
Nossos futuros possíveis moram na incerteza do vislumbre de uma imaginação radical
O que significaria, para as pessoas negras, acreditar coletivamente que, apesar do racismo e de outras forças de dominação, nós podemos encontrar no universo tudo de que precisamos para viver bem, inclusive a força para nos engajarmos no tipo de resistência política capaz de transformar a dominação?
bell hooks, Irmãs do inhame
Longe de querer responder o questionamento feito por uma das pensadoras negras mais influentes da nossa história, é preciso olhar para essa sentença como uma provocação constante e atualizável. Isso porque encontrar no universo tudo o que precisamos para viver bem parte da constatação de que nada nos foi dado para que esse feito fosse realizado. Forjado pelo processo de colonização que humilhou, violentou e excluiu nossos corpos dos espaços de poder hegemônico, junto a uma farsa de que vivíamos e continuamos vivendo uma democracia racial apaziguada e sem marcas de racismo, o Brasil segue produzindo um contexto em que o bem viver da população negra ainda é um sonho a ser conquistado.
Os dados públicos seguem nos mostrando que a criação de uma resistência política capaz de transformar a dominação ainda é imprescindível para vislumbrar um futuro minimamente mais justo e digno para o nosso povo. De fato, para muitos de nós ainda é preciso sonhar com a possibilidade de viver um futuro, com ou sem o bem viver, afinal, em nosso país, envelhecer é um privilégio.
De acordo com o Atlas da Violência, 77% das pessoas assassinadas no Brasil são negras. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), jovens negros do sexo masculino são as principais vítimas de mortes decorrentes de intervenções policiais. Além disso, mulheres negras são maioria em número de vítimas de violência doméstica, e crianças e adolescentes negros são as maiores vítimas de mortes violentas e mortalidade infantil.
A falta de oportunidades de educação e trabalho também afeta a população negra de forma desproporcional, além de sermos minoria nos espaços políticos. Dos 513 deputados federais, 24 são negros. Dos 81 senadores, três são negros. Dos 5.570 prefeitos, 1.604 são negros. Dos 57.838 vereadores, 24.282, são negros. Dos governadores dos estados e do DF, nenhum é negro. Dos ministros do STF, nenhum é negro.
Nesse contexto, o futuro é construído a partir de um vislumbre. No dicionário, o vislumbre significa um clarão fraco de luz, uma visão sem nitidez de algo ou um sinal leve de que algo vai acontecer. Também indica uma ideia vaga ou uma pequena semelhança entre duas coisas.
Não seria essa nossa forma de construir outros futuros possíveis? Acredito que vislumbrar seja um gesto político para as populações subalternizadas. É essa visão sem nitidez e esse sinal leve de que algo vai acontecer que nos impulsiona a criar outras possibilidades e modos de vida que tem como mote realizar uma transformação antirracista. Seja no campo micro ou macro, cada transformação que nasce de um vislumbre é um novo passo — e, como afirmou Chico Science, um passo à frente e não estamos mais no mesmo lugar. Vislumbrar é não ter a certeza de que iremos alcançar o que desejamos, mas ainda assim agir sem medo da incerteza, afinal, ela também integra o nosso fazer político.
O que leva uma mulher negra, sendo minoria, a ir até um púlpito de uma Câmara confrontar políticos do alto escalão, colocando sua vida em risco, senão o vislumbre de poder garantir mais direitos para a população? Nem sempre essa ação será tão bem-sucedida e muitas vezes poderá custar nossa saúde e nossa vida, a exemplo de Marielle Franco. Mas ela pode dar início a uma mudança nunca antes vista, como o impulsionamento de milhares de candidaturas de outras mulheres negras em diversas cidades e estados do país ou a instituição de um Ministério da Igualdade Racial.
O vislumbre enquanto gesto político também está pautado no exercício da imaginação radical. Em seu livro mais recente, Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível, a professora e escritora Rosane Borges defende o potencial que temos em atuar politicamente e incidir sobre o Estado graças às nossas formas de construir utopias. Ela defende que “se não disputarmos o imaginário, o racismo vence”.
É essa disputa pelo imaginário que impulsiona iniciativas como a campanha política para se ter uma ministra negra no STF. Organizado pelo Instituto de Defesa da População Negra (IDPN) e a Coalizão Negra por Direitos, a campanha se tornou um movimento nacional para pressionar o governo federal a indicar a primeira mulher negra da história para o Supremo Tribunal Federal. Ainda que a indicação não tenha sido feita, a campanha possibilitou que o debate sobre o racismo tocasse na composição do judiciário brasileiro, além de ser responsável por dar visibilidade a dezenas de mulheres negras que possuem formação para ocupar esses espaços, evidenciando que não nos falta capacidade, mas sim oportunidades.
