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Júlia de Carvalho Hansen por Renato Parada.
Literatura

Viver o fim e perceber um início: conversa com Júlia de Carvalho Hansen

por Revista Amarello

Lançado em 2025, Ano Passado acompanha um período devastado por rupturas íntimas e coletivas: um amor que se transforma, a memória que falha, o corpo que reage e o mundo que colapsa. Em entrevista, a autora nos conta como a poesia pode ser ferramenta para responder ao agora e a escrita pode funcionar para recuperar o que nos escapa. 

O livro tem um diálogo com o formato de diário. O que te interessa nesse formato híbrido entre o registro e a fabulação, a interpretação? Em certo ponto, você até sugere que o diário pode ser o melhor gênero dentro da ficção. Como tudo isso entrou no projeto que você tinha do livro?

Júlia de Carvalho Hansen: Tem a ver com a minha experiência e os meus processos de escrita. Acredito que eu escreva diário há provavelmente uns 18, 20 anos, porque é uma forma de sobrevivência da minha sensibilidade. É como se o diário me colocasse em alto contato com o teor da matéria da minha vida. E, ao mesmo tempo, eu percebo que ele é um registro muito múltiplo. Meus diários nunca partem de uma formulação como “hoje eu acordei de manhã e fui fazer musculação”. A verdade é que eu sinto o que eles falam, do cansaço de subir à rua ao que me deu quando passei pela experiência de um divórcio anos atrás. Então, escolhi que o Ano Passado fosse em formato de diário por sentir que o registro do diário abarca um tipo de construção que eu não pratiquei muito na literatura, e me interessava fazer uma transposição de uma prática individual para um registro de livro.

E veio também de um interesse de um projeto. Alguns dos meus livros são projetos, alguns acontecem. Por exemplo, o Seiva Veneno ou Fruto [lançado em 2016] aconteceu. Mas o Romã [de 2019] nasceu num projeto. O Ano Passado nasceu num burnout. Eu estava, acredito, há uns três anos sem escrever com projeto e se eu não escrevesse eu ia adoecer, eu ia enlouquecer, eu tinha que voltar. Se eu desse uma assinatura dele, ela começaria dizendo que o livro é um livro de poemas estruturado em forma de diário, o que também faz dele uma narrativa como um romance. Então eu jogo com isso. Você pode pegar um poema e ler separadamente, ele tem um jeito, mas, se você lê na sequência, ele continua, afinal, ele é a estrutura de um romance. Ele tem histórias, tem narrativas, tem várias linhas. E, nesse sentido, ele passa totalmente por uma experiência que é romanesca. Era um projeto que me interessava como escritora, pela experiência acumulada dentro do gênero; era um projeto que me era necessário como ser humano para fazer ficção. E, ao mesmo tempo, eu entendi logo no começo que isso me produziria uma construção de um livro que jogava com muitos gêneros, e isso também me interessou.

Foto de Renato Parada.

Na poesia, há uma tendência de leitura mais pessoal, de aproximação entre eu lírico e autoria. Como você vê essa relação? Você trabalha com esse jogo também?

JCH: Eu não saberia dizer se em toda a história da leitura as pessoas tiveram essa impressão de que o eu lírico na poesia é mais aproximado da autoria do que na prosa. Mas eu acho que a gente vive num tempo em que os prosadores, por exemplo, estão entrando mais em um registro do tipo. Não à toa, talvez o gênero mais vendável dentro da prosa hoje seja a autoficção. Os prosadores precisam estar decididos se se trata da minha vida ou se se trata da minha vida recriada. Coisa que, na poesia, eu acho que — claro, existem poetas que tentam escapar disso —, mas é como se, no contemporâneo, eles precisassem escapar disso; senão, vai ter quase uma coisa grudada de uma relação muito próxima entre o eu lírico e a autoria. 

E, no meu caso, eu sou uma poeta que, se Ana Cristina Cesar não tivesse existido no meu campo de leitura, eu não teria a menor ideia do que eu escreveria. E acredito que isso vale para a maior parte, ou grande parte, da poesia brasileira contemporânea. A Ana Cristina é um ponto daqueles que tem um antes e depois que é drástico. E eu acho que aprendi com a poesia dela que esse tipo de jogo literário, que é um jogo de efeitos, é extremamente sedutor. Essa câmara de ecos é um campo de estratégia que eu tenho. 

Há um diálogo com a autoficção e com essa expectativa contemporânea de exposição do autor. Como isso atravessa o livro?

