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Paisagem com Palmeiras, de Cândido Portinari (1934).
#55Imagem BrasilSociedade

Os nossos muitos Brasis

por Nicolau da Rocha Cavalcanti

Este texto pretende ser um convite a pensar como vemos o Brasil e como ele é visto de fora, pelos estrangeiros. Com este pequeno passeio, deseja-se despertar, sobretudo, carinho pelo nosso país — carinho que leve ao cuidado, ao pertencimento, à abertura. Nesse itinerário, talvez vejamos alguns ângulos nossos não tão bonitos, mas que também isso seja carinho, atenção, proximidade. Com calma, tudo poderá ter, a seu tempo, a oportunidade de se alinhar. 

Grande é o Brasil 

O tamanho do Brasil é uma de suas notas definidoras. Desde pequenos, na escola, somos ensinados que o nosso é um dos maiores países do mundo. Ao contrário de tantos outros, que se fragmentaram, se desentenderam, brigaram, continuamos unidos. Continuamos grandes territorialmente. Duas características muito presentes em nossa compreensão do Brasil, portanto: grande e unido. Na terra e na língua. 

Somos diferentes dos outros países, mas não nos achamos esquisitos. Diferentes de um jeito bom, pensamos. Somos únicos. Somos grandes e unidos: pacíficos, calorosos, alegres, criativos. E temos uma natureza incrível. Poucos países (também nos ensinaram isso desde pequenos) têm uma flora e uma fauna tão abundantes como aqui. 

Nossa natureza encanta, assim como nossa arte. Temos orgulho dela. Temos orgulho da nossa cultura, especialmente da nossa música — mas não só dela. Sabemos que o mundo gosta do Brasil, e esta é outra nota definidora da nossa autocompreensão: o mundo gosta da gente, aprecia a nossa terra, a nossa cultura, as nossas praias, as nossas florestas, o nosso jeito de ser e de viver. Somos benquistos. Somos populares. 

Convivemos, desde pequenos, com a exposição a altas doses de ufanismo, mas sempre do nosso jeito: nada nos foi dito explicitamente. Nada foi reconhecido abertamente, e, se isso ocorresse, teria nos constrangido um pouco. Somos grandes e unidos, mas disfarçamos. Não saímos dizendo por aí. Essa mensagem habita o fundo do coração, molda, configura, acalenta, mas sem ser dita, sem ser admitida, sem ser nomeada. 

Adoramos não dizer as coisas claramente. Somos o país do subtexto. O texto explícito, a mensagem oficial, a regra escrita — nada disso vale muito, nada disso importa muito. Vou sim. Combinado. Fechado. Nada disso tem um sentido literal. É antes um gesto afetivo, um aconchego, que se esgota no presente. Ele cumpre sua função no momento em que é dito, em que é ouvido. Depois não sabemos. Nossa resposta não foi um compromisso, foi essencialmente uma gentileza, uma ideia, muito nossa, de gentileza. Não desagradamos. Somos — estamos convencidos disso — gentis. 

Somos o país do presente. Não pensamos no passado. O passado é uma realidade que não está no nosso imaginário nem no nosso afeto. Somos práticos. Pensamos no hoje. Não somos reflexivos, dramáticos, angustiados; vivemos o hoje. Somos desprendidos do passado. E, sob essa lente, somos leves. Não temos bagagem a carregar, a processar, a ressignificar. Não temos contas a acertar. 

Sem passado e com os dois pés no presente. Somos, há de se reconhecer, um pouco adolescentes. Queremos o hoje. Nossa expectativa de futuro é leve, passageira. Não queremos nada que comprometa o presente. 

Sendo adolescentes, somos também volúveis. Alternamos nosso acervo de ufanismo com doses de inferioridade, de estranhamento, de fastio, de desesperança. O Brasil é também o país da corrupção, da violência, da desigualdade, dos privilégios, da hipocrisia e da história oficial. 

O Brasil, não temos nenhuma dúvida disso — nenhum estrangeiro precisa nos dizer isto —, é superlativo também nos seus problemas. Além de não os resolver, conseguimos, muitas vezes, piorá-los. A cada estação surgem novos problemas, e os antigos permanecem, bem plantados e bem regados. 

Sofremos com essa situação. Gera-nos mal estar. Dói-nos viajar para outros países e sentir a carência de tantas coisas no Brasil. De serviço público, de senso de comunidade, de responsabilidade cívica, de uma construção de país de longo prazo. Gostaríamos que tudo isso fosse realidade também na nossa terra, na nossa cidade, no nosso bairro. Mas não o é. E torna-se fácil pensar, nessas horas, em se mudar para Portugal, para a Itália. Ou para Miami. Nessa hora, pensamos no futuro, nas não em um futuro coletivo. Pensamos no futuro familiar, no refúgio seguro para os nossos filhos. Almejamos uma residência onde as questões básicas da vida em sociedade — segurança, saúde, educação — já foram resolvidas por outros, antes de nós. Nós somos especialistas em presente. 

