
Da produção à especulação: o poder do capital sobre a sociedade no século XXI
Poucos livros de economia na história recente tiveram tanto sucesso quanto O Capital no século XXI, do economista francês Thomas Piketty. Publicado em 2013, a obra ganhou enorme destaque por trazer um debate muito importante no contexto pós-crise financeira de 2008. Apesar de suas mais de 600 páginas, o livro vendeu mais de três milhões de exemplares e rendeu bastante prestígio ao economista. Onze anos depois, a tese que deu um novo olhar para o debate sobre desigualdade voltou à tona com o documentário homônimo dirigido por Justin Pemberton, alertando para males do capital que se mostram extremamente atuais.
O documentário percorre três séculos de história, entre a Revolução Francesa e o crash de 2008, para nos provocar com as seguintes questões: como o modelo econômico contemporâneo reaproveitou os mecanismos das estruturas do século XIX para construir um novo regime financeiro? Quais são as consequências da concentração de riqueza e da desigualdade para a democracia e a sociedade? A obra retrata a passagem de um capitalismo industrial, alicerçado em uma economia produtiva e na geração de empregos, para uma era dominada pela especulação e acumulação de renda.
A fórmula de Piketty que investiga décadas de desigualdade
Para que seja possível entender o porquê e como a desigualdade vem crescendo nas sociedades, Piketty centraliza toda a sua tese na relação desigual entre duas importantes variáveis econômicas: a “simples” fórmula r > g, que mostra que a desigualdade tende a aumentar quando a taxa líquida de retorno do capital (r) excede a taxa de crescimento do produto (g).
Ao comparar esses dois indicadores, Piketty verificou que, historicamente, a desigualdade cresceu nos momentos em que r era maior que g, como explica a professora de economia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cláudia Tessari: “A taxa líquida de retorno do capital é o quanto rendem os investimentos, isto é, quanto rende o dinheiro aplicado em investimentos financeiros (ações, títulos públicos e outros ativos financeiros) ou aplicado em investimento produtivo (em uma fábrica, por exemplo). Já o produto (ou PIB) é a somatória de tudo o que foi produzido (bens e serviços) por um país ou uma região em um determinado período de tempo”.
Portanto, se r foi maior do que g, isso significa que o crescimento desse dinheiro aplicado foi superior ao crescimento da renda gerada a partir da produção (trabalho). “Na prática, o que Piketty mostrou é que quem tem dinheiro investido (ou seja, os milionários que têm investimentos) ganham mais que quem trabalha e vive só do salário (e, geralmente, não tem investimentos)”, exemplifica Tessari.
“Como a maior parcela da população está relacionada ao trabalho, esse retorno elevado do capital significa uma fatia maior do bolo sendo apropriada pelos proprietários de ativos (lucros, juros, aluguéis). A renda do trabalho acaba engolida, se não em termos nominais, certamente em termos relativos”, salienta ainda Fernando Batista, professor de economia na Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG).
Capital produtivo vs. especulativo
Se r > g explica por que a desigualdade cresce, o conceito de capital especulativo ajuda a entender como essa dinâmica se acelerou nas últimas décadas. Dentro da economia, o capital costuma ser separado em duas grandes formas: capital produtivo e capital financeiro ou especulativo.
O primeiro, capital produtivo, é aquele ligado ao processo de transformação de insumos em bens de maior valor agregado, como o trabalho industrial e a agricultura. Como o capital produtivo está diretamente relacionado a gerar um valor real, é necessário investir recursos em bens físicos e em mão de obra. É a partir disso que será estabelecido o primeiro fator de desigualdade no capital (depois de já determinadas as explorações coloniais, o cercamento de terras e a acumulação primitiva do capital), a bisavó da fórmula r > g: a mais-valia, conceito criado por Marx que determina o valor gerado pelo trabalho de um proletário e o valor de sua remuneração.
A partir da ascensão do neoliberalismo, na década de 1970, porém, o capitalismo passou por uma grande alteração estrutural: a financeirização. Então ganha força o capitalismo especulativo, cuja ideia é baseada na compra e venda de ativos que aumentam ou diminuem o valor sem que passem por um processo de transformação de insumos. Portanto, o capital especulativo pouco tem a ver com a natureza produtiva, ele é simplesmente uma relação de compra. Ou seja, algo é adquirido por determinado valor unicamente para ser vendido mais caro depois.
“O capital especulativo é danoso para o desenvolvimento econômico e social, pois nenhum investimento de curto prazo gera crescimento econômico nem emprego. Os investimentos que geram crescimento e emprego são aqueles longos, em que o dinheiro pode ser utilizado para ampliar uma fábrica, por exemplo, que, após ser aplicado, irá gerar emprego, produção, vendas, lucro (nessa ordem) e só então poderá retornar para o investidor na forma de rendimento”, enfatiza Cláudia Tessari.
O economista Fernando Batista também ressalta que, quando ativos primários, principalmente commodities como alimentos, petróleo, habitação e saúde, tornam-se objetos de especulação no mercado de bolsa de valores e em fundos imobiliários, o custo de vida das populações trabalhadoras se eleva sem qualquer ganho correspondente em infraestrutura ou produtividade social. A especulação faz com que os preços desses ativos passem a refletir não apenas oferta e demanda reais, mas também a busca por lucro dos investidores. Isso pode elevar os preços
de alimentos, petróleo, moradia e outros bens essenciais, aumentando o custo de vida para a população trabalhadora, cuja renda geralmente não cresce no mesmo ritmo.
