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Forêt Vierge : les bords du Parahîba, de J. B. Debret (1834).
#55Imagem BrasilCultura

Imigração

por Leticia Pinheiro Lima

Existem poucos sons que me trazem mais paz do que o barulho das minhas pegadas sobre a neve recém-caída. É um som que quebra o silêncio da paisagem. Silêncio porque o ar preso entre os flocos de neve atenua a vibração do som e diminui o ruído ambiente. Esse silêncio, interrompido apenas pelo croc-croc dos meus passos, veio a fazer parte do meu ser. 

Moro em um país silencioso. A Suécia fica no extremo norte do mundo, o mais distante possível, em temperatura, cultura e paisagem, do Brasil. Foi aqui que aprendi o significado do silêncio. Não apenas na paisagem, mas também nos espaços que a vida nos proporciona. Os suecos são silenciosos. Isso não quer dizer que falam pouco, necessariamente, mas que, quando falam, usam a voz baixa. Escutam em silêncio e fazem uma pequena pausa antes de responder à fala do outro. Apreciam o silêncio em espaços públicos, no ônibus, no metrô, nos parques. A natureza gélida e austera é também silenciosa. 

É difícil explicar essa profunda vivência do silêncio para quem nunca morou aqui. De passagem, como turistas, não paramos muito para refletir, para absorver silêncios. Estamos procurando aventuras, experiências. São museus, restaurantes, vivências exóticas — como passeios de trenó e renas —, a aurora borealis. Vemos e experimentamos tudo numa confusão de novas impressões. Não há tempo de notar os espaços entre as experiências, mas, vivendo aqui, esses espaços são a minha realidade. E assim aprendi o que é o silêncio, algo que aprecio hoje como restaurativo, calmante e necessário para o meu bem-estar. 

Junto desse aprendizado me vem sempre uma onda de saudades do Brasil. Lá, brasileira no Brasil, nativa, local, pertencente, nunca me dei conta do barulho brasileiro. E não digo apenas do nosso povo, que é, sim, barulhento. Falamos alto, rimos, cantamos. Mostramos nosso interesse no que uma pessoa está falando com microinterrupções. Ãha, é mesmo, nossa, amiga, nem me fala. Nos interrompemos para demonstrar participação, engajamento na conversa. Nossa fala é, assim como nossa natureza, exuberante, viva, envolvente. O nosso ambiente também é barulhento. Quando fecho os olhos, me vem à memória a verdadeira sinfonia que formava a trilha sonora dos meus dias sem que eu a percebesse. Os sabiás, os bem-te-vis. O som do vento soprando nos galhos das árvores, os agapantos e as bromélias no jardim. O canto ensurdecedor das cigarras ao entardecer. O zumbido elétrico no ar instantes antes de cair um temporal daqueles, com raios de estourar os tímpanos. Isso sem falar da sonografia urbana. O caminhão de gás tocando Für Elise. O amolador de facas passando de bicicleta. Os feirantes anunciando suas frutas e verduras. Buzinas de trânsito, motoboys acelerando, carros com caixas de som fazendo campanha política. Música bombando de algum lugar na vizinhança, alguém gritando Ô dona Marina, como vai a senhora? E a netinha?. O Brasil é uma cacofonia.  

Sempre que digo que moro na Suécia, logo vem a pergunta: E o frio? Mas o frio é óbvio. É esperado. Compramos mais roupas e aprendemos a importância das camadas. Os truques da adaptação: coloca uma bolsa de água quente dentro do casaco antes de sair de manhã. Toma banho frio para o corpo se acostumar. Já ouvi — e fiz — de tudo. 

O que o imigrante nunca espera são as diferenças sutis, aquelas das quais não falamos. Não estamos preparados para navegar nas diferenças de som, o tom de voz, a pausa na fala. Para entender que num país assim, tão escuro, eles preferem a luz de velas no inverno. Mais escuro ainda!, penso eu, horrorizada. Depois de anos, vim a entender que é uma forma de criar um ambiente aconchegante. Um regresso quase a um útero materno, quentinho e escuro, quieto e de muita paz, para sobreviver ao inverno rigoroso. São as regras sociais invisíveis que te pegam. 

Saia, faça amigos, se apresente! Sim, claro, mas sem entender os passos da dança. Rimos de um gringo tentando sambar, mas a vida de imigrante é assim — chegamos com o gingado errado, tentando acertar os passos numa dança desconhecida.  

