
Aprender a construir o próprio lar
Em •IGYH•, o artista visual Gui Mohallem retoma uma pesquisa de quinze anos para investigar pertencimento, comunidade e as formas de cuidado que surgem quando as estruturas convencionais falham. Existe uma pergunta que atravessa essa trajetória e não é sobre fotografia, embora a fotografia seja a ferramenta que Gui escolheu para persegui-la, e nem uma pergunta exclusivamente sobre identidade, mesmo que identidade seja um tema recorrente em sua obra. É uma questão mais ampla, talvez mais antiga: como as pessoas constroem pertencimento quando os lugares que deveriam acolhê-las deixam de cumprir essa função?
Ao longo dos anos, essa investigação assumiu diferentes formas. Apareceu em trabalhos sobre migração, memória e deslocamento entre Brasil e Líbano. Surgiu em pesquisas sobre identidade e comunidade. E reaparece agora em •IGYH• (I’m Glad You’re Here), exposição que reúne fotografias produzidas entre 2023 e 2025 em um santuário queer localizado no sul dos Estados Unidos, comunidade que Mohallem frequenta desde 2009 e que já havia servido de base para Welcome Home, livro publicado em 2012.

À primeira vista, •IGYH• pode parecer uma continuação natural daquele projeto, mas algo mudou. Claro, as pessoas retratadas e o contexto ao redor delas passaram por transformações, mas o que se alterou também foi a posição de quem fotografa. Entre Welcome Home e •IGYH• existe um intervalo de quinze anos, tempo suficiente para modificar comunidades e formas de olhar. É convenção dizer que a fotografia captura um instante, mas o novo trabalho de Mohallem parece interessado justamente no contrário, naquilo que só pode ser compreendido através da duração.
As imagens carregam o peso do tempo compartilhado. Não há a sensação de que estamos diante de uma comunidade descoberta recentemente ou observada à distância. É o resultado de uma convivência prolongada, construída ao longo de sucessivos retornos a um mesmo lugar, um retorno que, paradoxalmente, nunca é uma volta. Ninguém, afinal, regressa sendo a mesma pessoa. Nem quem chega, nem quem recebe. E essa percepção atravessa toda a exposição.
O santuário retratado por Mohallem não é um refúgio idealizado, isolado das tensões do mundo exterior, é uma comunidade atravessada pelas transformações políticas, sociais e culturais das últimas décadas. As mudanças provocadas pela pandemia, os debates raciais intensificados nos Estados Unidos, a crescente polarização política e as novas formas de vulnerabilidade que marcaram os últimos anos também deixaram suas marcas naquele espaço. Ninguém passou incólume e o santuário não foi exceção.

Não há imagens de confronto, slogans e discursos, claro, mas existe uma dimensão política profunda naquilo que Mohallem escolhe mostrar. Em uma época em que grande parte da representação LGBT+ ainda é construída em torno da violência, do conflito ou da necessidade permanente de resistência, as fotografias de •IGYH•observam momentos de convivência, descanso, afeto e presença. Isto é, pessoas cozinhando, caminhando, conversando, compartilhando tempo umas com as outras.
Para grupos historicamente empurrados para as margens da vida social, a possibilidade de existir sem estar constantemente se defendendo nunca foi algo banal. Há uma resistência muito potente que ressoa das imagens de Mohallem porque elas registram situações que costumam passar despercebidas. Não o momento da luta, mas aquilo que a luta tenta proteger. Não a disputa por um lugar no mundo, mas a experiência de finalmente habitá-lo.
A exposição desloca a ideia de pertencimento para longe dos discursos mais comuns. Pertencer não aparece como um sentimento individual ou uma conquista íntima. Pertencer surge como resultado de uma construção coletiva.
Ao longo dos anos, palavras como comunidade e acolhimento foram incorporadas ao vocabulário institucional, publicitário e corporativo. Muitas vezes, foram instrumentalizadas e perderam parte de sua densidade no processo. O trabalho de Mohallem devolve concretude a esses conceitos. Suas imagens parecem perguntar o que acontece quando a comunidade deixa de ser uma abstração e passa a funcionar como uma estrutura real de sustentação da vida.

Quem oferece abrigo quando as instituições falham? Quem segura sua mão quando você cai? Quem ajuda a continuar quando o mundo parece hostil demais?
Em diferentes partes do mundo, discussões sobre pertencimento, exclusão e convivência voltaram a ocupar o centro do debate público. Ao mesmo tempo, cresce a sensação de isolamento, fragmentação e enfraquecimento dos vínculos coletivos. •IGYH• funciona quase como um exercício de imaginação social, porque mostra exemplos concretos de pessoas construindo formas de cuidado umas para as outras.
Isso fica ainda mais interessante quando a exposição deixa os espaços tradicionais da arte e ocupa o Largo do Arouche. A escolha não parece motivada apenas por uma questão de visibilidade. Existe uma afinidade mais profunda entre as imagens e o território que as recebe. O Arouche ocupa um lugar singular na história LGBT+ de São Paulo. Ao longo das décadas, a praça se tornou espaço de encontro, circulação, desejo e cultura.
Ao aproximar o santuário norte-americano desse espaço paulistano, Mohallem não propõe uma equivalência. O que surge é uma conversa entre experiências distintas que compartilham questões semelhantes. Em ambos os casos, o que está em jogo não é apenas a ocupação física de um território, mas a construção de formas de convivência capazes de sustentar vidas.
Em um momento histórico marcado pela fragilização dos vínculos coletivos e pela sensação crescente de isolamento, as fotografias de Gui Mohallem lembram que pertencimento nunca é um acontecimento individual. Existe sempre alguém que prepara o espaço, oferece abrigo, compartilha uma história, faz uma pergunta ou abre caminho para a chegada de outra pessoa.
As imagens de •IGYH• são um estudo sobre a delicada arquitetura que permite a alguém sentir-se seguro. Sobre os gestos invisíveis que sustentam uma comunidade. E sobre uma verdade simples que atravessa toda a exposição: todo abrigo é uma construção coletiva.
•IGYH•
Exibição: 6 a 29 de junho de 2026
Local: Largo do Arouche, São Paulo
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