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#41FagulhaArteArtes Visuais

Pinball ou horror vacui

por Rafael Alonso

Toco o interfone, aguardo alguns minutos numa esquina da rua Conde de Irajá, na parte mais estranha e confusa, de frente para um posto de combustível que funciona dia e noite abastecendo carros movidos a gás. O lugar está cheio de taxistas e motoristas de aplicativo conversando aos berros, com seus carros amarelos e azuis, pretos e prateados, com faróis de xenônio brancos ofuscantes, lanternas vermelhas, laranjas e bigorrilhos verdes reluzentes. Rafael Plaisant desce para abrir o portão e, enquanto subimos os lances de escada para seu apartamento-ateliê, noto que seus braços e pernas são repletos de tatuagens; uma caveira na mão esquerda, uma cigarra no antebraço direito, uma caravela numa das canelas, uma flor na panturrilha direita. A sala da casa é tomada de objetos de origens e usos dos mais variados: uma antiga vitrola acoplada a uma imponente televisão de 40 polegadas, uma luminária de alumínio industrial bastante grande e desproporcional adaptada e localizada sobre uma mesa de jantar, um par impecável de cadeiras Wassily, um sofá surrado, porém confortável, de desenho genérico de frente para a TV. Plantas trepadeiras bastantes comuns convivem com exemplares mais exuberantes. As paredes são completamente cobertas por gravuras compradas em leilões online, objetos de artistas autodidatas, pôsteres e trabalhos de artistas amigos. Isso tudo num cômodo de dezoito metros quadrados.

Atuando como tatuador há duas décadas, o exercício do desenho e da pintura sempre correu paralelamente a seu trabalho nos estúdios mundo afora. Ele revela, no entanto, que o isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19 foi o evento determinante para pôr em primeiro plano sua prática artística. Impossibilitado de tatuar e, ao mesmo tempo, cada vez mais mergulhado nos processos de pintura, Plaisant começou a utilizar o Instagram para tornar visível sua recente produção. Alguns meses e diversas pinturas vendidas depois, suas obras foram notadas na rede social por um jovem galerista nova-iorquino, que imediatamente propôs uma mostra individual, ocorrida no meio do ano de 2021.

Nas palavras do artista: “Em minhas obras, proponho explorar texturas e movimentos visuais em pinturas abstratas que evocam certos elementos simbólicos multiculturais e ancestrais. São composições simétricas, marcadas por profusão formal, que buscam discutir os limites entre as ambições universais das linguagens abstratas em contraste com suas vocações vernaculares, populares e pop. A pesquisa também tem como base certos ritmos da arquitetura déco, brutalista, do imaginário da ficção científica, dos quadrinhos psicodélicos e da arquitetura experimentalista e do anti-design dos 1960-1970”.

Estar diante de uma pintura de Rafael Plaisant é se defrontar, portanto, com um conjunto bastante heterogêneo de referências visuais e conceituais associadas simultaneamente. Mas que organização visual seria capaz de acomodar tal quantidade de elementos?

Plaisant parece, não sei se por alguma reminiscência de sua formação em arquitetura, criar um sentido de ordem baseado em composições sempre simétricas e geometrizadas. O artista consegue, dessa maneira, seja por justaposição ou sobreposição, acomodar formas abstratas, passagens tonais, acordes cromáticos e elementos lineares de maneira a produzir, apesar de toda a profusão de elementos, um sentido contemplativo, quase de transe, em suas composições. Podemos pensar nelas como grandes plantas urbanísticas de cidades impossíveis, como janelas de naves espaciais que cortam paisagens áridas, ou, ainda, como diagramas religiosos de alguma seita de origem obscura.

Suas composições abstratas remetem, por outro lado, às clássicas máquinas de pinball multicoloridas, muito comuns até pouco tempo atrás nos fliperamas de qualquer cidade do mundo. É importante salientar que Rafael é de uma geração de artistas que pertence à passagem da era analógica para a digital. Viveu, como vários de nós, uma primeira metade da vida ainda sob a égide da mão, o que pode explicar outra parte importante de sua prática: o fazer manual extremamente meticuloso. Seu método de construção passa, na grande maioria das vezes, pelo lançamento de um grande plano de fundo policromático, que é, dia após dia, sobreposto por elementos geométricos e lineares adicionados de maneira aleatória e equilibrados por seus equivalentes espelhados. Uma espécie de jogo de cartas que vai sendo reorganizado a cada nova rodada. Tudo isso guiado pelo uso de réguas e mascaramentos que ajudam e evidenciar, em suas estruturas, arestas muito bem definidas.

É importantíssimo ressaltar o papel da cor em seus trabalhos. Novamente, podemos perceber que o jogo baseado em certa aleatoriedade guia os movimentos do artista. Quero dizer, com isso, que sua articulação, longe de ser um golpe de sorte, funciona mais como uma improvisação musical, em que a nota cromática ou acorde anterior propõe uma pergunta visual que é respondida pela nota ou acorde seguinte. Dessa maneira, acordes bem equilibrados, baseados em analogias cromáticas ou de temperatura, são surpreendentemente associados a cores fluorescentes e hipersaturadas, formando articulações de cor imprevisíveis.

Por fim, talvez faça pouco sentido continuar tentando nomear a multiplicidade de sentidos proposta nas composições do artista. Como toda boa pintura, a obra de Rafael Plaisant se constitui fundamentalmente pela força de sua intrigante presença.

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