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Televisão

Fugir não basta: Lucas Paraizo e Luisa Lima falam sobre Os Outros

por Revista Amarello

Os Outros, série da Globloplay. Reprodução.

Ao longo dos episódios, a série Os Outros vem ampliando seus cenários e complexificando suas dinâmicas de convivência e conflito. Na terceira temporada, a produção da Globoplay deixa o ambiente urbano e se desloca para o campo, aprofundando ainda mais suas tensões dramáticas. Nesta entrevista, o roteirista Lucas Paraizo e a diretora Luisa Lima falam sobre as mudanças de percurso, as escolhas narrativas e os desafios de transformar diferentes espaços em matéria de investigação sobre as relações humanas. A dupla também comenta o processo criativo e a construção de uma série que busca constantemente se reinventar.

Luisa Lima e Lucas Paraizo. Foto de Fernando Young.

Ao longo das temporadas, Os Outros vem mudando de ambiente e de dinâmica, e agora chega ao campo. Queria que vocês falassem um pouco sobre as diferenças entre as temporadas e o que a terceira tem de diferente em relação às anteriores.

Lucas Paraizo: Eu acho que Os Outros sempre foi um projeto que, de alguma maneira, traduzia o desejo de fazer uma coisa que a gente também não sabia exatamente o que era, e que a gente materializou num tema que é a intolerância, num cenário que trouxesse a questão da vizinhança, da relação social, estrutural, urbana. A ideia era trabalhar muito a dinâmica de escalada.

Luisa Lima: E a dinâmica de inversão de expectativas. O Lucas tinha imbuída na primeira temporada, depois de ter feito muitas temporadas de Sob Pressão, essa compreensão que a gente considera muito importante para as séries, dessa construção da fissura, do desejo de ver o próximo episódio, daquele gancho irresistível, que você fica quase como tomado por aquela obra, que é feita de tantas partes, porque ela realmente se realiza no conjunto dessas partes. Por isso que você vê um e pensa que precisa ver mais. É um todo dividido em 12 partes, né? Na primeira temporada, isso já veio como mandatório na construção da arquitetura narrativa. E aí tem também a parte da dramaturgia, que conversa com as séries internacionais daquele momento, mas também com o cinema sul-coreano, especialmente quando a gente viu Parasita.

Ele já tinha começado a escrever e falava que queria que as pessoas não soubessem o que estavam sentindo. Queria mostrar esse absurdo, que uma hora dá vontade de rir e é trágico, mas ao mesmo tempo é melodrama, e a pessoa fica nervosa. A gente queria muito criar essa sensação no espectador, de ele ter um sentimento no mínimo ambíguo, no mínimo equivalente. Eu tenho pena, mas também tenho raiva. Eu acho graça, mas estou rindo da tragédia do outro. Eu me vejo, tenho uma identificação. Quando o Lucas me convidou, me apropriei disso, porque eu tinha que dar pedal para essa narrativa. Porque, narrativamente, o texto é primoroso, é uma construção em todos os aspectos. Mas o texto é o texto, a gente tem que transformar o texto em matéria: são os atores, são os cenários, os ambientes, é o campo, é o condomínio. O que é gravar uma série dentro do condomínio da Barra? A gente sempre quis trabalhar em condomínios que ficam em lugares meio ermos, como um “deserto” dentro do Rio de Janeiro, que tem no meio do condomínio, em que aquelas pessoas vivem naquele microcosmo de uma realidade idealizada e vão descobrindo que, na verdade, aquilo é uma prisão. E que elas estão ocupando o espaço público da pior forma possível, com uma intolerância a dois passos da casa. Então, adianta essa idealização de comunidade, de sociedade?

A gente sempre quis fazer uma série que fosse entretenimento, mas também que conversasse com a sociedade, que expressasse o nosso sentimento diante do mundo que a gente vive, a partir também de experimentação formal. A televisão é esse lugar de laboratório, de experiência, de repetição industrial, mas também com capacidade de trazer outras coisas para dentro, conversar com o cinema, com a dança, com tudo, fazer disso um grande campo de avanço formal. Então Os Outros vem com essas características. Na segunda temporada, o Lucas já queria mudar de ambiente.

LP: Eu já tinha ficado sete anos com o Sob Pressão dentro de um hospital. Eu escrevi outros cenários não só por isso, obviamente, mas eu acho que Os Outros, a cada cenário em que você coloca essa temática, dá uma nova perspectiva de onde essa intolerância está se infiltrando.

LL: Ela não está localizada, ela faz parte de um Brasilzão.

Tem algo muito forte ali que é a vida comum. Tudo aquilo pode acontecer com quem está assistindo. A tragédia e a banalidade quase se confundem.

