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#40DemoliçãoArteArtes Visuais

O Pântano

por Sofia Borges

Na busca de algo que eu pudesse enxergar sobrepondo-se às imagens, passei anos vagando neste pântano — o pântano da compreensão, da representação, da abstração.

Eu estava olhando para as coisas procurando por suas evidências. Continuei tentando entendê-las fisicamente, existentes, mas estavam todas cobertas com esta substância escura, molhada, pastosa — esta forma insolúvel: imagens, apre-sentando nada além de si mesmas.

Passei os últimos sete anos entrando intuitivamente em museus, zoológicos, centros de estudo. Continuei tentando entender semelhança, mimese, símbolo, representação. Eu sabia que esses conceitos se aplicavam a todos os objetos para os quais eu olhava, e minha intenção era aprender a distinguir a diferença entre mimese, significado, imagem e matéria. Paradoxalmente, eu buscava fazê-lo por intermédio da fotografia.

Depois de olhar por tanto tempo para as coisas tentando entender suas imagens, um dia me dei conta: o problema da imagem reside, de fato, no problema da realidade. A compreensão definitiva disso aconteceu não no interior de museus, mas pela experiência de entrar em antigas cavernas pré-históricas e fotografar suas paredes, ou as réplicas de suas paredes, no museus-cavernas, criados como mímeses de uma arquitetura arqueológica.

Observar a complexa estratificação do tempo e do significado sobre os desenhos e sobre as próprias formas daquelas cavernas me fez compreender melhor algo relacionado à visão: não podemos significar a realidade. E estamos tentando isso desde sempre.

Esculturas, desenhos, mapas, fotografias, esquemas, objetos, escritos, vestígios, fósseis, animais representando animais, rochas, rochas falsas, retratos de pessoas, pessoas posando para
retratos: um infinito de coisas explicando, representando, traduzindo, parecendo… outras coisas.

Tantos objetos distintos, e todas as superfícies igualmente espessas. Todas igualmente vazias e incrustadas com a mesma miríade de significados. Estou falando de imagens.

Após anos observando inúmeras coisas e após entrar naquelas cavernas sem nunca entender plenamente nada disso, percebi que o próprio ato de ver é vazio e abstrato. Imagem (formando-se no fundo do olho) é linguagem. Ver… não é evidente.

É somente a partir de uma experiência linguística de tradução (da visão abstrata para a compreensão representativa) que as imagens surgem como camadas cristalinas (eu quero dizer: transparentes) de significado, emergindo como água das profundezas desse escuro e espesso, o lamacento abstrato: o abstrato da compreensão.

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