Isso não quer dizer que é ruim. Pode ser, de fato, muito bom, como tem sido para mim. Porém, não deixa de ser difícil. Traz à tona muitas questões de identidade que nunca antes tive de confrontar, especialmente após ser mãe. Sou casada com um sueco, minhas filhas são nascidas aqui. Elas se identificam, com o português meio atrapalhado, como “metade suecas, metade brasileiras”. Mas o que isso quer dizer? Me pergunto muito qual identidade quero passar para elas. Me esforço. Elas fazem aulas e lemos livros em português, aprendemos lendas brasileiras, assistimos Castelo Rá-Tim-Bum e Galinha Pintadinha. Toco música brasileira, comemos arroz com feijão, as festinhas de aniversário delas têm brigadeiro e beijinho e pão de queijo. Mesmo assim, sofro com a sensação de que elas estão perdendo algo, alguma coisa indefinível que é “ser brasileiro”. 

Talvez seja por elas perderem a oportunidade de criar memórias que me foram fundamentais na infância. Coisas brasileiríssimas. O correio pomba na festa junina. A malhação do Judas que fazíamos na chácara, na Páscoa. Passar a tarde colhendo pinhão das araucárias para comer à noite. Polenta frita e bacalhau à Brás, barreado e carne de onça. Pirogue de batata na feirinha polonesa. Correr na praia caçando tatuíra para fritar na farofa. Coisas da minha primeira infância no Paraná. Depois de nos mudarmos para São Paulo, eu ainda criança, as memórias se tornaram outras. Feijoada, pastel de feira com suco de cana. Pizza de catupiry e sushi na Liberdade. Aquele potinho de sal grosso com pimenta atrás da porta para espantar o mau-olhado. Ir à feira de antiguidades no Masp. Sanduíche de mortadela no mercadão. Comprar flores com a minha mãe na feira da CEAGESP. Comida de boteco.  

Daí vieram as temporadas de verão passadas na Bahia. Deitada na rede, ouvindo o som do mar, vendo os macacos pularem entre os galhos das árvores. Acarajé, bobó, moqueca, vatapá, beiju, cocada, jaca, coco fresco, mangaba, maracujá, atemoia. O bicho-preguiça que apareceu no jardim. O teiú correndo debaixo do deck. Os morcegos dando rasadas nas nossas cabeças. Caminhadas na praia em noites de lua cheia, maravilhada com a fauna. Polvo, caranguejo, siri, ouriço, pepino-do-mar, caramujo com concha em espiral. Peixinhos diversos. Sapos, lagartixas, cobra-cipó. Noites assistindo capoeira na praça ou dançando forró em chão de terra batida. Uma visita ao terreiro de candomblé, onde senti medo do caboclo. Réveillon após réveillon fazendo oferendas a Iemanjá. Visitas à aldeia dos índios Pataxós para comprar colares feitos com semente de sibipiruna e artesanatos em palha.  

Como comprimir todas essas experiências, este Brasil tão enorme e diverso, e entregá-lo às minhas filhas? Olha filha, esse é o Brasil. Jamais conseguirei capturar todas essas brasileirices, essa essência, e reconheço que o meu Brasil é diferente do seu Brasil; cada um de nós tem um Brasil diferente.  

Talvez porque o Brasil nunca tenha sido uma coisa só. Talvez porque ele não seja um retrato, mas um movimento. Aquilo que eu chamo de infância, um retalho de sons, sabores e experiências vindas de tantos lugares, é também a infância de um país que foi sendo inventado à medida que gente de todo canto chegava e deixava um pedaço de si. 

O que para mim é memória afetiva, para o Brasil é história. 

Antes de ser a minha feijoada de sábado, o gnocchi da nonna, a apfelkuchen, o quibe cru e a coalhada, houve navios. Houve malas de papelão, nomes trocados na entrada dos portos, línguas que se misturavam, confusas. Houve quem chegasse por escolha e quem chegasse à força. Houve quem encontrasse abrigo e quem encontrasse preconceito e apagamento. 

Crescemos ouvindo que somos um povo só, mas a verdade é que fomos feitos de muitas chegadas. 