LP: É verdade. A gente nunca deixou de querer dialogar, comunicar, provocar debate, mas, ao mesmo tempo, ter propósito, reflexão. 

LL: A gente gosta de dizer que é cria da televisão, que sempre foi um lugar de muita produção e também de proposição de linguagem. É onde a gente cresceu, construiu histórias, parcerias. A gente adora se comunicar, quer conversar com as pessoas, quer que pessoas de todo lugar do país, de qualquer classe social, gostem do que a gente faz. E também tem uma responsabilidade social, a gente se sente parte dessa construção. Ao mesmo tempo, a televisão é esse celeiro de experimentação, de conquistar espaços entre linguagens.

E aí, na segunda temporada, a gente foi para um condomínio de bilionários, para falar de outros agentes sociais, onde essa dinâmica da intolerância, da falta de escuta, escala em ações violentas que chegam a um lugar quase distópico. A Barra virou um pouco esse campo de estudo para a gente, quase antropológico, de observar esses agentes sociais, entender o que está acontecendo. E aí vêm novas camadas, como a milícia, a religião…

LP: Os Outros sempre provoca a gente a olhar de outro jeito. As pessoas não são uma coisa só. A gente parte do estereótipo porque ele é reconhecível rapidamente, mas ele some rápido também. Você acha que entendeu alguém, coloca numa caixinha, mas depois vê que não é bem isso.

LL: No fundo, são pessoas vivendo dilemas humanos dentro de um contexto de exigências cada vez mais difíceis, numa sociedade capitalista, neoliberal, com polarização, desigualdade, violência, internet gerando insatisfação, redução do espaço público… tudo isso está em jogo. E a gente experiencia isso nas relações: mãe e filho, marido e mulher, vizinhos.

LP: E aí chegamos na terceira temporada, que eu acho que isso está no Roberto [personagem do Lázaro Ramos]. De você achar que ele é uma coisa e vai descobrindo que ele é outra. Você sente muita pena dele no primeiro episódio e no segundo você fala “pera aí…” 

LL: Na terceira, existe uma relação mais de autocrítica. Os personagens começam a olhar para si mesmos, refletir sobre suas ações, consequências, o que estão vivendo. É uma temporada mais existencial, quando vai para a estrada, essa ideia de partir com a vida possível, de se reinventar, de se reconectar. Como é possível viver? O que eu preciso para viver?

E tem também esse estereótipo do campo, essa idealização de que ir para lá resolveria tudo, como se os problemas ficassem para trás. Mas a fuga tem limite: o caos está no celular, está nas outras pessoas. E esse jogo entre o desejo de escapar e o que nos acompanha parece até mais intenso hoje em dia. Isso influenciou a escolha ou vocês encaram essa ida para o campo como um movimento natural da série?

LP: A gente conceitua muito o trabalho, mas também experimenta. Uma coisa vai puxando a outra. A gente pensou em vários cenários, como periferia, estrada, presídio, até que o campo veio a partir de uma história real de um amigo. Um casal que foi morar no interior, buscando esse sonho da vida calma no campo, e viveu um episódio violento que envolvia caseiros, uma disputa interna que chegou dentro da casa deles praticamente. Isso se misturou com um livro que eu estava lendo da Olga Tokarczuk, que fala muito de uma mulher que gosta mais dos animais do que das pessoas. E aí você vai juntando uma inspiração daqui, uma inspiração dali. A gente gosta muito do Tarkovsky, dos irmãos Coen, do Malick… Tem um filme que se chama As Bestas, do Rodrigo Sorogoyen, que dialoga muito. 

LL: Outro filme que foi determinante foi o Straw Dogs, do Sam Peckinpah. Na largada, também, com a demissão do Lázaro, a gente bebe muito do Ken Loach também. Os personagens no fim dão pedal para falar das relações familiares, da psicanálise, da alma humana, que é contraditória, incerta, que não cabe em nenhuma certeza. A gente coloca tudo ali: as incertezas, os sonhos, o desejo de um mundo com mais respeito, mais conversa. A gente gosta de conversar, muito. E quer que as pessoas entendam que estamos falando de todos nós, sem conclusão moral. É investigação. Um trabalho de investigação da humanidade. 

Com cada temporada, novos personagens vão aparecendo. Como que essas novas chegadas contribuem umas com as outras? Como que isso se dá no set, com os atores? A dinâmica muda muito de uma para a outra?