JCH: Eu tinha baixado no meu celular um aplicativo que se chamava Diário para me ajudar a escrever, porque, basicamente, há muitos anos eu noto que o meio pelo qual eu escrevo — e isso eu estou falando mecanicamente, se estou escrevendo à mão com uma caneta, se estou escrevendo digitando no computador ou se estou escrevendo no celular —, as velocidades que eu consigo escrever são muito diferentes. Obviamente, escrever no computador é muito mais rápido do que no celular e à mão é muito mais lento, mas digo isso porque eu comecei a fazer experimentos de textos escritos no celular e também esses experimentos de escrever, não pensar muito, postar e ver o que acontecia. 

Talvez a grande metalinguagem desse livro seja algo muito radical e que também veio a partir da ideia de que ele era um diário, que eu comecei a achar isso completamente necessário de fazer, o que se traduz numa questão sobre o tempo. Sobre o tempo, a metamorfose, as transformações, as coisas que acontecem pelo destino e que nos atravessam e que a gente não tem escolha, ou como a gente se porta perante essas coisas. É uma coisa muito abstrata, mas, ao mesmo tempo, foi uma tentativa de figuração disso no livro.

O tempo, de fato, é algo super importante no livro, tem a cronologia ali definida, o tempo está no título do livro. Qual foi a relação com isso no processo de escrita? Você sente que escrever te dá um certo poder sobre o tempo?

JCH: Quem dera [risos]. Eu estava lendo um livro do Bashō, o poeta japonês, que está até em uma das epígrafes do Ano Passado. Esse livro é organizado pelas estações do ano. Então, você tem, assim, “primavera, 20 haicais”; “verão, 20 haicais…” E aí eu percebi que eu gostaria de fazer um livro em que as partes dele acompanhassem uma movimentação das estações do ano. Mas também acompanharam o fato de que a gente vive num tempo de transição climática, em que as estações do ano estão deixando de existir. Então, nesse sentido, ele também é um livro de memória sobre um tempo que está se perdendo.

Mas eu também diria, e aí pega num lado biográfico, que é um livro sobre grandes encerramentos de época da minha própria vida. Eu acho isso muito forte no livro, essa questão da passagem do tempo. E até mesmo ele se chamar Ano Passado… Romances têm um título assim. Eu quero que a pessoa entre na livraria, veja e pense “é um romance… Não, que esquisito, é um livro de poemas”. É um livro sobre a minha separação do meu ex-marido e é um livro sobre o envelhecimento do meu pai. E eu lancei o livro em julho do ano passado [2025], e tanto o meu ex-marido quanto o meu pai morreram depois da publicação do livro. É como se, de repente, o livro tivesse ganhado uma perspectiva na minha vida ainda mais louca.

Depois de publicado, como a sua relação com o livro costuma se transformar? Ele se torna mais distante, mais claro ou mais complexo?

JCH: Eu penso muito sobre isso. Atualmente, quando publico um livro e me dão parabéns, eu fico sempre com mixed de feelings, porque a minha sensação é que perdi o meu brinquedo, eu estava dentro dele e, de repente… E também é como se eu entrasse num momento posterior em que eu não consigo escrever poemas. É como se eu entrasse numa entressafra, aquela coisa que a Clarice Lispector falava: “se eu não escrevo, eu estou morta”, e, ao mesmo tempo, ela contava que morria entre os livros, que ficava sem conseguir escrever. Eu não fico sem conseguir escrever em todos os gêneros, mas, poesia, sim. E, como isso me aconteceu entre todos os meus cinco livros, hoje em dia, quando me acontece, já não me angustia. Eu sinto falta, mas sei que, em algum momento, isso deve voltar, porque, afinal, é o que eu gosto de fazer, é o que eu sei fazer, é o que eu preciso fazer.

Às vezes eu tenho a autoestima literária da Hilda Hilst. Eu bato o olho e falo: “Nossa, arrasei, como há 10 anos eu já era inteligente”, sabe? E, às vezes, eu quero morrer por uma vírgula. E, com o Ano Passado, quando eu o publiquei, sabia que ia levar tempo para as pessoas começarem a ter reações. Primeiro porque ele é um livro propositalmente extenso. O Schneider Carpeggiani, que foi o editor, na primeira vez que eu apresentei o livro para ele, achei que ele ia aplicar o método clássico do editor, da castração. Mas ele falou para mim: “mais, aumenta”. Então eu imaginava isso, que ia demorar para as pessoas começarem a falar sobre ele. E sinto que isso está começando a acontecer agora. E agora, depois de quase um ano, sinto que eu ainda não conheço o Ano Passado. No sentido de que, como ele é muito múltiplo, tenho essa sensação de que eu mesmo ainda estou assimilando ele. 

Sua escrita articula o íntimo e o coletivo, o cotidiano e o cósmico. Como essas camadas se encontram aqui?

