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#11SilêncioArteArtes Visuais

Portfólio: Mariana Tassinari

por Mario Joia

A série Requadros faz a produção da artista paulistana Mariana Tassinari avançar em vetores poéticos bastante interessantes. Uma relação mais imbricada com a arquitetura é um desses ganhos. É bem evidente o quanto a serialização de formas e temas da artista é influenciada pelo lugar de onde partiu a criação de Tassinari: uma planta industrial no interior de São Paulo, típica da arquitetura paulista, tributária do brutalismo em âmbito internacional na área, a destacar estruturas, concreto, e soterrar quaisquer adornos e excessos.

O dado autobiográfico é forte na realização do conjunto. Mariana passou férias de infância e adolescência na região e, hoje, revê com o olhar de artista vestígios, volumes e edifícios que povoam seu repertório desde cedo. Com Requadros, une memória, construção, rigor conceitual e um olhar singular na sedimentação de sua obra, cujo corpo fica cada vez mais robusto.

Companhia Açucareira Vale do Rosário. A etiqueta em um desbotado amarelo grudada em um antigo pôster mal revela suas borradas inscrições, mas dá indícios da imagem que acaba se expandindo para o extracampo do atual registro. Retangular, lembra e reflete – já que existe uma fotografia do conjunto exibido em Requadros, na qual a artista insere suas formas geométricas, de modo digital – as intervenções de cor que Mariana Tassinari trabalhou e desenvolveu em variadas séries, desde 2005, de maneira discreta e consistente.

Requadros talvez seja o recorte de Tassinari mais próximo da arquitetura que assina, ela que, antes de optar pelo curso de artes plásticas, trilhou alguns anos entre as pranchetas, os croquis e as maquetes. Representa ainda um momento mais silencioso na produção da artista, quando demora mais na seleção das imagens a serem trabalhadas e exibidas. Tais recortes, contudo, mexidos com sutileza, evocam com mais força a especificidade desses registros.

Boa parte de Requadros foi captada na metalúrgica Morlan, em Orlândia, próximo à Ribeirão Preto, no interior paulista. A antiga terra roxa de lá, que turbinou a política café-com-leite da República brasileira, hoje é território para a massificada cultura de cana, com usinas ainda de grande poderio econômico. Nesses campos particulares, a planta fabril da Morlan, fundada pelo avô de Tassinari, tem uma história com traços peculiares. O projeto de Eduardo de Almeida, um dos principais nomes da escola paulista de arquitetura, ao destacar estruturas e eleger o concreto como um dos seus eixos, por que não, poéticos, une simplicidade e um caráter permeável a todo o conjunto da construção. Isso transparece nas fotografias de Tassinari, que evidentemente guarda uma perspectiva afetiva – passou na região muitas férias – a respeito da edificação e cuidadosamente retira extratos imagéticos que servem para estabelecer sua série.

O cinza das paredes, o verde dos blocos, o amarelo esmaecido dos pôsteres, o ocre das poltronas e, principalmente, o branco-gelo das lousas geram as relações cromáticas que vão guiar boa parte da sedução visual do conjunto. Combinados numa atmosfera melancólica, esses elementos enfatizam um momento mais fragilizado da escola paulista de arquitetura, tributária do brutalismo e do modernismo na área, a evidenciar a robustez dos materiais e os diálogos entre essa presença e os vazios criados nos prédios. É como se esse discurso da arquitetura brasileira, que teve dias felizes, de ressonância internacional, até a década de 1960, não obtivesse mais receptividade, perdesse interlocução e se desfizesse nas próprias formas.

Parece que o aspecto igualitário, concretamente trazido nos projetos de Almeida e outros grandes nomes, recuou e hoje, com honrosas exceções, sucumbiu a programas bem mais individualistas e cerrados ao público – é só citar o estilo neoclássico, os condomínios fechados e os shoppings/arranha-céus à beira de vias ‘marginais’ para atestarmos a derrocada do modelo. Assim, o esplendor de um movimento próprio e autoral na área parece hoje resistir apenas em memórias, tornando o caráter vestigial – tão destacado por teóricos da fotografia como Susan Sontag e François Soulages – empreendido por Tassinari uma atitude de resistência política. “Uma foto não é uma prova, mas um vestígio do objeto a ser fotografado […]; é, portanto, a articulação de dois enigmas, o do objeto e o do sujeito”, ressalta Soulages.

A geometria sensível criada pela artista vai se revelando aos poucos. Se em Requadros as intervenções de cor são menos presentes, o trabalho em cima dos registros, via sobreposições, reenquadramentos, cortes e referências ao extracampo, é ainda forte, mas não é visível a priori ao observador. Em dípticos, trípticos e polípticos feitos em 2008, um de seus anos mais produtivos, existia uma ressignificação de registros triviais que, pela edição e nova ordenação dela, avançavam rumo a questões da pintura, por exemplo. Em outras séries, Tassinari parecia enfatizar que não era apenas uma artista de pós-produção, colocando então, sobre imagens fotográficas, o traço de desenhos bastante delicados. Hoje, em Requadros, parece assimilar mais o que é dado, o que, diante do caos de informações e imagens, pode ser recolhido e reinterpretado, mas com uma visada menos ostensiva. Dialoga com a solidez do que mais nos ladeia, “corporificada” nos móveis tão sóbrios, que cria como uma proposta multidisciplinar, a dar conforto e estimular o olhar nos momentos mais ordinários, mas não menos potentes.

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