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Partículas de poeira dançando nos raios de sol, de Hammershoi (1900).
Literatura

Ano Passado: Júlia Hansen e um para sempre que acabou

por Revista Amarello
Em novo livro, a autora faz do ato de escrever ferramenta para expandir o tempo e reorganizar o que nos escapa.

O livro mais recente da poeta Júlia de Carvalho Hansen, Ano passado, acompanha a experiência de um ano vivido em meio a mudanças que não se organizam em ordem clara: um amor que se esvai, o corpo que reage ao mundo, o pai que envelhece e perde a memória, a cidade que sufoca, a natureza que insiste e falha, o tempo que se embaralha entre passado, presente e algo que ainda não aconteceu. O livro descreve esse conjunto de forças sem separá-las, como se tudo estivesse acontecendo ao mesmo tempo dentro e fora de quem escreve, e como se viver fosse justamente tentar sustentar essa sobreposição sem reduzi-la a uma explicação única.

Ano Passado, publicado pela Editora Nós.

Partir de um gesto simples e o tensionar até que ele se transforme em outra coisa pode ser um tiro no pé, a não ser que você use isso a seu favor. Ano passado se joga e prospera trabalhando com talvez o formato mais íntimo e universal, o de diário. Datar a experiência, registrar os dias, marcar o tempo como quem tenta acompanhá-lo. Mas, ao longo das páginas, isso deixa de ser uma mera ferramenta de organização e passa a ser um campo de instabilidade, um gesto que se revela quase um anti-diário, atemporal, um exercício de dilatação que vai contra a própria natureza do tempo. 

E é aí que o livro ressoa sua força.

Muito embora haja uma progressão, uma travessia que dura mais ou menos um ano, essa estrutura conduz a uma narrativa que não é necessariamente linear. O que se acumula não é uma sequência de acontecimentos, mas um conjunto de estados que se reconfiguram a cada entrada.

A escrita da poeta não tem como objetivo fixar o vivido. Na verdade, ela vai na contramão disso, expondo a dificuldade de fixação. Há uma fricção constante entre o desejo de registrar, e o consequente registro, e a impossibilidade de estabilizar o que se vive. O tempo aparece como uma ideia em que diferentes camadas coexistem: infância, presente, memória familiar, imaginação, referências literárias e culturais, tudo se infiltra no agora, que, em si, é uma abstração. O efeito é o de um presente expandido, que não se deixa limitar pelas datas que insistem em o nomear.

E o uso do diário não é apenas formal. Ele funciona também como uma espécie de dispositivo crítico. Ao adotar uma forma associada à intimidade e à continuidade, o livro revela as falhas dessas noções, com lacunas, repetições, interrupções, deslocamentos. O diário, aqui, faz cara feia para a coesão e evidencia o quanto a experiência da vida, em especial as experiências mais intensas como as vividas no livro, escapa a qualquer tentativa de ordenação.

Julia de Carvalho Hansen por Renato Parada.

A própria ideia de memória é colocada em questão. Em vez de recuperar o passado como algo definido, os poemas mostram como ele se recompõe a partir do presente. Lembrar não é acessar um arquivo, talvez esteja mais para uma reorganização de fragmentos, como imagens, temas e situações que retornam sem se fixar completamente, respingando umas nas outras. Cada retorno altera o que veio antes e o que está por vir, criando um caleidoscópio sedutor que vai apresentando cores novas a cada leitura.

Essa lógica de recorrência atravessa, inclusive, a linguagem, já que o livro articula registros distintos sem buscar uniformidade (o que, de maneira paradoxal, estabelece uma espécie de unidade conceitual). Há passagens em que o tom se aproxima da conversa, outras em que se densifica em imagens mais concentradas e tom etéreo. Referências a mitologias, à astrologia, à cultura pop, à vida cotidiana e à tradição literária aparecem lado a lado, sem hierarquia evidente. E a linguagem acompanha a convivência dessas camadas, incorporando ao invés de depurar.

O efeito é o de uma escrita que aparenta pensar enquanto acontece. Essa dimensão processual aparece com força na maneira como o livro lida com os acontecimentos. Do fim de um relacionamento amoroso, numa escala íntima, à percepção de um colapso ambiental, numa escala global, tudo surge como parte de um mesmo campo, sem que um elemento se imponha sobre os outros. Mas a narrativa dá um jeito de se fazer bastante presente nesse caldo. Um livro de poesias, como é comum que se esqueça, pode ser muito narrativo, e Ano Passado é um deles.

A presença do pai, em especial, atravessa o livro como um ponto de inflexão e um forte marcador de intervalos temporais. A perda progressiva da memória introduz uma outra relação com o tempo, marcada pela descontinuidade. Aquilo que deveria garantir permanência se fragiliza, enquanto fragmentos de linguagem, como versos ou citações, permanecem. A dimensão familiar que não se fecha no âmbito privado reverbera na maneira como o livro pensa em herança, continuidade e ruptura. O que se recebe dos outros não é apenas memória, mas também impasse. E escrever passa a ser uma forma de lidar com isso. 

Ao mesmo tempo, a escrita não se mantém centrada em uma interioridade. O mundo entra pelos poemas de forma insistente: plantas, insetos, fenômenos climáticos, paisagens, cidades, catástrofes ambientais. Se não como cenário, como parte ativa da experiência. É simbólico que as datas passem pelo período de pandemia, tempo em que o caos coletivo invadia a vida enclausurada pelas rupturas gritantes da tela do celular.

A ideia de fechamento se contrapõe, e de algum jeito também se soma, à ideia de acúmulo. Os poemas se empilham para criar uma espécie de sedimentação e oferecer uma conclusão aberta. Nada é resolvido de uma vez. As questões retornam, se transformam, se rearranjam. 

Um ano que não se fecha porque continua em curso na linguagem. Um conjunto de tentativas de dar forma ao que escapa, sem a expectativa de capturá-lo por completo. O que permanece não é uma história, mas o ritmo de uma escrita que acompanha a vida enquanto ela ainda não se decidiu.

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