O Brasil é gigante. A imensidão do território nacional e a diversidade do nosso povo tornam nosso país único. Não é apenas um país miscigenado, é um país atravessado por ondas sucessivas de deslocamento. Italianos, espanhóis, portugueses, alemães, suíços, ucranianos, poloneses, japoneses, libaneses, sírios. Povos que trouxeram suas crenças, seus temperos, suas músicas, seus modos de trabalhar a terra, de celebrar, de enterrar seus mortos. 

Cada sobrenome estrangeiro que hoje parece brasileiro foi, um dia, um corpo deslocado tentando aprender os passos de uma dança nova — como eu na neve, com o gingado errado. 

Se olharmos de perto, as ondas de imigração no Brasil não parecem uma sequência neutra de chegadas, mas um projeto, às vezes explícito, da construção de certo país. A partir do século 19, especialmente depois de 1850, quando o tráfico escravagista atlântico foi proibido, o Estado e as elites agrárias passaram a incentivar a entrada de europeus no país. Precisavam abastecer o trabalho livre nas lavouras, sobretudo de café, e, ao mesmo tempo, desejavam “corrigir” aquilo que chamavam de herança escravocrata — um eufemismo para o desejo de embranquecer a população. A legislação diz isso sem muita vergonha. O Decreto nº 528, de 1890, declarava inteiramente livre a entrada de imigrantes, mas fazia a ressalva de que indígenas da Ásia ou da África só poderiam entrar mediante autorização do Congresso e determinava que agentes diplomáticos obstassem a vinda desses grupos. A ideia de “clarear o Brasil” circulava como bom senso entre setores da elite. No começo do século 20, ela ganha verniz científico e vitrine internacional. No Congresso Universal de Raças, em Londres (1911), João Baptista de Lacerda apresentou a tese de um Brasil que, pela miscigenação orientada e pela imigração europeia, se tornaria branco. Apresentou o país como “laboratório racial”, observado e julgado por olhares europeus.  

E, no entanto, quando a gente desce do plano das ideias para o chão da vida, a história é menos harmonia tropical e mais assimetria imposta. O mesmo Estado que subvencionava passagens, prometia terra, organizava colônias e moldava núcleos europeus no Sul e no Sudeste também criou mecanismos para regular quem podia entrar e, depois, para restringir a imigração. Nos anos 1930, vieram a Lei dos 2/3 (reserva de postos de trabalho para brasileiros) e a política de cotas/restrições do período Vargas, que buscavam controlar e selecionar a imigração em nome de emprego, ordem e integração nacional. Ou seja, as portas nunca estiveram abertas do mesmo jeito para todo mundo. O Brasil escolhia, filtrava, hierarquizava. E, por baixo dessa engenharia, existia a camada mais antiga e brutal de deslocamento: o sequestro e a deportação forçada de milhões de africanos escravizados, além do processo contínuo de violência, expropriação e morte de povos indígenas. A imigração “livre” se construiu sobre uma fundação de poucas liberdades para muitos. 

É aqui que um dado contemporâneo ilumina o passado com uma clareza incômoda. Um estudo genômico recente do DNA brasileiro, com participação do Instituto de Biociências da USP, mostra uma forte assimetria sexual na formação da nossa população. As linhagens paternas, o cromossomo Y, são predominantemente europeias, enquanto as linhagens maternas, o DNA mitocondrial, herdado das mães, carregam com muito mais força ancestralidade africana e indígena. Isso não é uma curiosidade biológica, é um registro histórico no corpo. Ele sugere que a miscigenação celebrada como marca identitária frequentemente ocorreu sob relações de poder desiguais. Em outras palavras, homens europeus em posição dominante, mulheres indígenas e africanas vulnerabilizadas por escravidão, coerção e violência sexual. O discurso bonito da mistura, aquela ideia de que “somos todos um só”, convive com um silêncio antigo sobre quem teve escolha e quem teve o próprio corpo convertido em território de conquista. A história da imigração no Brasil é, ao mesmo tempo, a história de chegadas e de exclusões, de promessas de futuro e de um passado que insiste em aparecer, até mesmo quando a gente tenta chamar de destino aquilo que, muitas vezes, foi imposição. 

Sei que agora traço meu rumo longe da minha terra natal, mas, assim como todos os imigrantes que trouxeram um pedaço de suas terras para o Brasil, carrego o Brasil comigo aqui na Suécia, orgulhosa de ser essa confluência de existências, de sons e silêncios, complexa e brutal, mas também bela em toda a sua diversidade. 

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