
Amarello 55 — Imagem Brasil
Com capa do fotógrafo e artista visual Lucas Cordeiro, a Amarello lança sua edição de número 55 com o tema Imagem Brasil.
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Atento à cultura do politicamente correto, a qual eu acredito ser uma maré forte, que dificulta nos depararmos de fato com nossos preconceitos, perguntei ao Gean Pankararu, pouco antes de participar do ritual sagrado de seu território, como afinal eu deveria me referir a ele e a seu povo. Índio? Indígena?
Para a minha surpresa, ele me disse que eu deveria me referir a eles da maneira que bem entendesse, já que todos os nomes e nomenclaturas estão errados. Nomenclaturas essas, claro, dadas pelos portugueses quando chegaram aqui, pensando terem chegado na Índia.
O Brasil foi forjado através da violência de uma ação colonial de proporções gigantescas. Portugal deslocou 4,8 milhões de africanos para cá e tomou para si infinitas terras onde habitavam 1.400 povos indígenas diferentes, numa população estimada entre 2 e 5 milhões de nativos, falantes de centenas de línguas distintas.
Se somos feitos de muitas chegadas, afinal quem somos? Como nos enxergamos? A busca pela identidade brasileira é infinita. Ela faz parte da nossa identidade; ela nunca pode ser encontrada. Se um dia chegarmos a algum consenso, perdemos nossa identidade. O que foi chamado de descobrimento é um ato de força que encobre a origem traumática do que é hoje chamado Brasil.
O Brasil ainda é um cartão-postal. Uma imagem simplificada que encobre uma conjuntura histórica marcada por mentiras e invisibilidade. Talvez por isso o país pareça nunca realizar plenamente suas promessas. Falta-nos um sentido de comunidade, uma ideia compartilhada do que significa viver juntos.
O Brasil já deu certo.
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