
Lucas Cordeiro e a vida antes do clique
No limiar entre a antecipação de uma imagem que ainda não existe e o gesto de transformá-la em fotografia, Lucas Cordeiro constrói um corpo de trabalho em que esse ato se define menos em capturar o mundo e mais em escutá-lo. Ressoa em suas obras uma espécie de espera ativa, como quem permanece diante de um muro, de um corpo, de um objeto, até que algo perpasse o seu olhar e se anuncie.

Nascido em Itapetinga, no interior da Bahia, Cordeiro cresceu entre quintais de terra que viravam composições improvisadas com o que havia à mão, como folhas e pedras. Antes de entender a fotografia como linguagem, ela já o ajudava a organizar o mundo em arranjos, fazendo-o ouvir os arredores e entender que a complexidade da vida e do tempo não cabe numa composição, mas seus elementos, esparsos ou não, sim. O tempo não se segura, nem mesmo numa foto, mas, para o bem e para o mal, a sua passagem cabe em tudo que existe. Cordeiro faz que seja para o bem. A chegada de uma câmera digital, portanto, marcou uma expansão de como a vida podia ser percebida. O que antes era efêmero ganhou superfície, duração, uma segunda vida luminosa.
Talvez por isso suas imagens carreguem uma tensão entre o que está e o que se torna. Não há pressa em definir. Tudo está suspenso em um campo de forças em que humanos, plantas, animais, objetos e entidades coexistem sem hierarquia evidente.

“Minhas fotografias nascem do encontro”, explica. “Com pessoas próximas, familiares, amigos, irmãos de santo, mas também com coisas do mundo. Uma pedra, um encantado, um animal, um artefato, um tipo de patuá. São encontros que carregam matéria, história e presença. O encontro é uma potência fundamental da vida. Desde a própria formação da vida existe encontro, seja entre dois gametas que originam um corpo, seja no choque entre dois corpos no mundo. A imagem começa nesse lugar. Antes do clique, já está em curso, como um campo que se ativa no encontro. Vejo o encontro como um potencializador da memória.”
Quando há alguém diante da lente, dá quase para ouvir o diálogo travado entre câmera e pessoa retratada. Mas há na intimidade dessas imagens um esfumaçamento. Um gesto que não se explica, um olhar que parece carregado de outras histórias além daquela que vemos.
Revelar um segredo nem sempre tem efeito. É bem mais interessante admitir que ele existe e parar por aí. “O mistério, isso é o que me move”, diz ele, categórico. “Preservar aquilo que escapa, o que não se deixa ver totalmente, porque é aí que a imagem continua viva.”

Encontros improváveis entre matérias e estados distintos são a gênese de muitas dessas imagens. O que corta e o que acolhe, o que ameaça e o que repousa, o que é duro e o que é vivo. É comum haver um encontro entre as superfícies, como metais, vidros e folhas, e os corpos que as atravessam ou habitam, como se cada elemento carregasse uma energia própria, às vezes em conflito, às vezes em conciliação. “Me interessa criar imagens no limite entre o que aparece e o que se esconde. Pensar a imagem como um campo onde algo pode se revelar, mas nunca completamente, onde certas partes se intensificam enquanto outras recuam.”
Os elementos que aparecem — bacias de alumínio, animais, objetos cotidianos, símbolos espirituais — não parecem escolhidos apenas pelo que são, mas pelo que evocam. Memórias, temperaturas, ritmos, tudo isso e mais um pouco. “Acho que esse jogo entre mostrar e não mostrar revela uma faceta importante da natureza humana, porque a gente nunca se apresenta inteiro, sempre existe um deslocamento, uma camada que escapa.”
E a luz, muitas vezes, vai além do iluminar para, com paciência, ativar. “Gosto muito de negociar entre corpo e luz. Vindo de Itapetinga, onde a luz é muito visceral e o sol guia a vida na cidade, cresci em contato com uma incidência intensa, direta, muitas vezes escaldante. É uma luz que não suaviza, ela impõe. E, de certa forma, nos obriga a redesenhar modos de vida entre o calor e a sombra.”
A imagem deixa de ser arquivo e passa a ser campo, um lugar onde diferentes camadas de experiência coexistem, se tensionam e, por vezes, encontram uma forma provisória de equilíbrio.
Cordeiro conta que as imagens no seu trabalho “se conectam a experiências do passado, mas não como lembrança. São situações que permanecem no corpo e continuam se manifestando no presente.”
A memória presente ali não é nostálgica, é uma matéria em circulação. “Essas situações pertencem a uma memória coletiva, que atravessa os corpos e se manifesta de maneiras diferentes. Por isso, trabalho sempre com pessoas com quem tenho vínculo, porque a imagem não é uma captura, é um encontro. Ao mesmo tempo, acredito que já chegamos ao mundo com certas armaduras de uma memória ancestral que se inscreve no corpo como um código. O que a gente vive ao longo da vida não cria essas estruturas do zero, mas as ativa, as transforma e as reorganiza.”

É assim que o tempo também se reconfigura. Como ele descreve, quando trabalha o tempo dentro da imagem, ele não vê “como uma linha entre passado e presente, mas como uma sobreposição: o que vem antes, o que se vive agora e o que continua agindo. A imagem, para mim, é esse lugar onde essas camadas coexistem e seguem em movimento.”
Mesmo quando tocado por questões profundas, como identidade, ancestralidade e apagamento histórico, o artista não vai pelas vias do confronto direto. Em vez de denunciar frontalmente as imagens distorcidas construídas sobre corpos negros, ele prefere enfraquecê-las por saturação de outras narrativas. A mensagem ressoa: combater as forças antigas para dissolvê-las. Apostar na beleza como afirmação: um corte de cabelo, um fio de conta, um corpo em posição improvável. Tudo pode ser linguagem. Tudo pode ser cura.
Se há direção em suas imagens, ela não é rígida. O gesto de quem fotografa e de quem é fotografado é um movimento mútuo: “Existe uma história prévia entre mim e o retratado”, explica. “A gente está compondo essa imagem juntos, a partir do que eu sei dele e do que ele sabe de mim. Nesse processo, fica mais claro entender o que queremos dali, quais signos podem potencializar a imagem e quais podem ativar memórias mais fortes naquele instante. O clique não é o começo, é um desfecho. Ele faz parte de uma orquestra que já está em movimento. Para mim, a fotografia acontece antes, durante e depois do clique.”

Entre tradição e contemporaneidade, seu trabalho prefere o trânsito. Objetos, gestos e símbolos carregando ecos de uma herança ancestral, enquanto a composição e o enquadramento os lançam em um tempo que é agora e também outro.
O que Lucas Cordeiro propõe é olharmos mais uma vez, fugindo da explicação fácil e fazendo surgir um novo sentimento, uma vivência que faz ecoar um zumbido insistente no ouvido. Ali há uma imagem pedindo para nascer.
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