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#6VerdeCrônica

Controle remoto

por Camila Fremder

de Márcia de Moraes

Solto a fumaça diante da TV onde, num programa de auditório, duas mulheres disputam Edmilson. Magrelo e feio, ele tem pouco mais de seis dentes na boca. A apresentadora, com cara de estrela pornô asiática, finge apoiar as mulheres, enquanto bota mais lenha na fogueira. Solto outra baforada. Estou nervosa, minha mão sua frio, e demoro cerca de vinte minutos até me dar conta de que esse dilema familiar me deprime.

Cadê o controle remoto? Reviro as almofadas já angustiada por não conseguir mudar de canal ou pelo menos baixar o volume insuportável de xingamentos chulos. Mãos na cintura, viro o corpo e percorro a sala de ponta a ponta. Nada. Olho para a TV; elas se estapeiam. Sinto falta de ar. Abro a janela ou continuo procurando? Talvez sob a mesinha de centro. Sim! Controle em mãos, troco o canal. Jornal, não; seriados policiais, não. Paro no programa de culinária. Nossa… É risoto? Que bonito. Queria muito comer um.

A boca seca encontra água na cozinha, mas nada que se torne um risoto é encontrado na despensa. Espere: ovo! Frigideira quente, manteiga, tomate picado, sal, um toque de requeijão; será que tem orégano? Tem alecrim. Cabeça virando-se à TV o tempo inteiro. O pânico passou e voltei ao programa de baixaria. Edmilson leva safanões de todos os lados. Eu vibro enquanto preparo meu ovo. Peito de peru picado, um resto de queijo branco; milho? Não. Milho, não… Devoro tudo antes do comercial.

Canal que vende tapetes, canal que vende jóias, canal que vende lavadoras a jato que limpam janelas, frestas, pisos de banheiros, pias entupidas. Estou completamente fascinada pela lavadora a jato. Cogito comprá-la. O número de telefone está grudado na mente. Sem notar, disco e divido em doze vezes no cartão. Estou muito feliz. Quero lavar os cantinhos do box agora; quero testar o jato quente de vapor. Mas, em doze vezes, será que fiz certo? Começo a me arrepender, ando até o banheiro, acho o box super limpo; será que posso cancelar a compra? Não lembro o telefone de jeito algum. Como assim? Repito em voz alta números desconexos, oito, zero, quatro – o final era nove mil?

Retorno à sala. A TV continua a oferecer trituradores, cintas emagrecedoras, cremes redutores, mas nada da lavadora a jato. Ofereço meu desprezo mudando de canal. Desenhos, não; programas de esporte, não; filmes começados são difíceis de entender. Volto à baixaria, onde, sorrindo e afinal sem as duas mulheres, Edmilson se despede; simpático o Edmilson… A apresentadora faz um discurso moralista sobre família e, em seguida, avisa que a Dirce tem um recado importante para você, telespectador. Implantes dentários. Não, obrigada.

Mudo de canal freneticamente. Encontro um acampamento improvisado na mata fechada: um rapaz se esquenta em frente a uma fogueira. Sinto frio, mas nenhuma parte de meu corpo se manifesta para buscar uma meia. Eu queria poder gritar e ser atendida: “meiaaa!”. Estou praticamente colada no sofá. O homem acampando caçou seu próprio jantar e eu, incapaz de buscar meias. Ocorre-me que jamais conseguiria fazer uma fogueira; deve ter muito mosquito nessa floresta. Coço meu braço, coço minha perna, e troco de canal.

O cara do risoto agora faz um suflê de chocolate; quero algo doce. Chego na cozinha, examino a despensa, e nada. Acho um pote de achocolatado, pego-o, ando em círculos, largo o pote. Abro o armário de panelas, olho o freezer; nada. Desisto do doce, abro um saco de salgadinho e volto à sala. Cadê o isqueiro? Ah, as meias…

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