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#11SilêncioCulturaSociedade

No hay banda

por Helena Cunha Di Ciero

O silêncio sempre é um palco para uma série de experiências. Vem antes do primeiro beijo, ou quando encontramos a pessoa amada. Pode ser a festa que for, o trânsito, o caos; basta olhar para aquele alguém e tudo se aquieta, ao fundo, e a gente só ouve a batida frenética do coração. Pronto. Mãos ao alto, estamos reféns. O mundo se cala para conceber aquela história que vai se iniciar. Talvez seja essa a impressão quando diante de uma tempestade, que mudará para sempre nossa vida.

O silêncio é tanto o começo como o fim de tudo. Mas comunica sempre. Caminha junto com a existência humana. O silêncio da sala de parto antes de um filho nascer é cortado por um grito de amor que se instala em nosso peito, nomeando aquele alguém dentro da gente eternamente.

Tem o silêncio do segredo, do não dito, aquilo que paira pelo ar e que de alguma forma se impõe e guia secretamente, sombreando a história de alguém. Este aprisiona de forma constante. São aqueles segredos familiares que sempre estão presentes, mesmo nunca revelados.

O silêncio pode indicar tanto um excesso de intimidade – estar só na presença do outro com tranquilidade; aqueles que estão tão à vontade a ponto de não precisar das palavras como forma de entretenimento – quanto escancarar sua falta: aqueles casais que nunca desejamos nos tornar em restaurantes, indiferentes à presença um do outro.

Tem também a calada da noite, na qual somos visitados por nossos medos, dúvidas e ansiedades. Existe um lugar no meu silêncio onde tudo pode acontecer; minha fantasia.

E tem também o silêncio que fica depois da morte de alguém.

Como experiências tão antagônicas podem ser tão semelhantes e ter em sua essência o mesmo barulho?

Depois que meu pai morreu, virou silêncio. E os objetos que ficaram gritam alto o nome dele quando os encontro. E hoje são meu pai, já que ele não mais diz nada.

Enquanto ele existia eram apenas acessórios. Uma agenda preta, óculos, luvas. Hoje são os que me contam a história do meu grande amigo perdido. Olho para eles, resignada, como quem olha para o que sobrou de alguém tão especial, esperando uma migalha daquela existência que era tão vital para mim. Respondem-me em sua imobilidade e, curiosamente, eu o escuto falar novamente.

Dentro de mim, a voz dele ecoa dia após dia. Lá eu o encontro, e então conversamos outra vez. São as lembranças que dançam em minha mente quando estou só, quieta, antes de dormir. Ou quando estou num impasse, diante de uma escolha: dou um passo para trás e ouço-o falar. Respeito essa voz, que agora mora em mim, na minha quietude. O único lugar em que ele continua vivo e, paradoxalmente, onde é imortal, pois vive comigo. É minha herança preciosa, com a qual dialogarei enquanto existir.

Engraçado isso da vida. As pessoas não precisam ser eternas para manter-se dentro de nós. Basta terem sido especiais para deixar um registro. Em psicanálise, a gente chama isso de objeto interiorizado. O trabalho do luto é justamente o de fazer com que se entenda que a pessoa perdida não mais existe na realidade.

No filme O escafandro e a borboleta, o personagem principal é vitima de um AVC e fica completamente paralisado, comunicando-se apenas com os olhos. Compara seu corpo a um escafandro e suas memórias, a borboletas – com as quais viaja a qualquer lugar. Esse objeto interno são essas borboletas. Eternas, coloridas, livres. Devemos nos movimentar a despeito da música que a vida canta.

Não é à toa que, em espanhol, a palavra luto é traduzida por duelo – uma vez que é uma luta aceitar que o mundo não mais abriga aquele objeto de amor. A realidade fica calada, mas, dentro de nós, o barulho pode ser infinito – basta saber se ouvir.

Saber se escutar, se respeitar, é um dom raro, especialmente no mundo de hoje, onde tudo é tão barulhento, rápido e rasteiro. Mas às vezes, se a gente se dá chance, esse contato se faz, puro e genuíno. Nessa hora, escuta-se a intuição e aprende-se a respeitar esse segredo que nosso inconsciente nos conta, tão poderoso mas que, ao mesmo tempo, pode passar despercebido.

Esse seria um silêncio mais contemplativo, que transita em nós com a liberdade de colher imagens, sensações, para compor nossas ideias e percepções. E, quando acertamos com nossa intuição, vem uma sensação de poder e de liberdade indescritível. Diria que é tipo mágica. Algo que nos aproxima da divindade. Esse seria o mesmo caminho da fé.

A fé no sentido não de dogma, ou de doutrina, mas de uma crença interna, que nos alinha a pensamentos de ordem espiritual, sensação rara de estar em contato com o universo como um todo. É nesse lugar que se encontra a paz. Já dizia Gilberto Gil: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar só, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz, (…) ter a alma e o corpo nus”.

E como não falar de como meu silêncio impacta o outro? Marina Abramovich, na instalação The Artist is Present, fica dias calada, sentada, e se oferece ao encontro de estranhos. Nada é dito. Quem chega e a encara tem diversas reações: choram, gritam, tentam fazê-la rir, contam suas histórias… Encontram-se consigo a partir daquele ser imóvel, que os encara. E assim, sentindo-se contemplados por um olhar forte e silenciosamente marcante, têm reações espontâneas.

Basta um olhar contemplativo para que a gente se sinta existente. Um olhar puro, calmo, que recebe e aconchega. Esse também é o papel do analista, quando recebe a história de alguém em seu consultório. Os dois nunca sabem o que está por vir.

A surpresa só pode vir do silêncio. Assim como a tempestade, a saudade, o amor, a vida, a morte e a paz.

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