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Mestre Sidão.
#54EncantoCulturaEducação

Aprender a escutar: uma conversa com Mestre Sidão e Eronides Andrade

por Gean Ramos Pankararu

Mestre Sidão é uma figura rara, dono de um conhecimento múltiplo e místico. Artesão, cantador, rezador e filho do povo entre serras Pankararu. Estamos em lugar reservado, cercados de serras e de medicinas tradicionais da caatinga. Sidão fuma seu campiô. Quando encerramos, é porque a hora determina. O que é falado é ouvido. Esperamos não ter ofendido a espiritualidade. Respeito e gratidão. Obrigado mesmo. 

Seu nome completo e idade? 

Aparecido Nascimento Sá. Tenho 47 anos. Nome artístico: Sidão Pankararu. 

O que é encantado pra você? 

É um ser que a gente não vê, mas a gente tem a fé de que, naquele canto, a gente consegue sentir sua presença, mas ele se apresenta em algum lugar. Às vezes tem um pássaro que chega bem perto, a pessoa consegue sentir aquela força, e a gente entende que são eles que estão por perto, através do vento e de várias formas. 

Você lembra de alguma passagem da sua vida sem os encantos, sem os Encantados? 

Lembro. Desde criança, meu pai me levava para tradição, mas não tinha aquela aproximação com eles, a gente não podia estar muito próximo, tinha que estar meio distante. Os mais velhos, naquele tempo, eram mais rígidos, era muito cuidado. A gente não podia nem assobiar fora de hora, não podia assobiar de noite. Às vezes não podia nem sussurrar os toantes deles. A relação com eles me foi chegando mais próximo dos treze anos. De lá pra cá, a gente vem observando, né? Cada local que a gente vai, cada toante que é cantado, a gente vai observando. Durante esse tempo todinho, foi sendo mais forte a relação com os Encantados. 

No seu dia a dia, como é a sua relação com eles? 

A minha relação é que pra mim eles estão em todas as partes. A minha relação é de amor, de respeito, de ser humilde. Porque, pra mim, eles estão em todas as partes. Todo dia, toda hora. 

Você hoje toma uma decisão sem estar lembrando deles? 

Não. Hoje até pra amanhecer o dia, ou anoitecer, não fico sem falar ou sem agradecer a Deus, primeiramente, e a eles. Tudo eu converso com eles, peço permissão.  

Hoje não dá pra fazer qualquer coisa e não pedir permissão e orientação, que eles me mostrem, porque isso é o que me faz ser forte, isso que me faz ser um seguidor, uma pessoa forte da tradição. É através dessa forma que eles me mostram. 

Qual é a forma mais forte de sentir a presença deles? 

O silêncio. Tá concentrado. Tá nas matas. 

E sua relação com o canto? 

Em relação ao canto, posso dizer que a gente ouve os mais velhos cantar as toadas, aí a gente chama nossos cantos de toante. E a gente ouve os mais velhos e aprende a cantar, mas muitos vêm do divino, muitos vêm na mente. Às vezes, a gente canta e outros escutam e perguntam com quem a gente aprendeu, quem ouviu cantar, mas muitas vezes os cantos chegam na hora. Acho que essa conexão com eles é algo divino mesmo. 

Os Encantados fazem parte da sua relação familiar? 

Sim, com certeza. As minhas filhas, a minha esposa, a minha netinha… Todas são da tradição e eles fazem parte do dia a dia. Tanto na tradição como na concentração, no respeito. 

Você considera que é um sacrifício viver essa relação? 

Sacrifício, não, isso é uma devolução, vou dizer assim. Uma missão com muito amor, muito respeito. Não tenho nem como não agradecer. 

Você é cantador de terreiro, rezador. O que fez você escolher seguir essa missão? 

Sou cantador de terreiro de tradição, sou rezador de Ramo. O que me levou a querer seguir foi minha mãe, que me ensinou. Ela era rezadeira, meu pai também, e eu pedi a eles que me ensinassem. De todos os meus irmãos, só eu aprendi, e graças a Deus tem dado certo, abaixo de Deus e da Força Encantada. 

Fale sobre os remédios e as ervas. 

A gente prepara os remédios, uma mesinha com as ervas medicinais aqui, das folhas, das flores, da raiz, da casca, da semente. Esse preparo é passado pelos nossos Encantados, tem relação direta com eles. Isso é passado de geração em geração, do meu bisavô, meu avô, do meu pai, do meu tio-avô. 

Você relaciona sua arte com os Encantados? 

Cada peça esculpida é uma forma de agradecer, cada peça que faço é como eles se apresentam pra mim. Vejo eles ali, seja numa madeira, numa pedra, no chão, numa árvore. Às vezes até nas folhas. Às vezes eu nem mostro para o povo o que eu estou vendo, acredito que eles me mostram algo que é para só eu ver. Tudo que eu esculpo é minha relação com os Encantados e com meu dia a dia. 

Qual é a importância da natureza, da caatinga? 

