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Altarpiece, Número. 1, Grupo X, de Hilma af Klint (1907).
Sociedade

Astrologia em um mundo que busca sentido além da razão

por Revista Amarello
Em tempos de incerteza e respostas rápidas, cresce o desejo por narrativas que ajudem a interpretar o invisível.

Governos em crise, mudanças climáticas aceleradas, guerras transmitidas em tempo real, um sem-fim de notícias desanimadores, tudo isso significa o quê? No mínimo, que há um desmoronamento sistemático das instituições em andamento. A busca por sentido, então, vira uma peleja diária e, no afã de alternativas plausíveis, essa busca ganha novas traduções simbólicas. 

Uma delas é a astrologia, que há alguns anos deixou de ser para o ideário popular apenas um passatempo em colunas de jornal para se tornar linguagem de pertencimento, ferramenta emocional e até estética cultural. Nos signos e nas casas astrais, existe uma gramática possível para lidar com o caos, sendo um compilado atraente de códigos afetivos, mapas de pertencimento e linguagens de autoconhecimento. 

Você já ouviu a expressão “jovem mística”. Todos nós ouvimos. Ela nasceu como uma espécie de meme nos anos 2010, primeiro em páginas de humor do Facebook e depois consolidada no Twitter e no Instagram. Estava na mesma seara do também meme “vender minha arte na praia, das coisas que a natureza dá”. 

De início, era uma caricatura: a menina urbana, de classe média, que se interessa por astrologia, tarô, cristais, numerologia, rituais de lua cheia e frases de autoajuda com estética cósmica. O termo, no entanto, rapidamente ultrapassou a sátira e virou um marcador geracional. Signos, cristais e arquétipos saíram do campo da chacota e são hoje códigos emocionais e identitários.

Nas redes sociais, esse movimento se expande em memes, posts virais e aplicativos que misturam linguagem de software com simbologia ancestral. O Co–Star, por exemplo, já ultrapassou 20 milhões de usuários, oferecendo horóscopos personalizados a partir de inteligência artificial. O Astrolink e o Personare, no Brasil, transformaram o serviço em nicho econômico de alto crescimento. Há ainda cosméticos personalizados por signo, roupas inspiradas em mapas celestes e playlists astrais no Spotify. 

Por que tudo isso? A astrologia, assim como tarô, oráculos e cristais, apresenta relatos diante do caos que, diferente de tantos outros, são compreensíveis. Podem até fugir da lógica mais racional e científica, mas é algo que joga sobre as coisas um véu positivo de misticismo. O esoterismo, antes marginal, agora vai a todo vapor. Basta abrir o Instagram ou o TikTok: o feed é atravessado por memes astrológicos que misturam humor e confissão, revelando que rir do próprio caos é também uma forma de enfrentá-lo.

Comunidades queer, negras e feministas transformaram o esoterismo em território de cura, reinvenção e abrigo. Não se trata de um gesto inaugural, já acontecia antes desse movimento, mas dá continuidade a uma tradição subterrânea que, ao longo do tempo, encontrou maneiras de sobreviver à margem. A caricatura da jovem mística, nascida entre memes e ironias digitais, ganha outra camada quando ressignificada em contextos periféricos e dissidentes: ali, astrologia, tarô, rituais de proteção e benzimentos se apresentam como alternativas concretas diante de religiões tradicionais que, tantas vezes, foram mais espaços de exclusão do que de acolhimento. 

Atualizadas, essas práticas se convertem em contra-discurso, recuperando imaginários de pertencimento e inventando novas gramáticas de espiritualidade onde antes havia silenciamento.

A trajetória da jovem mística, de um jeito ou de outro, é representante de uma geração e de uma mudança de mentalidade. Da caricatura ao marco geracional, do meme ao mercado, da marginalidade à estética dominante, o esoterismo contemporâneo se tornou um espaço paradoxal: lugar de refúgio e de consumo, de resistência e de branding, de política e de mercadoria. No fundo, talvez seja esse o segredo de sua permanência. O esoterismo contemporâneo não se opõe frontalmente ao mundo capitalista, mas se infiltra nele, criando fissuras simbólicas. E, mesmo convertido em produto, ainda guarda uma centelha de insubordinação. 

Entre algoritmos e crises, ainda buscamos mapas, cartas e sinais que nos digam que não estamos à deriva. É o “retorno ao sagrado”, como a filosofia conta, um movimento típico de épocas de crise, em que mitos e símbolos se reorganizam como mecanismos de compreensão social. 

No colapso da racionalidade moderna, qualquer mapa que ofereça uma narrativa — mesmo que desenhada nas estrelas — já cumpre sua função de nos manter de pé.

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