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#24PausaArquiteturaDesign

Dentro de casa, fora de casa

por Leandro Ishioka

Dentro de casa, piso de madeira, sofá confortável e com tudo a fácil alcance. Do lado de fora, um jardim agradável, pedriscos e gramados. Abre a porta e sente aquela brisa fresca da madrugada. Tudo parece muito normal, não fosse o fato de o estar fazendo para suprir uma emergência fisiológica no meio da noite. Situação meio incômoda nessa aparente falta de conexão entre interior e exterior. Pode parecer algo inusitado, um dia num camping, uma aventura, quiçá apenas mais uma ideia para lá de absurda, quando paramos para pensar sobre isso nos dias de hoje. Já estamos demasiado acostumados com as comodidades de uma vida prática, conectados com as mais modernas tecnologias, tendo serviços feitos e entregues da forma mais instantânea. Nossas atividades mais simples são feitas de maneira semiautomática, sem que quase precisemos parar para pensar. Uma ideia como essa gera ao menos uma estranheza, um sentimento de dúvida.

É que, de fato, nem sempre foi assim. Mas, sobre isso, tomo a liberdade de emprestar a descrição de Junichiro Tanizaki, em seu ensaio sobre as sombras, e a forma inusitada como ele devaneia a respeito de alguns elementos aparentemente irrelevantes, mas de forte significado, da tradicional arquitetura japonesa.

…the Japanese toilet truly is a place of spiritual response. It always stands apart from the main building, at the end of a corridor, in a grove fragrant with leaves and moss. No words can describe that sensation as one sits in the dim light, basking in the faint glow reflected from the shoji, lost in meditation or gazing out at the garden.

Depois de ler esse trecho – e mais tantos outros – de uma descrição tão vistosa de algo aparentemente banal, é fácil se convencer da vontade de conhecer esse banheiro e, quem sabe, até mesmo tentar sentir a mesma comoção da qual Tanizaki se inebriava quando, há quase um século, estava a escrever seu livro. Parece que ele reflete sobre um momento, uma pausa do cotidiano da qual surge esse devaneio.


Nos dias de hoje, pela praticidade e pelo conforto que estimamos, salvo raras exceções, não nos permitimos mais passar por situações como essa. Mas a Casa Moriyama (Office of Ryue Nishizawa, 2005) se aproxima dessa reflexão. Em plena moderna e vibrante Tóquio, um conjunto de casas é ordenado sob o princípio muito claro de explodir o programa e o volume construído. Se, por um lado, funciona atualmente como conjunto residencial, foi projetado para facilmente ser também uma única residência, caso o proprietário assim a desejasse. Nessa hipótese, seria, no mínimo, ainda mais ousado.

Como um experimento, a noção de quarto, corredor e limites na Casa Moriyama se altera através de uma ordenação dos volumes que se apoia nos espaços livres que circundam, envolvem e conectam as áreas interiores. Por serem diminutos em sua escala, os cômodos são percebidos isolados como pequenos volumes desde o lado de fora; internamente, envolvem o morador como aconchegantes abrigos. Essa relação direta de tamanhos entre o homem e a edificação aproxima os moradores da arquitetura da casa e da percepção das diferenças entre os cômodos.

Dessa forma, a mudança de um cômodo para outro adquire um sentido que vai contra a atual tendência das plantas abertas e multifuncionais, que, em termos muito simples, busca unir os espaços compartimentados em apenas um grande e único salão. Na hipótese do conjunto ser uma única casa, os cômodos poderiam ser percebidos um a um, de forma individual. De certa maneira, na mesma forma como descreve Tanizaki. Sair de um aposento não significa mais sair do quarto apenas, mas passa a ter a mesma relevância que o sair de dentro de casa. Para fazer essa troca, é inevitável percorrer os vazios entre os volumes construídos, perceber o exterior – o frio de um inverno rigoroso, o calor úmido do verão japonês, a brisa que anuncia o outono e mesmo as flores que desabrocham durante a primavera. É a proposta de experiência de uma casa que convida – para não dizer obriga – seus moradores a conviverem diariamente com o mundo exterior.

Apesar de separados e entendidos individualmente, os espaços têm a relação intensificada. Os cômodos, complementados pelos espaços livres envolventes, são percebidos tanto como um conjunto de blocos quanto como dentro de suas próprias especificidades. Assim, o espaço e os sentidos se arranjam num experimento em que fora de casa se torna, mais do que nunca, dentro de casa.

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