LL: Olha, eles viram uma academia. Viram quase uma turma de teatro. Porque também tem o fator dos filhos, tem sempre os mais jovens, e as produções, em geral, envolvem coisas difíceis. Então existe um acolhimento entre eles, porque precisam também colocar a agressividade para fora, fazer cenas com muita intensidade, e ao mesmo tempo manter o jogo. Se não tiver jogo, ainda mais com o tipo de cena que o Lucas propõe… Ele junta muito os atores. Tem cena com quase todo o elenco junto. Uma coisa começa, entra outro, entra outro, e vira uma espiral de personagens e de acontecimentos. E todos eles, no fundo, estão apontando para a mesma coisa. Todos estão servindo para a gente contar essa história.

E os atores são muito generosos em Os Outros. Eles percebem esse poliprotagonismo como a raiz e gostam muito disso. Chega um Lázaro Ramos, que é um ator extraordinário, conhecidíssimo, junto com atores que já são muito reconhecidos pelo grande público, e outros que vêm de outros lugares do audiovisual, às vezes com menos notoriedade, mas extremamente talentosos. E essa troca fica muito rica. A Adriana, por exemplo, adorou contracenar com a Docy Moreira, a Domingas, porque cada uma tinha algo a oferecer na sua diferença. A Docy vem de uma trajetória teatral muito sólida, extensa, respeitada, sobretudo no teatro mineiro. Então essa mistura é o que a gente quer, são provocações diferentes, e funciona muito bem. É muito colaborativo. Ninguém faz audiovisual sozinho. É a estrutura do audiovisual. A ponto de os atores participarem ativamente. Sugerirem coisas, ajustarem falas. Esse diálogo é constante. Mesmo um ator como o Lázaro entra nesse jogo de igual para igual. Ele vinha de muitas comédias e tinha o desejo de revisitar um lugar mais dramático, mais profundo, e a gente também queria isso. 

O papel do Roberto foi escrito para ele? Os personagens, no geral, são escritos com alguém em mente?

LP: Cada vez menos, sabia? Porque também é bom a gente ser surpreendido. Tem personagens que, às vezes, sim, mas é raro. Aconteceu com o Wando, interpretado pelo Milhem Cortaz. Foi escrito pra ele desde o começo. Mas é bom que a escalação traga uma camada que talvez você não estivesse esperado, como o Eduardo Sterblitch. Eu jamais teria pensado “vou escrever para o Eduardo Sterblitch o personagem do Sérgio.”

LL: A gente sabia o que não queria, mas não sabia exatamente o que queria. Quando surgiu o nome, ficou claro: é ele. O personagem ganhou uma profundidade enorme. As pessoas se apaixonam pelo Sérgio, e ele é um miliciano. A gente não estava querendo passar pano, mas é trazer ali um ser humano com suas complexidades.

Vocês falaram de serem crias da TV. Pegando isso como gancho, como vocês veem o momento do audiovisual brasileiro, especialmente com o streaming?

LL: Sempre teve, de alguma forma, espaço para experimentação. Sempre teve vanguarda. Teve O Tempo e o Vento, o Grande Sertão: Veredas, Anos Rebeldes. Acho que há espaço para tudo isso na televisão. O streaming surge como um braço novo, uma espécie de simbiose entre TV e cinema, dentro de um mercado contemporâneo. Ele amplia possibilidades, abre espaço para explorar outras linguagens, inclusive internacionalmente. Mas não substitui, soma.

LP: Ao mesmo tempo, existe a questão da velocidade. Hoje a atenção é disputada o tempo inteiro. A gente dialoga com isso, mas também cria pausas. 

LL: Os Outros trabalha com diferentes formas de sentir os personagens: às vezes você está dentro, sentindo junto, às vezes olha de fora, com mais distanciamento. Isso muda o tempo todo. Uma hora você está com um personagem, depois com outro. Isso desorganiza, desmonta preconceitos, faz você sentir coisas diferentes.

LP: Mas dá muito trabalho. É intenso. Existe uma disposição de não saber por um tempo, testar caminhos, conviver com a dúvida. Dormir com isso. É angustiante, mas necessário. 

Quais as perspectivas para uma quarta temporada?

LP: A gente sempre se faz essa pergunta, né? A ideia sempre foi algo próximo de uma antologia. Cada temporada com um espaço, um recorte. Na terceira, a gente responde uma provocação: até onde você iria para defender seu filho? E ao mesmo tempo deixa aberto. É um campo de estudo, que possibilita um futuro.

LL: E, na prática, sair do condomínio e ir para o campo também mudou tudo. Teve estrada, deslocamento, logística diferente. A equipe viveu isso diretamente. Foi puxado, mas muito rico. No fim, é isso: dá muito trabalho, mas é um trabalho feito com muita alegria. Sempre vai ser. E isso é fundamental.

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