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Voltar para casa é um longo caminho

por Mayra Sigwalt

Resgatar a própria ancestralidade é como tentar voltar para casa. Mas, para encontrar o caminho de volta, você precisa cavucar com as próprias mãos um solo pedregoso e abrir feridas de gerações. Pois, nesse processo, além da sua dor, você precisa fazer aqueles que você ama relembrarem de onde vieram suas cicatrizes. Dói duas vezes.

Muitos não vão entender por que você precisa percorrer esse caminho. Afinal, essa não é a história de todo o nosso país? Não somos todos filhos dessa terra, da qual não conhecemos os verdadeiros nomes? Mas eu sempre vivi em um não-lugar. Eu sempre soube, ouvi que era, mas nunca havia nada que me “oficializasse” para isso. “Indiazinha” era um apelido para me diminuir, me machucar, mas, se eu ousasse admitir “sou indígena!”, diriam que não era o suficiente. Fui seguindo os passos da minha mãe, ouvindo atentamente, e, pelo caminho, encontrei também outros guias e mais aprendizados.

Descobri qual era o meu povo, de qual aldeia minha ancestral tinha saído, tudo o que ela percorreu e construiu. É difícil pensar que, assim como na minha família, em muitas outras essas mulheres foram apagadas da história. Faladas a respeito apenas aos sussurros. Os traços que elas deixaram para as gerações seguintes são suas únicas marcas no mundo. Mas, de alguma forma, ela não desapareceu completamente. Como aprendi com os parentes, “tentaram enterrá-la, mas não sabiam que ela era semente”.

Encarar nossa ancestralidade é encarar as mentiras que foram contadas sobre nosso país, sobre nossas histórias, sobre nossas famílias. É tirar heróis dos livros da escola, derrubar estátuas e pedestais que criamos para o mundo e para nós mesmos. Talvez aquele seu bisavô que pegou sua bisavó “no laço” tenha sido mais um dos que violentou os filhos dessa terra, e você é fruto disso. Você está pronto para lidar com essa herança?

É um caminho muito assustador e, muitas vezes, você se sente sozinho no escuro, mas fui abençoada com muitos faróis e estrelas brilhantes que fizeram com que eu me sentisse pertencente. No entanto, mesmo com todo esse suporte, sempre há aquilo que faz minhas pernas pararem, minhas mãos enfraquecerem. Um eco distante que vai se tornando maior, ensurdecedor. “Eu sou merecedora disso?”, “quem disse que você é legítima?”, “onde está a língua do seu povo?” “Qual a sua aldeia?”

E, para me dar forças, eu volto aos meus ancestrais, que sobreviveram, que lutaram muito para que eu estivesse aqui hoje. Que se esconderam, se calaram, se converteram, se embranqueceram, foram violados e se perderam de suas aldeias. para que eu pudesse estar aqui. Para mim, seria um desrespeito a eles se eu não continuasse a caminhar.

Uma vez, falaram para mim: “você nunca será indígena de verdade, apenas descendente”. E as palavras de um ancião me confortaram: “poderia um bezerro se dizer descendente de bezerro? Pergunta para um jabuti: você é jabuti? Não, sou descendente de jabuti”. Ao ouvi-las, eu sorri e, ao mesmo tempo, entendi o propósito dessa jornada.

É uma busca por pertencimento, mas também por restaurar os laços perdidos. Precisamos recontar a história de origem do que chamamos de Brasil. Lembrar que, se muitas culturas originárias foram preservadas, é porque muitas outras estavam na linha de frente, sendo ceifadas ou dissolvidas nas culturas populares ou regionais.

Se quisermos fazer parte de um futuro, precisamos conhecer melhor nosso passado. Precisamos continuar nessa estrada de resgate ancestral que, provavelmente, nunca terá fim, nunca será uma ferida cicatrizada. Precisamos continuar colocando as mãos na terra, porque, mesmo quando estão machucadas de tanto cavar nossa história, mesmo com a sensação de que abrimos um buraco em nossa volta impossível de ser fechado, é nesse momento que você consegue finalmente vislumbrá-las. Suas raízes. Pulsando com vida e mostrando o que você sempre soube. Quem você é.

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