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Entre o incômodo e o que prende o olhar: Os outros e as tensões do convívio
Em sua terceira temporada, série desafia os limites das relações humanas em novas camadas.
Os Outros retorna para sua terceira temporada na Globoplay ampliando não só o território físico, mas também o campo de observação sobre o comportamento humano. Com uma leva de quatro episódios lançados por semana (nos dias 9, 16 e 23 de abril), o novo ciclo se desdobra em 12 capítulos que acompanham esse deslocamento, ao mesmo tempo geográfico e emocional. Depois de duas temporadas ancoradas em espaços marcados por controle, como condomínios, fronteiras bem delimitadas e regras tácitas de convivência, a série agora se move de maneira mais radical. E, nesse movimento, revela com ainda mais força aquilo que no fundo a gente sabe, mas prefere não falar em voz alta: uma fuga nunca é completa e a mudança que te distancia de uma realidade te aproxima de outra — e elas talvez não sejam tão diferentes assim.

Criada por Lucas Paraizo e com direção artística de Luisa Lima, Os Outros dialoga tanto com a tradição da televisão quanto com a sofisticação formal das séries contemporâneas, ocupando um espaço que, muito embora sempre tenha existido na televisão brasileira, vem aumentando. Desde sua estreia, a série se molda a partir de um incômodo persistente: conviver com outras pessoas não é fácil. Não como ideia abstrata, apenas evocando o chavão de Sartre que diz que “o inferno são os outros”, mas como experiência cotidiana, palpável para todos nós. Conflitos com o vizinho, ruídos aparentemente banais, olhares atravessados, tudo se acumula até formar um tecido de tensões que, em algum momento, se rompe.
Nessa tapeçaria que Os Outros nos apresenta, nada é simples e fácil de ler. Os personagens não se organizam em categorias estáveis, tampouco oferecem respostas binárias. O protagonismo não garante moralidade, o maniqueísmo se dissolve, e o que à primeira vista parece uma coisa, em seguida já é outra. É um movimento contínuo de deslocamento: quem parecia ocupar um lugar passa a habitar outro, e o espectador é constantemente convidado a rever suas próprias certezas. É esse o grande prazer, e horror, que a série oferece desde o primeiro momento.

Há momentos em que a narrativa parece suspender sua progressão para observar, com maior atenção, os gestos mínimos, os silêncios, as hesitações, como aprofundamento. É a construção de uma ambiguidade afetiva. Mesmo Cibele, personagem de Adriana Esteves que está conosco desde a primeira temporada, nunca é a mesma, podendo fazer algo que nos pega de calça curta. A graça é saber que não podemos esperar sempre a mesma coisa dela, com a empatia convivendo com a irritação e o reconhecimento com o estranhamento. A experiência exige um envolvimento ativo, quase como se a série pedisse às pessoas não apenas que acompanhem, mas que se impliquem.
Na terceira temporada, esse jogo ganha novas camadas. No clichê, a saída do ambiente urbano mais fechado em direção a paisagens abertas significa respiro, uma possibilidade de reorganização, uma fuga idílica. Mas, n’Os Outros, as coisas não são bem assim. O que se expande não é a liberdade, mas a reverberação dos conflitos. Longe dos muros, eles não desaparecem, apenas encontram outras formas de se manifestar. O que antes tratava de se imiscuir pelas rachaduras de um prédio agora se infiltra pelo silêncio ensurdecedor do campo. O “respiro” acaba em hiperventilação, embalada pelo som contínuo dos grilos.
Para todo desejo de recomeço sempre há a impossibilidade de se desvincular completamente daquilo que se é. A idealização da fuga, tão presente no imaginário contemporâneo — sair da cidade, desacelerar, reconfigurar a vida —, não se concretiza e fica claro que o deslocamento físico não apaga as estruturas internas, nem dissolve as contradições presentes nos personagens.

A temporada, assim, se inclina para um registro mais introspectivo. Se antes o conflito se organizava sobretudo nas relações externas, agora ele se infiltra com mais ardência no interior dos próprios personagens. E o novo elenco vem para comprovar e viver isso com intensidade. Nessa temporada, vemos caras novas como Lázaro Ramos, fugindo de sua simpatia galanteadora habitual, além de Carol Duarte, Docy Moreira, Antonio Haddad — isso para não mencionar uma Cibele com um visual totalmente diferente, agora de cabelo curto.
Tem algo de sintomático no fato de tantas séries hoje apostarem em estruturas próximas da antologia, como Os Outros. Menos compromisso com a continuidade de uma história única, mais liberdade para mudar o eixo, trocar o cenário, reposicionar os conflitos. A série de Lucas Paraizo se coloca aí, mas sem fazer disso um truque de formato. A cada temporada, o que muda é o território e, com ele, o tipo de fricção que emerge. O que sustenta a série é a convivência que falha, a escuta que não acontece, a sensação de que qualquer equilíbrio é sempre provisório.
E a mudança de contexto não suaviza nada. O conflito não desaparece quando o cenário se abre; ele só ganha outra escala, outro ritmo, às vezes até outra linguagem. Lucas e Luisa citam algumas referências que ajudaram a moldar o tom dos novos episódios. As Bestas, filme de Rodrigo Sorogoyen, por exemplo, também parte de um deslocamento, com gente “de fora” tentando habitar um espaço que nunca é completamente seu. Já Parasita, de Bong Joon-ho, também citado por eles, parece ressoar na maneira como a série embaralha as emoções do espectador, recusando qualquer leitura confortável. E Straw Dogs, aquele de 1971 de Sam Peckinpah, com um Dustin Hoffman na flor da idade, é um manual para a escalada que desemboca no trágico, algo recorrente na série, observando como pequenas hostilidades vão ganhando corpo até não caberem mais em silêncio.
Assim como nesses filmes, há um interesse em observar o momento em que a convivência deixa de ser possível ou quando ela revela que nunca foi tão estável quanto parecia. A violência, nesses casos, não surge como exceção, mas como continuidade de pequenas fissuras que vão se acumulando. O que une essas obras é menos a violência em si e mais o momento anterior a ela, quando a convivência começa a falhar, o desconforto ainda é pequeno o suficiente para ser ignorado, mas já grande o bastante para não desaparecer.
Ao mudar de cenário a cada temporada, a convivência com os outros segue sendo o gatilho, como se dissesse que não importa muito onde você está, pois, em algum momento, a fricção aparece. E, quando aparece, dificilmente é inédita.
Os Outros usa a ficção como um espaço de investigação, de tensionamento da realidade, de exposição de suas fraturas. Em um tempo marcado por polarizações e simplificações, essa escolha ganha um peso particular. Entre muros que já não contêm e caminhos que não garantem saída, a série segue a série segue sobre essa ponte instável onde convivência, conflito e identidade se entrelaçam. E, na instabilidade, encontra sua força: ao recusar atalhos, ela insiste em permanecer naquilo que é mais difícil, e mais revelador, de sustentar. E nós, atraídos pela queda que se anuncia, não conseguimos tirar os olhos da tela.

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