#34Terra: Especial 10 anosArteMúsica

A voz da voz

por Marcelo Jeneci

Decidi começar meu novo disco Guaia, lançado em agosto deste ano, com um canto indígena. Não apenas por serem os índios os guardiões do mundo ou a voz do planeta Terra, mas também para me opor ao rastro colonizador em que o homem branco continua pretensiosamente achando que pode falar pelo povo indígena e por origens e estados que não são seus, interferindo na fala de pessoas que têm muito a ensinar.

Nossa revolução começa na escuta.

Quando percebi que o refrão “É emergencial a gente se conectar com a terra” – frase que ouvia Mana dizer em nossa casa durante o ano de 2018 e que me impulsionou a compor a canção em parceria com Paulo Neves, José Miguel Wisnik e a própria Mana Bernardes – deveria vir depois de um canto indígena, senti um arrepio dos pés à cabeça, e fui tomado por um sentimento inaugural em minha vida. Algo muito além de mim estava acontecendo ali, e tal recado precisava vir à tona.

Decidi gravar a música em uma afinação não convencional. Em 432 hertz, afinação que gera maior harmonia com o som produzido pela natureza e pela movimentação ressonante do planeta.

Além de proporcionar um estado de êxtase em meu coração, essa frequência se opõe ao padrão de afinação inventado pelo nazismo, o insistente 440 hertz, gerando mais espaço e menos vazio.

Fui também em busca da voz da mulher indígena, e, em uma via de mão dupla, veio até mim a brilhante Ikashawhu, cantora da tribo Yawanawa, trazendo generosamente o canto Kanarô para o nosso encontro.

Kanarô tere te in te
Kanarô tere te in te
Ato noma nomá
Ato noma nomá
Toma mahe mahe
Toma mahe mahe
Wame nere wa rewa
Wame nere wa rewa
Minjo yoyo yoyo
Minjo yoyo yoyo


Do meu lugar de escuta, repasso as palavras de Xumaya, filho do cacique da tribo Yawanawa, sobre a letra:

“A nossa língua é uma língua específica, ela tem sua diferença, não é como qualquer língua que tem uma palavra e que se traduz essa palavra, ela é muito complexa. Assim também é com os nossos cantos. Kanarô não se traduz. Ela tem uma tradução sentimental. É um canto que fala da lembrança aos parentes ou a alguém que você gosta muito, da saudade dessas pessoas. É um canto que traz a melodia mais antiga da nossa civilização, onde o homem canta com saudade de sua família.”

E, aqui, o áudio de Biraci, cacique da tribo Yawanawa:

“Kanar é a arara amarela, o único pássaro que fazia a travessia do imenso rio, na época em que os animais falavam, levando e trazendo recados do povo que não tinha conseguido atravessar em cima do jacaré muito, muito grande. Hoje, pra gente, Kanarô é uma música muito especial. Uma música de muita alegria ou de muita saudade.”


Originalmente publicado na edição Terra

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