
O Brasil pós-religioso existe? Afastamento e aproximação da espiritualidade
Em períodos de incerteza, as religiões se transformam e passam a ocupar o espaço do Estado.
Nos últimos anos, uma transformação tem se desenhado no panorama religioso brasileiro e ela vem sendo cada vez mais sentida no dia a dia: o número de brasileiros que se declaram “sem religião” cresce de forma consistente. Segundo levantamento do Datafolha de 2024, 10% dos brasileiros disseram não ter religião — em SP, uma capital considerada progressista, o número chega a 25%. Em 2010, de acordo com o Censo do IBGE, esse número era de 8% dos brasileiros. Embora o IBGE ainda não tenha divulgado os dados completos do Censo Demográfico dos anos 2020 (o último é de 2010), tudo indica que essa tendência de crescimento se confirmará, acompanhada também da expansão do número de evangélicos e de adeptos a outras formas de religiões. Estaríamos, enfim, vivendo um processo de secularização no Brasil? Ou, na verdade, estamos substituindo as religiões tradicionais por novas espiritualidades?
A configuração atual do campo religioso brasileiro, marcada por fluidez, pluralidade e reconfigurações simbólicas, sugere que a resposta não é simples e que o fenômeno exige uma análise mais profunda e multifacetada.
A ideia de que o Brasil caminha rumo a um país “pós-religioso”, à semelhança do que ocorre em partes da Europa, é tentadora. No entanto, ela pode obscurecer o que está de fato em curso: uma transformação qualitativa e não necessariamente o enfraquecimento da religião. O fenômeno é, ao mesmo tempo, estatístico, cultural e político.
Na década de 1970, o país era majoritariamente católico: cerca de 92% da população se declarava fiel à Igreja Católica, segundo o IBGE. Hoje, esse número caiu para quase a metade. Em contrapartida, o número de evangélicos cresceu vertiginosamente. Estudos estimam que, até 2032, os evangélicos possam ultrapassar os católicos como grupo religioso majoritário no país.
Contudo, a ascensão dos evangélicos não é o único dado relevante. Outros grupos, como o espiritismo kardecista, o candomblé, a umbanda, as crenças esotéricas e práticas como o reiki, o yoga e o xamanismo também têm conquistado adeptos, especialmente entre jovens urbanos de classe média e alta. Há ainda os que se definem como “espiritualizados” sem vínculo institucional, fenômeno que desafia as categorias tradicionais de religiosidade e põe em xeque a oposição simples entre religioso e secular.
Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, o sociólogo Roberto Dutra afirma que “as igrejas pentecostais formam quadros e lideranças com enraizamento social em um ritmo e capilaridade que não se vê em nenhum partido, sindicato ou movimento social.” Sua análise aponta para o fato de que o crescimento evangélico não se limita ao campo da fé pessoal, mas constitui uma nova forma de mobilização social, especialmente entre as camadas populares. Essa capilaridade faz com que a religião funcione também como estrutura de apoio material, emocional e político. Em um país com altos índices de desigualdade, insegurança alimentar e desemprego, a igreja muitas vezes ocupa o lugar do Estado.
A pesquisadora Lívia Reis vai na mesma direção ao comentar, em entrevista à Revista Casa Comum, que “as pessoas vão à igreja para buscar paz, já que vivemos em um sistema neoliberal que exige muito de nós. […] E há o discurso de valorização do ser humano nas igrejas, porque elas se adaptam ao mundo e ao contexto cruel vivido em determinado momento.” Essa afirmação joga luz sobre um aspecto essencial da permanência e reinvenção da religião no Brasil contemporâneo: longe de desaparecer, ela se transforma para responder às demandas subjetivas e sociais do presente.
A secularização, entendida como a progressiva separação entre religião e esfera pública, é um fenômeno típico das sociedades modernas ocidentais, mas nem sempre se manifesta da mesma maneira. No Brasil, há indícios de que a fé continua exercendo papel central na vida cotidiana, mesmo entre os que não se vinculam a uma religião específica.
O campo religioso brasileiro não está em retração, mas em reorganização. A religião não desaparece: ela muda de linguagem, de institucionalidade, de estética e de presença na esfera pública. Em vez de uma ruptura com o sagrado, o que se observa é um hibridismo crescente — uma espiritualidade fluida, muitas vezes personalizada, moldada por experiências subjetivas e por influências culturais globais.
Esse novo perfil religioso desafia os próprios centros de pesquisa, que tradicionalmente perguntam sobre filiação institucional. Mas como medir quem acredita em Deus, ora diariamente, pratica meditação, mas não pertence a nenhuma igreja? O sociólogo francês Danièle Hervieu-Léger chamou esse fenômeno de “bricolagem religiosa”: um arranjo individualizado de crenças e práticas.
Rodrigo Toniol, da Folha de São Paulo, escreveu: “Esqueça os estereótipos. Os ‘sem religião’ não são ateus revoltados ou jovens sem fé. Trata-se de um grupo cada vez maior, que tem redefinido a relação com o sagrado. Eles questionam as instituições, subvertem a lógica das comunidades de fé e desafiam o dogmatismo institucional.”
O Brasil, portanto, não vive exatamente um “pós-religioso”, mas sim um “trans-religioso”: o que está em jogo é a transição de um modelo institucional de religiosidade para um campo mais fluido, híbrido, múltiplo. A religiosidade se reconfigura em resposta às dinâmicas da vida moderna — e esse processo está longe de se esgotar.
A secularização, se há, é parcial e ambígua. Em vez de um afastamento do sagrado, talvez estejamos diante de um novo modo de nos aproximarmos dele.
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