória visual das estantes. Alguns livros permaneciam expostos de frente, como sinais discretos de orientação. Outros ocupavam o lugar privilegiado da altura dos olhos, indicando as questões que naquele período habitavam seu pensamento. Bastava percorrer as prateleiras para acompanhar o movimento de sua curiosidade. A biblioteca era um organismo vivo, capaz de se transformar à medida que novas perguntas surgiam.

Enquanto caminhávamos entre as prateleiras, Francesca Tancini chamava nossa atenção para relações que dificilmente surgiriam em uma biblioteca convencional. Carducci dividia espaço com Pinóquio. Dom Bosco surgia ao lado de Júlio Verne, Alexandre Dumas e Conan Doyle. Alberto Moravia aparecia próximo aos autores do Grupo 63, movimento literário do qual Eco participou e que se colocava justamente em oposição ao estilo de Moravia. Em outra estante, Dante encontrava um estudo sobre Maomé. Mais adiante, Orhan Pamuk dividia a vizinhança com Yukio Mishima. Aos poucos, deixei de observar os livros isoladamente para perceber o desenho invisível que unia todos eles.

Uma biblioteca sem hierarquias

Foi impossível não perceber que Eco jamais acreditou nas fronteiras entre alta cultura e cultura popular. A literatura infantil ocupava um lugar tão digno quanto a filosofia medieval. Quadrinhos, romances policiais, ficção científica e tratados acadêmicos compartilhavam o mesmo território, como se todos participassem da mesma aventura humana: compreender o mundo por meio das narrativas.

A coleção de livros antigos completa esse universo. Nela, Eco reunia obras sobre alquimia, cabala, sociedades secretas e autores que chamava, com humor, de “diabólicos”. Não porque buscasse verdades ocultas, mas porque era fascinado pelos erros da humanidade. Para ele, até as ideias equivocadas ajudam a contar a história da inteligência humana.

Ao deixar a Biblioteca, percebi que não havia visitado apenas o espaço que abriga uma coleção de livros, mas penetrado na cartografia intelectual de Umberto Eco. Ele nos lembra que o conhecimento raramente

segue um percurso linear. Constrói-se por desvios, encontros, descobertas e perguntas que surgem quando menos esperamos. Talvez essa seja a maior lição dessa visita: lembrar que toda obra permanece aberta. Cada livro espera um novo leitor; cada leitura inaugura uma nova possibilidade. Voltei para casa com a certeza de que Eco nunca quis nos ensinar respostas, mas a arte de continuar perguntando.

Nove séculos de conhecimento

Antes de chegar à Biblioteca Eco, é impossível não se deixar envolver pela história da Universidade de Bolonha. Fundada em 1088, a Alma Mater Studiorum é reconhecida como a universidade mais antiga do Ocidente em funcionamento contínuo. Diferentemente de outras instituições medievais, ela nasceu da iniciativa de mestres e estudantes, e transformou a cidade em um dos grandes centros intelectuais da Europa.

Durante séculos, as aulas aconteciam sob os pórticos, em conventos e residências particulares, fazendo da cidade uma verdadeira escola a céu aberto. Ao longo de quase mil anos, a instituição acompanhou as grandes transformações da história europeia: floresceu no Renascimento, enfrentou o controle papal após a Contrarreforma e renasceu no início do século XIX com as reformas promovidas por Napoleão Bonaparte.

Foi nesse período que a universidade se tornou uma instituição estatal e transferiu sua sede para o Palazzo Poggi, elegante edifício renascentista do século XVI que permanece até hoje como seu coração acadêmico. Em torno dele desenvolveu-se um importante polo científico e cultural, que reúne museus, bibliotecas, laboratórios e centros de pesquisa.

Hoje, com cinco campi, milhares de pesquisadores e estudantes de mais de uma centena de países, a Universidade de Bolonha continua fiel ao princípio que a fez nascer: o conhecimento como encontro, liberdade e diálogo. Não por acaso, foi no Palazzo Poggi que a Biblioteca Eco encontrou sua nova casa, integrando-se naturalmente a uma história que atravessa quase nove séculos.

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