
Objetos que contam histórias: uma conversa com Cristiano Ross
Antiquário e pesquisador, Cristiano Ross se une a Amarello para lançar a seleção Assentos de Origem
Antiquário e pesquisador atento das culturas materiais do Sul do Brasil, Cristiano Ross desenvolveu ao longo dos anos um olhar voltado para móveis vernaculares e peças anônimas produzidas longe da lógica industrial ou da ideia de design autoral. Em Assentos de origem, exposição realizada em parceria com a Amarello, Ross reúne bancos, mochos e banquetas produzidos por imigrantes alemães e italianos no Sul do Brasil, peças que ajudam a compreender como tradição europeia, matéria brasileira e cotidiano rural acabaram formando uma linguagem híbrida, profundamente ligada ao território.


Conte um pouco sobre o processo de seleção das peças que compõem a exposição e sobre as principais diferenças entre os modos de construção herdados de imigrantes alemães e italianos.
Cristiano Ross: O processo de seleção aconteceu muito mais pelo encontro do que por uma busca objetiva. São peças que venho encontrando ao longo dos anos em sítios, casas antigas, depósitos, serrarias e pequenas cidades do interior do Sul do Brasil. Lugares que carregam muita memória e onde, muitas vezes, ainda vivem descendentes daqueles imigrantes que vieram para cá tentando construir uma nova vida.
A seleção nasce muito do afeto. Primeiro vem essa conexão emocional com o lugar, com as histórias e com as pessoas. Depois entra um olhar mais racional: entender como aquele móvel pode continuar existindo hoje, dentro de uma casa contemporânea, sem perder sua identidade. Existe uma diferença perceptível entre as tradições alemãs e italianas. Nos móveis ligados à cultura alemã normalmente aparece uma construção mais rígida e precisa, com encaixes muito bem resolvidos e uma preocupação evidente com durabilidade. Já nos móveis ligados à imigração italiana existe uma relação mais livre e intuitiva com a madeira, muitas vezes com soluções improvisadas e uma construção menos rígida.
Mas o mais interessante é perceber que, com o tempo, essas linguagens deixaram de ser europeias. São móveis feitos na América, por pessoas que acabaram se misturando ao território, aos materiais e às culturas que já existiam aqui. No fim, esses móveis também se tornaram brasileiros.
Durante esse processo de garimpo e seleção, quais sinais fazem você entender que uma peça carrega uma história importante? São os materiais, os encaixes, as marcas do tempo, os reparos improvisados ou existe algo mais intuitivo nesse reconhecimento?
CR: Tudo isso conta. Os encaixes, os desgastes, os reparos improvisados e até certas deformações ajudam a entender a vida daquele objeto. Às vezes um conserto antigo revela mais do que a própria construção original, porque mostra que aquela peça era importante o suficiente para continuar existindo. Mas existe também algo intuitivo. Algumas peças têm uma presença muito forte, mesmo sendo extremamente simples. Você olha e percebe que existe verdade ali.
O que me interessa é justamente isso: objetos que não foram feitos para impressionar, mas para acompanhar a vida cotidiana durante muitas gerações. Espero que as pessoas consigam olhar para essas peças quase como relicários. Cada uma carrega um percurso, uma memória e a experiência de quem viveu com ela.
Muitos desses móveis nasceram em ambientes rurais, longe da lógica industrial e do design institucionalizado. O que mais te interessa nessa produção anônima e vernacular? Existe uma espécie de inteligência silenciosa nesses objetos que o olhar contemporâneo costuma ignorar?
CR: Acho que existe exatamente essa inteligência silenciosa. São objetos feitos sem nenhuma preocupação com o design, mas que resolvem problemas de maneira muito sofisticada. Existe economia de material, entendimento estrutural e uma relação muito direta entre necessidade e forma. Hoje estamos muito acostumados a olhar para o design através da autoria e da assinatura. Esses móveis mostram outro caminho possível.
Também gosto da ideia de desmistificar a função desses objetos. Um banco não precisa ser apenas um banco. Pode virar mesa, escultura, apoio ou simplesmente uma presença dentro do espaço. Acho interessante quando essas peças continuam abertas a novas leituras, mesmo tantos anos depois.