Fácil e difícil 

Narrar como os estrangeiros, os outros países, nos veem não é simples. É assim, de fato, como eles nos veem? Ou estamos projetando nossas impressões pessoais no olhar deles, numa validação da nossa própria compreensão? Aqui não há certeza epistemológica. De toda forma, mesmo com os riscos envolvidos, vale a pena percorrer o caminho. Podemos ver outras sombras e outras luzes. 

Começo por uma hipótese. Os estrangeiros que têm pai ou mãe brasileira têm um grande carinho, uma grande admiração pelo país. Não é “apenas” que a parte brasileira tenha infundido um grande amor pelo Brasil, o que é significativo, é que os filhos de brasileiros veem o Brasil como um outro mundo possível. Outra natureza, outra temperatura, outras relações, outros afetos. Não é apenas um outro país, o país da minha mãe, do meu pai. É um país diferente. 

E, seja qual for a relação prévia com o Brasil, o que os estrangeiros veem de diferente aqui?  

Aos olhos — e ao coração — dos estrangeiros, o Brasil é acolhedor. Com enorme rapidez, estabelecem-se relações sociais. Sentem-se queridos, próximos, envoltos de imediato numa rede de amigos e conhecidos, de eventos. Aquilo que talvez seja o mais difícil em suas culturas de origem, o quebrar a barreira da intimidade, aqui não parece sequer existir. 

O dia a dia dos brasileiros encanta. O abraço, o banho, a alegria, o tempo em outra cadência. Há mais temperatura na relação com os outros, na relação com o corpo, na relação com a natureza. E os estrangeiros logo sentem esta realidade tão presente — e tantas vezes invisível para nós: somos filhos da África e filhos dos indígenas. Eles veem, plasmado no nosso presente, o nosso passado. Um legado muito próprio de humanidade, de cultura. 

Mas não é só encantamento. Depois, os estrangeiros sentem, muitas vezes, o fio da frustração. Há convites, abraços, o apresentar os amigos dos amigos, mas habitualmente é uma intimidade rasa. Vive-se intensamente o presente, mas não se reflete sobre ele. Não se dialoga sobre ele. Não se compartilha o mundo que é visto a partir de dentro. 

O calor do afeto é também sentido na cultura. O Brasil é vibrante, culturalmente diverso, criativo. Experimentam-se os múltiplos sincretismos: o religioso, o cultural, o afetivo. Nesta terra, misturam-se os elementos, as ideias, os corpos, as famílias, as relações, os andares. 

Os estrangeiros veem e sentem a natureza exuberante, a biodiversidade, a desigualdade social. Veem tudo isso e admiram-se. Pelo positivo e pelo negativo. Admiram-se especialmente que nós próprios não vejamos, não valorizemos nossas exuberâncias e nossas desigualdades. Acostumamo-nos com elas — e, para nós, elas se tornaram invisíveis. Os estrangeiros notam nossos apagamentos. No bom e no ruim. Nossa falta de memória. 

É fácil gostar do Brasil, mas ele tem suas complexidades. Suas dinâmicas e tramas escapam dos cânones racionais. O afeto e a violência. Sua democracia e suas instabilidades. Seu Estado forte e, ao mesmo tempo, desigual, incompleto, fraco. 

Nas relações com os outros países, o Brasil cultiva paradoxos. Há proximidade, mas há distância. Há acolhimento, mas há indiferença, desconhecimento, alheamento. Isso é notório em sua relação com Portugal; é assustadoramente notório com seus vizinhos. Por suas dimensões e qualificações, o Brasil é inegavelmente uma liderança na América Latina, mas sustenta e reproduz, diariamente, o seu isolamento na região. A América Latina são os outros. 

Eis, então, a pergunta: tem o Brasil uma identidade definida no exterior? Sim, inclino-me a dizer. Ninguém fica indiferente quando se diz que é brasileiro. Mas também penso no “não”: cada vez que o mundo nos conhece mais, vê nossas pluralidades e encruzilhadas. E já não se vê tão facilmente o Brasil. As antigas nitidezes esfumam-se. 

Talvez 

Talvez o primeiro passo para uma compreensão mais madura sobre o Brasil esteja em não pretender encaixá-lo numa expectativa, numa ideia. Nosso país não é como ele deveria ser. No Brasil, talvez haja uma maior distância entre o ser e o dever ser em muitos sentidos, em muitos aspectos, no ruim e no bom. Nesse hiato, vislumbram-se espaços de liberdade. 

Por que somos assim?, nos perguntamos. Nessa reflexão, podemos talvez incluir outra questão: para que somos assim? Isto é, com o que podemos contribuir sendo dessa maneira? 

Mais do que dar respostas fechadas, talvez o horizonte mais luminoso esteja em integrar, na nossa busca pelo Brasil, a dimensão temporal. Seu passado, seu presente, o nosso futuro. 

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