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#55Imagem BrasilArteFotografia

O transe das aparelhagens

por Revista Amarello

Santa Barbara do Pará, 2017. Foto © Vincent Rosenblatt.

Desde 2008, Vincent Rosenblatt acompanha festas de aparelhagem do interior do Pará. Quando chegou à cena, já fotografava bailes funk no Rio havia alguns anos, e percebeu uma aproximação entre aqueles universos. “As festas em Belém”, conta, “me pareciam uma tecnologia social parecida, onde territórios e pessoas marginalizadas retomavam sua centralidade, criavam rituais coletivos e geravam o que há de mais contemporâneo no Brasil.” 

Lançamento do Crocodilo Prime, Via Show, Belém do Pará, 2017. Foto © Vincent Rosenblatt.

Nas festas de tecnobrega, estruturas de aço e LED assumem formas de águias, crocodilos e touros futuristas para dominar a experiência, como se o som ganhasse corpo diante do público. “Cada uma tem seu repertório, sua lenda contemporânea, sua reencarnação numa nova versão ainda mais moderna a cada dois ou três anos.”. Nas mãos de artesãos como João do Som, essas máquinas ganham personalidade e presença cênica próprias. 

Lançamento do Superpop Ultra Live em Icoaracy, novembro de 2024. Foto © Vincent Rosenblatt.

 As fotografias do francês buscam capturar o caráter ritualístico das festas. Elevado sobre a aparelhagem, o DJ conduz fogos, lasers e luzes estroboscópicas enquanto a máquina pulsa como um semideus evocado pela música. 

A Fénix do Marajo, Belém do Para, 2024. Foto © Vincent Rosenblatt.

 “Fico horas e noites adentro numa entrega hipnótica, tentando captar a vida própria dessas máquinas sobrenaturais”, explica o fotógrafo. “Chamo a série de Culto das Aparelhagens porque enxergo os DJs performáticos quase como sacerdotes, guiando o público até o êxtase o show pirotécnico, como uma variante urbana de um xamanismo reinventado.” 

Culto das Aparelhagens porque enxergo os DJs performáticos quase como sacerdotes, guiando o público até o êxtase do show pirotécnico, como uma variante urbana de um xamanismo reinventado.” 

Aparelhagem Tupinambá Saudade. Belém do Pará, 2016. Foto © Vincent Rosenblatt.
Crocodilo no Rio de Janeiro. Festival Paredao. Foto © Vincent Rosenblatt.

Quando as imagens se sobrepõem, os clarões distorcem a percepção e a multidão entra em um estado compartilhado de fascínio. “A fotografia tenta captar essas epifanias”, diz Rosenblatt. “Gosto de imaginar que uma cosmogonia ancestral encontrou outra forma de se manifestar ali, graças a esse dispositivo profano.” 

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