
Disfarçando as evidências
Num país em que crescem escolas bilíngues como jardins planejados para florescer no exterior, ensinamos desde cedo as crianças que o futuro mora longe. Bandeiras estrangeiras nas paredes, universidades internacionais como promessa de felicidade, currículos desenhados feito barcos para atravessar oceanos. Sonha-se em outra língua. Planeja-se a vida em outro hemisfério.
As festas de Halloween crescem ano a ano, e há uma surpreendente onda de brasileiros esquiadores. Nosso tão aguardado verão está competindo com as montanhas de neve. No ano passado, fui convidada para um jantar de Thanksgiving aqui mesmo, no Alto de Pinheiros. Enquanto isso, o Cristo Redentor assiste a esse êxodo de braços abertos sobre o Corcovado, como quem pergunta, em silêncio: para onde vocês estão indo? Desistiram de ser adultos no Brasil?
Há uma geração que cresce acreditando que será feliz apenas quando partir. Idealiza corredores de universidades distantes, invernos nevados e sotaques diferentes. E quando finalmente chega lá, descobre algo que não estava no script: a sensação de sermos estrangeiros nesse espaço. É entre o fascínio e o desenraizamento que a identidade nacional começa a pulsar com força. Ser brasileiro, então, deixa de ser detalhe, e passamos a nos orgulhar de quem somos.
Quando morei fora, uma das minhas maiores diversões era esperar o dia da feijoada no consulado brasileiro. Havia algo de solene e, ao mesmo tempo, cômico: adultos formados, falando várias línguas, contando os dias para comer feijão preto no restaurante de uma representação diplomática. No dia marcado, todos apareciam, e formávamos uma longa fila até chegar nossa vez. Ríamos à toa, falávamos alto e sentíamos saudades de casa. E isso nos unia. Era o “ano do Brasil na França”; ouvíamos Lenine, Chico César, Marisa Monte, Caetano, Gil e Chico em nossos iPods. Morríamos de saudade de brigadeiro e de goiabada com queijo, pedíamos aos amigos que trouxessem na mala paçoquinha Amor e sonhávamos com uma caipirinha refrescante no lugar do vinho tinto. No fim das noitadas, claro, cantávamos Evidências.
Talvez, no Brasil, muitos daqueles rostos jamais se cruzassem, mas, em um país estrangeiro, bastava uma coisa: éramos feitos de samba, suor e cerveja. Muitos daqueles rostos nunca mais vi, mas, naquele momento, éramos uma família.
No livro Bonequinha de luxo, de Truman Capote, Holly Golightly circula entre figuras excêntricas, personagens improváveis, homens misteriosos. Pessoas que talvez jamais se encontrassem por afinidade profunda, mas que compartilhavam algo invisível e poderoso: a mesma nacionalidade. No meio do cosmopolitismo, é aquilo que une. O país vira ponto de reconhecimento. Moldura comum, identidade e valores compartilhados.
Vive-se numa fronteira invisível. Admira-se o mundo, aprende-se sua língua, incorpora-se sua lógica. Mas há sempre um pequeno deslocamento. Um nome que denuncia nossa origem. Um sotaque que escapa. Uma memória que não cabe completamente naquela geografia. E então torna-se essencial ter alguém por perto que testemunhe e compartilhe suas saudades de casa. Sempre achei isso fascinante: a velocidade com a qual, fora de nosso país, criamos intimidade.
Morar fora tem uma dureza que não aparece nas promessas das escolas bilíngues. Existe reconhecimento, admiração pela competência, curiosidade pelo exotismo, elogios ao “calor humano”. Mas há também o limite sutil: você não é daqui. Você é interessante, mas não pertence a este lugar por inteiro. E isso nenhuma escola ensina.
Somos o sal do mar batendo em Ipanema ao entardecer. O azul impossível de Fernando de Noronha e a imensidão de areias ondulantes dos Lençóis Maranhenses. Somos os igarapés profundos da Amazônia, floresta respirando como um organismo antigo. Cachoeira da Fumaça, Morro do Pai Inácio, pedras de Ouro Preto, cocada e coqueiro. Somos o caminhar na Avenida Paulista aberta em um domingo, a feira de rua com pastel e caldo de cana, o arroz com feijão e couve. Amor, para a gente, é pão de queijo ainda quente, bolo de fubá, pão na chapa, goiabada com queijo, doce de figo com requeijão, biscoito Globo, moqueca, cuca, pirão, tucunaré, aipim frito, tutu de feijão, picolé de groselha do Rochinha. Junho, para nós, é desenhado com bandeirinhas coloridas que anunciam o fim do semestre; e fevereiro é cor, purpurina, confete, serpentina e samba no pé. No Ano-Novo, nos vestimos de branco e colocamos até calcinha nova, como se estivéssemos nos produzindo para um novo amor.
Brasileiro ouve Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Gomes, Alceu Valença, Gal e Bethânia. Nossa língua é também melodia, e a Bossa Nova chega como brisa. Nossas palavras abrigam poesia em Mario Quintana, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Adélia Prado, Conceição Evaristo.
É entrar no MASP e se perder na Pinacoteca. Tarsila do Amaral, Volpi, Portinari, Lygia Clark e Beatriz Milhazes são a prova de que também somos vanguarda, ruptura e invenção. No exterior, brasileiros se reconhecem como quem encontra um espelho. Pela memória da mesma infância ensolarada, mesmo que vivida em cidades diferentes. Pela comida. Pela música. Pela piada que só funciona em português. Talvez o maior paradoxo seja este: passamos a vida idealizando o mundo lá fora e, quando finalmente o habitamos, descobrimos que aquilo que nos ancora é justamente o que aprendemos a subestimar. Não precisamos disfarçar as evidências de onde viemos, pois há nelas algo muito rico.
Aprender outras línguas é ponte. Conhecer outras culturas, expansão. O problema não é partir; é ensinar que só há grandeza fora daqui. Achar que o que somos vale menos, é menos sofisticado. Que geração estamos formando? Uma que cultua deuses estrangeiros ou uma que atravessa fronteiras com os pés firmes na própria identidade?
Talvez o verdadeiro bilinguismo que nos falte não seja apenas o do inglês impecável, mas o da consciência: a capacidade de olhar para fora sem deixar de olhar para dentro. Porque, no fim, nenhuma universidade estrangeira concede aquilo com que já nascemos: essa mistura de cores, sons, sabores, dores e histórias que chamamos de Brasil. E ser brasileiro, com todas as suas contradições e grandezas, não é limitação; pelo contrário, é um tremendo orgulho.
Finalizo este texto ouvindo um bloco de carnaval, num domingo de fevereiro, na torcida pelo Oscar de Wagner Moura quando ele tiver sido publicado. Um bom samba é uma forma de oração, e a tristeza tem sempre uma esperança de um dia o país não ser triste, não.
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