Tem que preservar mais. Sem a natureza a gente não vive, as frutas para os bichinhos, as ervas medicinais… E tem que saber o dia de tirar, a lua, o tempo da lua, a posição. A natureza é viva. A gente tem que cuidar e preservar. Eu me sinto muito bem na mata. O silêncio é bom. O cheiro é bom. A caatinga é desprezada, mas é o bioma mais originário do país. 

E a medicina tradicional da caatinga? 

Tudo vem da caatinga. Da minha parte, nunca veio de fora. Só o mel está em falta, por causa da devastação. O mel da uruçu, da papaterra, da mandaçaia, do arapuá, da abelha branca, da abelha-mosquito, da italiana… Tudo isso era remédio, era xarope para as crianças. Hoje tá difícil. Se as abelhas se afastam, é sinal ruim. Os pássaros e as caças também não tem mais. Quando alguns aparecem, é um sinal, uma mensagem. Meu pai dizia que tinha pássaro que só aparecia no tempo das trovoadas, das chuvas. Nunca mais eu vi, e isso é a resposta de como está o fator climático, a devastação provoca tudo isso. 

Qual é a sua maior preocupação hoje? 

Que fique pior do que já está. 

O que é ser Pankararu? 

É ser guerreiro, ser forte, respeitar os Encantados, a natureza, os pássaros. 

Se você pudesse mandar uma mensagem para a humanidade, qual seria? 

Que tivesse mais respeito, mais amor, que cuidassem mais. Tem alguns que fazem sua parte, estão entendendo sua missão. Cada um tem seu valor. Tem muita gente que não precisa de mais nada, e mesmo assim tem muita ganância. O planeta está sofrendo. Eu lembro que meu pai plantava um litro de feijão e tirava dez sacos. Hoje planta dez litros e não tira nem um saco. Isso é uma resposta, cada vez mais tá diminuindo. 

Você acredita no ser humano? 

Não. Eu acredito em Deus. Acredito na força encantada. E eu acredito que alguns seres humanos têm consciência e outros não estão nem aí. E a conta chega pra todo mundo, como dizem nossos Encantados, a chicotada vem para todo mundo. Para quem não fez e quem fez. 

E os sonhos com a espiritualidade? 

Minha relação com sonhos, posso dizer, é de que são uma mensagem. Às vezes vem pra mim, às vezes vem pro meu irmão, pra minha filha, pra minha esposa. A espiritualidade está nesses recados. 

Você se imagina mantendo essa relação no futuro? 

Sim. Nunca me mudou o pensamento. Não nego meu natural. Agradeço muito a Deus e a eles. Enquanto houver vida, minha fé e meu agradecimento aos meus encantos e meu pensamento não mudam. 

Quem se afasta, nós ou eles? 

As duas partes, mas, quando a missão é divina, mesmo se afastando, eles ficam perto. 

E um mundo sem os Encantados? 

Não. Não sei nem como seria. Para mim, eles são os filhos que Deus pôs no mundo para trazer a mensagem Dele pra Terra e pra humanidade. 

Eronides Ramos Andrade.

Seu nome completo e função?

Eronides Ramos Andrade. Vice Presidente do Instituto Aió Conexões Pankararu, Educador ambiental.

Quais trabalhos você desempenha dentro do território?

Supervisão dos serviços de Saneamento ambiental, recuperação de área degradada, viveirista de plantas nativas da caatinga

Qual a importância desse trabalho para a manutenção do território?

Manutenção das boas práticas de cultivo e extrativos dos elementos sagrados da natureza através da informação e da educação ambiental sobre os processos e utilização da matéria prima como elemento sagrado. Croa, imbuzeiro, licurizeiro, coité, Jurema, abelhas com e sem ferrão.

Seu trabalho tem relação com os encantados?

Diretamente e indiretamente, pois promover um bem está ambiental é cuidar e zelar pelo encanto. A casa dos encantado é simbolizada por elementos que manuseamos diariamente, as plantas, os remédios, os processos de tratamento e cura por força do sagrado.

Na cosmovisão Indígena qual a forma de cuidar do meio ambiente?

Observar os sinais da natureza, respeitar todas as potencialidades, enxergar como força absoluta de coexistência. Sem esses elementos não haverá garantias de manutenção longa, como, por exemplo, sem as abelhas, os estudos comprovam que não há multiplicação das plantas, produção dos frutos. Não haverá vida.

Qual a importância da biodiversidade caatinga e como é importante para os encantos?

Entender que a biodiversidade da caatinga é única, e nela habita os corpos físicos e os espíritos que movem toda força ancestral dos espaços sagrados que compreendem as nações dos diversos espaços e Etnias.

Precisamos observar o comportamento das maiores organizações que são as formigas e as abelhas, que exercem funções individuais diariamente. Ações individuais que se complementam, e isso é um sinal de que a natureza está nos ensinando como devemos fazer, mas ignoramos os ensinamentos da natureza sagrada para acompanhar práticas herdada da colonização adoecida pela ganância do capitalismo. Seria razoável observar e respeitar os espaço sagrados como elementos que nutrem nossos corpos, nossa mente, nosso espírito. A Mãe Terra nos faz sonhar e nos transporta para um estado de conexão com forças sagradas. Terra, ar, água e fogo.

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