A forte atuação política de Erika Hilton na Câmara dos Deputados — liderando inclusive a proposta pelo fim da escala de trabalho 6×1 — também iniciou um movimento orgânico nas redes sociais, onde as pessoas afirmam que a deputada será a futura presidenta do Brasil. Nossa primeira presidenta negra e travesti. Um vislumbre que é reforçado na manifestação artística da cantora Urias. Ao final dos seus shows, enquanto performa a faixa Voz do Brasil — uma crítica à uma moral hipócrita do país —, a artista aparece utilizando uma faixa presidencial.
Junto ao movimento de reconhecer grandes escritoras negras brasileiras que antes estavam invisibilizadas e excluídas nos registros históricos do país — como Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, entre outras —, é possível afirmar que foi a nossa imaginação radical de vislumbrar um futuro em que essas mulheres seriam reconhecidas da forma que merecem que levou Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor, a se tornar a primeira mulher negra a ocupar a Academia Brasileira de Letras. E, como esperamos, muitas virão depois dela, afinal, como afirmou Conceição Evaristo, “O importante não é ser o primeiro ou a primeira, o importante é abrir caminhos”.
Importante também negritar a nossa relação com o futuro que não se dá de forma linear, como a cultura ocidental se conformou a pensar. Olhar para a ideia de um começo, meio e começo, como propôs o pensador quilombola Nêgo Bispo, é um forma de conceber que nossa ideia de futuro está diretamente ligada aos nossos ancestrais, àqueles e àquelas que habitaram a terra antes de nós e que já praticavam esse vislumbre como um gesto político há séculos. Como indica o ideograma sankofa, imaginar futuros possíveis para nós é reconhecer que nunca é tarde para voltar e buscar o que ficou para trás. Ou seja, muitas conquistas e muitos avanços já foram vislumbrados antes de existirmos enquanto matéria orgânica. E é pensando nessa indissociável relação entre ancestralidade e temporalidades múltiplas que me emociona trabalhos como o de Dalton Paula.
Junto a sua esposa, a pesquisadora e educadora Ceiça Ferreira, Paula criou o Sertão negro, uma instalação artística localizada em uma área de sete mil metros quadrados na zona rural de Aparecida de Goiânia, no entorno do Cerrado. O local tem como proposição ser um espaço vivo de experiências estéticas para pensar uma cura coletiva e a construção de novas epistemologias ao combinar práticas ancestrais e contemporâneas. Recentemente, em visita ao museu Inhotim, em Minas Gerais, pude conhecer parte do acervo de Dalton Paula na exposição Cura coletiva. Em seu trabalho, que reúne quadros, produções audiovisuais e instalações, o artista visual coloca em prática sua radical imaginação ao criar imagens que remontam registros históricos de pessoas negras — registros esses que muitas vezes nem existiram, mas que são inventados e reinventados com a arte.
Com isso chego a mais um ponto que acredito ser importante para a prática do vislumbre enquanto o gesto político para a população negra: a fabulação crítica. Criado pela pensadora norte-americana Saidiya Hartman, a fabulação crítica é um método de escrita e pesquisa que nasce do desejo da teórica em criar narrativas de experiências de vida de pessoas negras marginalizadas, criando arquivos para contrapor histórias oficiais que relegaram as pessoas escravizadas um lugar de constante violência e silenciamento. Fabular através de um arquivo oficial é também praticar uma imaginação radical capaz de construir uma resistência política transformadora. Tendo este mesmo mote de recontar a história através de arquivos que humanizem os corpos de pessoas escravizadas, a professora Valéria Gomes Costa, do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, criou o grupo de estudos Matamba. Usando a técnica da paleografia para decifrar manuscritos antigos, o grupo quer resgatar a história de pessoas negras escravizadas e ex-escravizadas que viveram no Recife no século 19 e mostrar que essas pessoas também construíram patrimônio para seus herdeiros e suas herdeiras.
Em um ano eleitoral decisivo para o Brasil, perceber esses movimentos políticos e culturais como um modo de construir futuros possíveis é assumir um compromisso com o gesto político do vislumbre, tomando-o como força motriz para mobilizar a transformação que queremos.
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