Com isso, agravam-se as problemas sociais, como o desemprego, a precarização e a fome. Isso tem como resultado um maior número de pessoas sendo obrigadas a aceitar condições cada vez mais extenuantes e degradantes de trabalho.
Como o capital influencia as democracias contemporâneas?
Outro desdobramento trazido pelo avanço da desigualdade é a fragilização das instituições democráticas. Essa problemática decorre principalmente da substituição da suposta igualdade política pela supremacia financeira. Enquanto a ideia de democracia presume que cada cidadão tenha um mesmo peso decisório, a concentração de riqueza faz com que esse “poder de decisão” se afunile nas mãos de um pequeno grupo.
A partir disso, o poder econômico acumulado passa a interferir no processo eleitoral e nas instituições democráticas Esse processo se dá por meio de financiamentos de campanhas, lobbies e, fundamentalmente, pelo controle dos grandes meios de comunicação e das plataformas digitais, que moldam a opinião pública conforme seus interesses.
Mesmo em situações em que um país consegue eleger um governo mais progressista, o capital consegue exercer sua influência a partir de ameaças e chantagens. A desvalorização cambial passa, então, a se suceder, enfraquecendo políticas estatais e permitindo o incentivo às privatizações para o capital externo.
O resultado deste “sequestro” da democracia é a disseminação de uma forte apatia e a desmobilização popular. Ao perceber que a política e a democracia perderam o poder de transformação da conjuntura, boa parte da população é levada ao afastamento da participação cidadã.
A proposta reformista de Piketty Desde a consolidação hegemônica do seu sistema, diversos pensadores tentaram buscar formas de conter o avanço do capital. A abordagem mais popular é a do pensador alemão Karl Marx. Dentro do marxismo, o capital é uma relação social de exploração entre aquele que tem os meios de produção (o patrão) e aquele que vende a sua força de trabalho (o trabalhador). A partir dessa lógica, segundo Marx, a única forma de solucionar essa relação de exploração é abolindo a propriedade privada e superando o modo de produção capitalista.
No entanto, Piketty não pensa da mesma forma. Em sua crítica, o economista francês não rejeita a propriedade privada nem o livre mercado. Para ele, o grande problema do capital é a falta de equilíbrio na distribuição final da renda acumulada. Por essa razão, Piketty pode ser considerado um grande reformista, uma vez que, em sua perspectiva, é possível “domesticar” o
capital sem a necessidade de uma grande revolução ou ruptura. A sua proposta, embebida de keynesianismo, é a criação de um imposto global e progressivo sobre o capital, com alíquotas isentas ou baixas para os pequenos patrimônios e progressivamente elevadas para grandes fortunas e super-ricos.
Dessa forma, a crença do autor é de que a fórmula r > g seria freada, garantindo ao Estado a possibilidade de investir mais em áreas estruturais. Para incorporar a essa ideia, Piketty também defende transparência bancária financeira com cooperação internacional para acabar com o sigilo bancário e rastrear fortunas ocultas.
A esperança para resistir
Embora reconheça que essas ideias são um tanto quanto utópicas em um curto prazo, Piketty argumenta que elas são mecanismos fundamentais para evitar que a desigualdade volte a patamares semelhantes aos da Belle Époque. Essa reflexão traz um tom de esperança que encerra o documentário, apostando na mobilização cidadã e na ação política como formas de resistência à capital.
O professor Fernando Batista também acredita que o capitalismo pode ser ajustado e reforça que o sistema “não é uma lei da gravidade”: “O capitalismo é um elemento que vem sofrendo, ao longo da sua história, influências, impactos da própria sociedade, da própria política, e isso naturalmente faz com que o regime continue em funcionamento, mas ele vai sendo adaptado a essas alterações”, destaca. “Se pensarmos na Europa do século XX, existiam jornadas de trabalho extremamente predatórias para a classe trabalhadora e foi a partir de uma legislação trabalhista que a sociedade passou a exigir um novo um novo formato de ‘não, a gente não pode viver escravo do capital’”, ressalta.
Na mesma linha, a professora Cláudia Tessari reitera que a contenção da desigualdade depende da mobilização popular e de instituições democráticas sólidas que favoreçam a classe trabalhadora: “Foi o caso, por exemplo, do período pós-Segunda Guerra Mundial na Europa, com a constituição dos Estados de bem-estar social”, constata. “Sendo assim, concordo que somente a mobilização política da população é capaz de frear os danos causados pelo capitalismo na sociedade: destruição ambiental e concentração de renda, sobretudo”.
Mais de uma década após a tese de Piketty, a distribuição da riqueza segue se afunilando e, com ela, a precarização do trabalho, das condições de vida e da democracia. A história ensina que as conquistas sociais não nascem de forma orgânica, mas da pressão popular organizada. O grande desafio das próximas gerações será decidir se vamos nos mobilizar para transformar a realidade ou apenas viver adaptados a ela.
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