A exposição reúne peças produzidas por imigrantes alemães e italianos, mas elas já não pertencem integralmente às tradições europeias de origem. Como você percebe essa transformação cultural acontecendo através da madeira, das técnicas e das soluções construtivas encontradas nos objetos?
CR: Essa transformação acontece naturalmente quando essas tradições encontram o território brasileiro. As madeiras daqui eram completamente diferentes das europeias, tanto em densidade quanto em comportamento. Isso fez com que adaptações fossem necessárias. Além disso, o cotidiano rural brasileiro exigia soluções mais práticas e diretas. Aos poucos surge uma linguagem híbrida, onde ainda é possível reconhecer uma herança europeia, mas já profundamente transformada pela realidade local.
Em muitos casos, esses móveis sobreviveram sem qualquer preocupação de preservação formal. Eles passaram por mudanças de casa, heranças familiares, abandono, reformas. O que mais te impressiona na sobrevivência física desses objetos?
CR: O que mais impressiona é a resistência. Muitos sobreviveram simplesmente porque eram úteis demais para serem descartados. Foram usados continuamente durante gerações. Também me impressiona como esses objetos absorvem o tempo sem perder dignidade. As marcas de uso, os reparos e os desgastes acabam criando uma camada humana muito difícil de reproduzir artificialmente.
O trabalho manual presente nesses objetos revela uma relação muito íntima com a matéria. Como você percebe o diálogo entre os imigrantes e as madeiras brasileiras disponíveis naquele território? De que maneira o material local acabou transformando técnicas trazidas da Europa?
CR: A madeira brasileira transformou completamente essas técnicas. Muitas espécies daqui têm dureza e comportamento muito diferentes das madeiras europeias. Isso acabou mudando encaixes, proporções e até o desenho das peças.
Ao mesmo tempo, existe um encantamento evidente com a abundância de matéria-prima encontrada aqui. Em muitos casos vemos móveis feitos com madeiras que hoje praticamente desapareceram. Existe uma relação muito direta entre mão, ferramenta e matéria.
Em muitos casos, esses móveis foram feitos sem autoria identificada. Como você enxerga o valor dessa produção anônima?
CR: A ausência de autoria não diminui a importância desses objetos. Pelo contrário. Muitas vezes ela faz com que o olhar vá direto para aquilo que realmente importa: a construção, o uso, a permanência e a relação da peça com o território. Existe hoje uma valorização muito grande da assinatura, mas esses móveis lembram que cultura material também é construída coletivamente.


Existe uma dimensão política em olhar para objetos anônimos e cotidianos como portadores de memória cultural? O que muda quando passamos a considerar essas peças como parte do patrimônio simbólico do país?
CR: Existe uma dimensão política importante nisso. Quando começamos a olhar para esses objetos como patrimônio cultural, ampliamos a ideia de memória para além das narrativas oficiais. Essas peças falam sobre imigração, trabalho, adaptação, escassez e vida cotidiana. Reconhecer isso como patrimônio também é reconhecer a importância dessas histórias mais silenciosas.
Em uma época marcada pela produção acelerada, você acredita que a seleção da Assentos de origem tem algo a dizer sobre permanência e durabilidade?
CR: Acho que sim. Esses objetos nasceram em um contexto onde fazer um móvel exigia tempo, esforço e matéria-prima valiosa. Então existia naturalmente uma preocupação com permanência. Hoje vivemos uma lógica muito acelerada, onde os objetos já nascem descartáveis. Esses assentos carregam uma ideia oposta. Foram feitos para durar e acompanhar gerações.
Existe algo muito bonito na ideia de que esses assentos foram feitos para durar dentro da rotina, não para serem admirados em uma exposição. Para você, qual é o significado de deslocar objetos tão ligados ao uso cotidiano para um espaço de contemplação?
CR: O mais interessante desse deslocamento é permitir que as pessoas olhem com atenção para objetos que normalmente passariam despercebidos. Quando essas peças entram no espaço expositivo, elas deixam de ser apenas utilitárias e passam a revelar tudo o que carregam: técnica, memória, desgaste e tempo.
Mas gosto também da ideia de que elas continuem abertas ao uso e à interpretação. Um banco pode continuar sendo um banco, mas também pode ser visto como escultura, mesa lateral ou objeto contemplativo. Acho bonito quando o significado dessas peças continua mudando com o tempo.
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