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Mancha ou alguma hora a gente precisa usar short

por Marina Lattuca

Quando eu tinha 7 anos apareceu a primeira manchinha no meu nariz. Parecia um pingo de leite branquinho. Mas logo os pingos se tornaram poças, as poças se tornaram manchas e, por fim, as manchas se tornaram grandes nuvens nublando partes do meu corpo. Meu rosto tinha uma máscara branco-rosada, minhas pernas pareciam botas cor de creme. E eu comecei a me incomodar com os olhares.

Na época o vitiligo era uma doença pouquíssimo falada. A única pessoa que eu conhecia com vitiligo era o Michael Jackson. E nem conhecer eu conhecia. 

Dois anos depois a minha irmã gêmea teve seus primeiros respingos lácteos pelo corpo. Éramos duas, então. Começamos a buscar tratamentos por todos os cantos da cidade junto de nossa mãe. Bebíamos refrigerante mineirinho com folha de serralha. Passávamos pomadas caríssimas. Tostávamos no sol até a pele e os ossos doerem. Até que começamos a fazer um tratamento de luz, em que entrávamos em uma espécie de cova de bronzeamento artificial. A caixa irradiava raios tóxicos que matavam o vitiligo e tudo que existia embaixo dele. Foram anos assim. 

Morávamos em São Gonçalo e frequentávamos o Hospital do Fundão três vezes por semana para queimar a pele por opção. Alguma hora aquilo começou a ser demais. Desistimos. Eu usava calças grossas e bermudas abaixo do joelho com vergonha das minhas botas brancas. Os olhares maldosos sempre superavam os curiosos. 

A minha mãe na época começava a ter algumas manchas também. Mas não de vitiligo. As dela eram mais escuras, arroxeadas, e não vinham de dentro para fora, mas de fora para dentro. Do meu pai. De certa forma, as nossas que vinham de dentro, eram semeadas pelas manchas que, de fora, ele causava na minha mãe. Batia, empurrava. E estávamos resignadas: as manchas não tinham tratamento. 

Quando pela enésima vez ele tentou mais uma vez marcar minha mãe com a mancha escura e dolorida ela carregou as filhas e foi embora. Fomos pulando de casa em casa. E minha mãe de emprego em emprego. As manchas foram diminuindo aos poucos. As dela sumiram. As nossas insistiam em aparecer. E eu cobrindo a pele. Mas o vento insistia em soprar a nuvem por lugares do corpo que eu não conseguia cobrir. 

E eu tinha meu primeiro encontro. Sofria de antecipação por medo das danças que as minhas roupas poderiam fazer, pregando peças em mim. Mostrando as manchas. 

Vai de short. Alguma hora ele vai ver que você tem vitiligo, não tem jeito. Disse uma amiga da escola na época. E era verdade. Alguma hora ele ia ver que eu tinha vitiligo. 

Alguma hora minha mãe entendeu que cobrir as manchas, não fazia elas doerem menos. E eu, também. E vesti meu short.

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