JCH: Eu comecei a escrever esse livro no começo de 2022. E a primeira vez que eu tive Covid foi em 2022. Então tem, por exemplo, sonhos que estão bem no meio do livro, que são sonhos que eu tive com Covid, e realmente foi naquele ano que eu tive. E, ao mesmo tempo, o livro, embora ele seja sobre um ano, eu escrevi entre o começo de 2022 e o começo de 2025. Então, foram três anos de um arco de escrita. Tem um poema do Seiva Veneno ou Fruto, que ele começa assim: Foi-se o tempo/ em que confundi ação/ com a fúria do movimento. E esse poema é muito exemplar disso, porque é como se estivesse falando de uma metamorfose, de um furacão acontecendo em simultâneo a uma lavagem de prato. E há esse íntimo e essa relação com um macro que é terreno, telúrico, mas também é cósmico. Ele também é espiritual. Eu acho que isso não só constitui a minha poesia, mas me constitui. Eu sou astróloga. Por exemplo, quando eu estava falando sobre a divisão em estações do ano, essa divisão também é uma divisão astrológica. 

E há muitos anos eu me interesso por um campo contemporâneo que é um campo de pesquisa do conhecimento e dos saberes entre espécies. O animal, o vegetal, tudo isso me interessa muito desde criança. Tenho um convívio entre as espécies que é um convívio bastante horizontal. Isso guia muito as coisas que eu vou escrevendo, porque essas espécies nos ensinam muito a poder conviver com uma experiência que é respirarmos todos juntos dentro de um planeta, um oxigênio só. Mas, ao mesmo tempo, sou uma escritora paulistana com consultório astrológico lotado, onde eu atendo sei lá quantas pessoas por mês, que me falam o tempo inteiro da intimidade delas, das vidas particulares, de coisas que são muito privadas. Então, de certa maneira, eu acho que meus poemas vão jogando com isso, onde tem uma experiência que é altamente subjetiva, altamente individual, mas que, no fundo, o que eu acho que interessa é essa vibração do casulo da borboleta. Acho que a vida está nessas coisas.

É um livro muito narrativo, e a cronologia contribui para isso. Havia uma estrutura pensada nesse sentido, com um percurso mais definido, de começo a fim? E como é a sua relação com a narrativa dentro da poesia, isso é algo mais recente na sua escrita ou já vinha se formando ao longo do tempo?

JCH: Entre os meus livros, só o Ano Passado é assim. Foi uma coisa muito da feitura, muito mais do que da minha experiência de leitora. Como leitora de poesia, acredito que eu precisaria pensar um tempo, mas acho que não, que a maior parte dos livros de poesia que mais me fascinam têm estruturas mais abertas. Mas não tenho certeza. Li muito os livros da Louise Glück durante a pandemia e li muito para escrever esse livro, e ela é muito sofisticada, uma coisa de que você nem nota qual é a estrutura, a não ser que você tenha lido, lido, lido, daí você vê que ela está lá. E eu, na prosa, nos últimos anos, acabei lendo muitas coisas de autoficção e sempre me interessei muito pela autobiografia. 

Mas eu acho que não houve nenhum modelo para eu fazer esse livro. Foi quase como se eu percebesse: se eu não fizer uma estrutura nele bem formal, ele vai ser um livro ilegível. E eu quero que ele seja legível. Para trabalhar com isso do tempo, acho que era importante.

Há mais espaço para poesia hoje em dia? 

JCH: Acho que sim. É aquela coisa que a Ana Cristina César dizia: a poesia é telegráfica. E, em algum sentido, ela pode corresponder a um contemporâneo que busca pela imagem. Eu acho, como poeta, como astróloga, que a gente vive mesmo um fim de época que é um início de época. Astrologicamente, 2026 é o primeiro dos anos que é um início, dentro de muitos que vinham sendo o fim. E, certamente, como todo início, ele é muito desconhecido, nos apavora, ele tem muitas coisas que a gente desconhece. Mas uma coisa que eu entendo é que a gente vive, contemporaneamente, uma crise muito violenta do que é o indivíduo. A gente vive num tempo em que o individualismo é muito reificado, likeado, tagueado, mas que, ao mesmo tempo, esses indivíduos em nós, que reiteram atitudes de sobrevivência egóica, digamos assim, também não têm a menor ideia de quem são.

E eu acho que, é claro que estou puxando a sardinha para o meu lado, mas dentro do campo das artes, a poesia trabalha com esse tipo de questão sempre. A poesia sempre começa com um desentendido, com um enigma, com uma impossibilidade de sujeito que precisa passar pela experiência para que ele exista. Acho que ela também responde a um problema de época.

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