
Entre o cartão-postal e a manchete
Entre os corpos sarados na praia, o futebol e o Carnaval, o Brasil existe na imaginação global em forma de uma fantasia reduzida, traduzida, simplificada. O Brasil que circula no mundo não é um lugar, mas sim uma coleção de imagens.
Esse é o Brasil-cartão-postal, aquele que provoca sorrisos quando alguém descobre de onde você é. Brasil! Calor, água de coco, caipirinha. Um passo de samba, como se o brasileiro fosse, por definição, alguém que vive em estado permanente de música. É um país de sol constante, de corpos bronzeados, de alegria espontânea. Um lugar em que as pessoas seriam naturalmente abertas, calorosas e sensuais.
Existe um imaginário tátil sobre o Brasil. É um país em que não se pensa, se dança. Que não se explica, se sente. O samba, a pele, o suor, o biquíni minúsculo, o futebol jogado descalço, a cerveja gelada na mão. O brasileiro como alguém permanentemente disponível para o encontro, para a festa, para o prazer. À primeira vista, parece um elogio. E talvez seja, afinal, essas coisas são, sim, parte do calor humano que nós esbanjamos de forma invejável. Mas é também uma forma de redução.
Essa sensualidade atribuída ao Brasil não é apenas sobre alegria ou liberdade corporal. Ela carrega uma longa história de exotização, do país tropical como espaço onde as regras seriam mais frouxas, onde os corpos seriam mais acessíveis, onde o desejo estaria sempre à flor da pele. Um lugar menos racional, menos contido, menos “civilizado” e, portanto, mais consumível.
Esse enquadramento tem gênero, tem cor, tem classe. A mulher brasileira, em particular, atravessa fronteiras já precedida por uma narrativa de beleza natural, disponibilidade afetiva, sexualidade aberta. Essa é uma imagem construída por décadas de turismo, publicidade, telenovela exportada e fantasia colonial. Não é raro que o elogio venha acompanhado de uma expectativa de performance, de comportamento, de proximidade física, que diz menos sobre a pessoa concreta e mais sobre o personagem que o estrangeiro espera encontrar.
Se o Brasil-cartão-postal é corpo e movimento, o Brasil-manchete é seu oposto. É medo, desprezo e pena. É o Brasil da pobreza, da extrema desigualdade, da violência urbana, da floresta em chamas, da corrupção, das crises políticas e da instabilidade.
Entre essas duas versões do Brasil, a que seduz e a que assusta, há pouco espaço para o Brasil cotidiano, da realidade. O Brasil que produz, escreve, pesquisa, filma, compõe, pensa cidades, discute clima. O Brasil gigante em indústria, agropecuária e inovação. O Brasil que não cabe nem no samba, nem na sirene.
Talvez por isso a experiência mais estranha de um brasileiro no exterior seja perceber que seu país é frequentemente infantilizado. Somos o povo da alegria, da improvisação, do “jeitinho”, da emoção que transborda. Qualidades que, vistas de longe, podem soar como uma forma de menoridade permanente, como se fôssemos incapazes de gravidade. Talvez o ponto mais revelador seja este: o mundo precisa que o Brasil seja síntese. Nós fomos formados no excesso. Ser brasileiro fora do Brasil é viver como prova da nossa complexidade. É ampliar e elaborar o cartão-postal e a manchete, explicar que o país do corpo é também um país de pensamento. Que a alegria não exclui a densidade. Que a dança não impede o cálculo. Que o calor humano não é ausência de reflexão, mas sim outra forma de inteligência social.
Entre o cartão-postal e a manchete, existe um país inteiro, sofisticado, contraditório e profundamente contemporâneo. E talvez a nossa tarefa, quando atravessamos fronteiras, seja justamente essa: devolver complexidade a um lugar que o mundo insiste em imaginar em duas dimensões.
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