
Editora convidada: Glória Kalil — O que vem por aí?
Sou só eu ou estamos todos com a sensação de estar vivendo um presente que tem traços de ficção científica de qualidade duvidosa?
“O que vem por aí?” logo me ocorreu como uma pergunta que grande parte das pessoas devem estar se fazendo e que talvez pudesse ser respondida por gente que pensa. Gente inteligente que estuda comportamento, informática, IA, psicanálise, arquitetura e China — temas em ebulição e que pareceram, a mim e à Amarello, desafiadores. Seria um privilégio ouvi-las, então fomos atrás delas!
Que oportunidade a revista me deu de entrar em contato com esses intelectuais e profissionais que tanto admiro já há muito tempo. Eles têm enorme bagagem de conhecimentos para nos ajudar a entender o que está acontecendo hoje e o que deve acontecer amanhã em suas diferentes áreas de atuação.
Pedimos a eles, portanto, que nos fornecessem pistas, armas ou informações para nos situar, nos preparar, nos equipar para o que der e vier nestas paisagens novas e extraordinárias.
Quem são essas pessoas? São aquelas que queremos muito ouvir nos momentos de mutação e de risco. Vocês verão, pelos nomes que assinaram os textos, que ouvimos os melhores.
Não podemos deixar de agradecer a simpatia e a disponibilidade que tiveram para acolher nossas inquietações urgentes, nossa curiosidade apreensiva e nossas perguntas.
Venham conosco. Aproveitem também!
Quem melhor para nos posicionar na questão do feminismo e nos dar um panorama de suas instigantes reivindicações atuais do que Vera Iaconelli, psicanalista, escritora e doutora em Psicologia pela USP? Ela nos leva a refletir sobre a questão do cuidado, desde sempre atribuído ao feminino, e sobre por que os homens não se sentem concernidos com essa tarefa. Não está na hora de aliviar os ombros das mulheres desse fardo e assumir o cuidar como responsabilidade coletiva?
Outro assunto que está chegando com uma velocidade maior do que o nosso preparo para recebê-lo é o envelhecimento. Há perspectivas de que possamos chegar aos 100 ou 150 anos em pouco tempo. Estamos preparados para essa novidade? Temos sociedades e governos tomando providências para enfrentar esse acontecimento? Ana Amelia Camerano, economista e demógrafa, pesquisadora do Ipea, comenta o assunto e mostra saídas possíveis para ele.
Ao psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker fomos pedir luzes para a crise da saúde mental que anda por aí, essa “crise do desencanto”, como ele chama. Em sua análise, ele fala dos poucos efeitos que as medicações tiveram na tentativa de cura desse mal e alerta que o sofrimento psíquico atual é parte de um colapso maior, e que “tentar entendê-lo sem olhar para as fraturas do nosso tempo — a crise ambiental, a precarização econômica, a paralisia política e a degradação estética — é insistir num diagnóstico incompleto”.
Cidades em permanente mutação, bairros desfigurados, especulação imobiliária, desprezo ao meio ambiente… O que têm a dizer os arquitetos? O que eles estão pensando sobre o futuro das cidades? Angelo Bucci, arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e do MIT (nos EUA), oferece um projeto poético para enfrentar esse cotidiano de destruição e construção pelo qual as cidades brasileiras estão passando a partir de uma ideia de Alberti — arquiteto do Renascimento italiano, cinco séculos antes da noção de meio ambiente: “a função do arquiteto é a de colocar limite à loucura humana”.
IA, ameaça ou solução? Precisamos saber mais sobre essa ferramenta que nos intimida e fascina. Quais são seus perigos reais? Que benefícios ela pode nos trazer? Ronaldo Lemos e João Victor Archegas nos dão um esperançoso panorama dessa fantástica novidade, cuja perspectiva de presença no nosso cotidiano já altera profundamente a nossa realidade.
Epistemicídio computacional? Ou seja: destruição sistemática da cultura e da história dos povos marginalizados por conta do racismo e do colonialismo. É possível que esse absurdo esteja acontecendo nos dados que alimentam a ciência da computação? É a essa causa que a jovem cientista de computação e mestre em Visão Computacional pela Unicamp, fundadora do Instituto da Hora, Nina da Hora, dirige seus estudos e sua militância. A nós cabe entender e apoiar.
“O que vem por aí?” é talvez a pergunta mais aflitiva diante do confronto com o grande enigma, a China, que todos temem e poucos conhecem. De que modo um país de mais de um bilhão de habitantes conseguiu êxitos econômicos,
científicos, tecnológicos e sociais tão extraordinários em apenas 40 anos? O que fazer para conhecer o funcionamento dessa república tão diferente da nossa? É o que nos ensina o professor Evandro Menezes de Carvalho, professor de direito internacional da Universidade Federal Fluminense, da Universidade Politécnica de Macau e da Universidade de Língua e Cultura de Pequim, diretamente do Oriente.
Por fim, e ainda na China, menciono o envolvente relato de Sônia Bridi, jornalista, repórter de televisão e escritora, que viveu alguns anos por lá e que retornou ao país várias vezes depois para se surpreender com os progressos inacreditáveis que verificava a cada visita. “Todas as vezes que eu voltava, era como se chegasse a um país diferente”. Ela conta sua experiência e dá um alerta: “A China quer ser de novo o centro do mundo”, e a história mostra que as metas chinesas costumam ser alcançadas bem antes do prazo.
Quero ainda fazer um enorme agradecimento ao Tomás por ter me convidado para participar desta revista linda, que eu sigo e curto há tantos anos, e ao Willian pelo agradabilíssimo e competente bate-bola comigo durante o percurso desta edição.
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