
Reza Árida
Hoje não tem nenhuma outra mulher trabalhando na mesma rua que eu. Só homens. Fico com medo de me pegarem. Não preciso estar bonita ou cheirosa, basta que eles saibam que não há ronda dos patrões e que ninguém será contra. Aqui não há quem dê conta nem mesmo da própria vida.
Vigília.
No adormecimento de um trabalho mecânico, ninguém precisa pensar para fazê-lo. A gente concentra a razão todinha na sobrevivência aos perigos que se enterram sob e entre as trilhas de cana plantada-crescida-queimada. As gentes ficam por aqui, como se jazidas numa vala a céu aberto. Almas penadas, porque, debaixo de toda a vestimenta, andam-puxam-rasgam-cortam-jogam. Não pensam.
Não consigo me concentrar no trabalho. Penso em tudo isso, o que me faz mais lenta. Com o braço esquerdo, a muito custo, afasto um punhado de cana para que seja mais fácil o golpe certeiro de facão que o braço direito deitará em sua raiz para, a seguir, empilhá-lo atrás de mim.
Repito o movimento.
De novo.
E de novo.
E de novo.
E mais uma vez.
Não consigo me concentrar no trabalho.
Limpo o suor nos olhos com dificuldade, porque o volume de roupas que uso para me preservar do sol, da fuligem e das folhas da planta — que resistiram à queima e deixam em brasa o que tocam, como se por vingança — impede que o dorso do braço se aproxime de meu rosto. É preciso cuidado para não aproximar a lâmina afiada do cutelo de minha cara, para que ele não abra ali uma cachoeira de sangue, como aconteceu com Ednalva na semana passada. Vigília.
Mais uma vez o braço esquerdo afasta um monte de cana enquanto o direito é levado para trás, a mão tão assentada há horas no cabo firme da faca que é como se fosse ela o meu tato, e desce feroz à raiz da planta. Curvo levemente o corpo. Volto a erguê-lo. Dou um passo para o lado. Fico de frente a outro chumaço. É como se meu trabalho imitasse um passo de dança. Repito. De novo. Mais uma vez. Erro a mira. Tento outra vez. De novo. De novo. De novo. Outro passo. Mais uma vez o braço sobe, a mão desce. O pé se desloca na lateral. E me desculpe se faço parecer que há tempo para pensar: não há. O corpo embala o trabalho mais uma vez. E outra vez. Não paro.
Eram três da manhã quando acordei. Minhamãe já me esperava na cozinha. Ali preparamos a comida que me abasteceria ao longo do dia, no talhão de cana, no meio do nada. Não tem muita comida e nem precisa que tenha, mesmo que o corpo careça de nutriente e de energia para encarar um dia inteiro sem descanso na colheita. Acordei mais cedo, tenho força suficiente para preparar a comida antes que os paus de arara ronquem seus motores e faróis pelas ruas, recolhendo gente para levar aos mais diversos destinos das plantações, me recolhendo. Mas minhamãe nunca soube dormir até perto do sol raiar. Toma da minha mão o bule e o pote de açúcar, a lenha do fogão já tinha acendido. Ordena que eu use o tempo para me vestir, tarefa custosa. Finjo resistir, mas só para olhá-la um pouco mais, sentir o que não é dito entre nós, pensar nas casas de pau a pique em que ela já morou.
Alguém arrisca carregar um rádio velho a pilha para romper com o enclausuramento da plantação, das roupas em quilo que sufocam o nariz, a boca, e dificultam o fazer xixi e cocô. Mas é difícil ter sinal. E a gente desliga todos os sentidos para amortecer o corpo que dói, coça, sangra, pede água, comida e vento. A gente se veste como pode, trabalha das seis às onze da manhã, faz uma pausa para comer aquilo que era comida quando preparamos e encerra às seis da tarde. Não paramos o movimento nunca. A pobreza cumpre o papel de capataz que arrebenta o chicote nas costas de quem faz corpo mole. Para conseguir dinheiro suficiente, a gente precisa de um corte rápido e muitas toneladas de cana colhida num dia, pelo menos quatro. Uma pilha maior que a casa de qualquer um feita por uma só pessoa, às vezes duas.
É assim o começo desse meu dia, que tem sido o mesmo desde o início da safra, há três semanas. Depois dos sete primeiros dias, a gente não sente mais cansaço. Fica adormecido. A gente se funde a ele: corpo e cansaço viram uma coisa só. Só faz o corta, o arrasta, o pesa. Não vê nem a hora passar. Todo dia um é picado por uma cobra-filha, mais perigosa que a cobra-mãe porque não tem a natureza de saber dosar o veneno da picada ainda. Um decepa os dedos, outros têm a orelha decepada. Marinalva, quando começou no ofício de boia-fria, na falta de jeito com essa dança, cortou a ponta do próprio nariz fora quando foi limpar o suor que ardia os olhos — esqueceu a vigília de manter o facão o mais longe possível de si. Ela só tinha treze anos, muitos dentes já faltavam na boca e agora estava sem a ponta do nariz. Fico com pena. Eu colho quantas toneladas por dia for preciso para que minhas irmãs não precisem passar por isso. É o único pensamento que ouso ter.
Preciso correr, amontoar uma pilha com cana colhida, pois os cruzeiros, no fim do mês, precisam ser o suficiente para comprar os remédios que remediam mas não consertam as chagas da minhamãe e, quem sabe, se sobrar, um tênis novo para mim. Esse eu acho que precisarei deixar para depois, minhamãe fica tonta, segura o peito dolorido de um coração que ficou grande demais. Ela não reclama, mas eu noto que a velhice e a doença açoitam seu corpo numa velocidade mais acentuada pela vida seca. O médico aparece uma vez por mês e faz o que pode, com paciência mas pouca atenção. Só que para essa vida não tem mais remédio algum, é reza atrás de reza. Tão seca e tão árida que não importa o que eu peça. Só o que dá algum jeito é o facão, a marmita azeda e meu braço subindo e descendo debaixo do sol.
Nada nunca acontece. É o mesmo dia todo dia.
Alguém me chama. Acho que é coisa da minha cabeça. Minha própria voz que sai descompassada vez ou outra e me pega no susto. Dei para falar comigo mesma. Dinalva. Parece ficar mais perto. Tenho medo. A voz chega mais perto, com o galope de um cavalo a sufocando, não sou eu. Rezo aridamente para que eu me concentre no trabalho e pare de divagar os medos.
Dinalva, você não está ouvindo, mulher? Me esforço para manter a lâmina firme. Dinalva, sua mãe… A palavra tropeça dentro do meu ouvido. Meu coração também.
Deito o facão no pé.
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