
Navegadores: entre muralhas, oceanos e fantasmas coloniais
Em determinado momento de Navegadores: uma viagem através do Império perdido de Portugal, a escritora e antropóloga norueguesa Erika Fatland (de obras como A fronteira e Nas alturas: Uma viagem pelo Himalaia) observa um grupo de adolescentes marroquinos em Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Os jovens sonham atravessar o estreito de Gibraltar rumo à Europa. “Henrique, o Navegador, sonhava com a África. Os meninos sonhavam com a Europa”, escreve. A frase, no auge de sua simplicidade, talvez resuma o eixo central do livro: as rotas abertas pelo colonialismo continuam em movimento, mesmo séculos depois do fim das caravelas.

Fugindo das amarras de um mero relato de viagem, Navegadores é uma investigação sobre permanências. Ao longo de mais de 600 páginas, Fatland percorre antigos territórios ligados ao império português — Ceuta, Cabo Verde, Goa, Angola, Moçambique, Macau, Timor-Leste, Brasil —, tentando compreender o que restou de um dos primeiros projetos verdadeiramente globais da modernidade. A viagem, porém, não segue aquela típica, e tão repreensível, nostalgia marítima. O livro não transforma navegadores em heróis românticos e nem navegações em epopeia civilizatória. O oceano que atravessa a narrativa, com tanto sangue diluído, é também um arquivo de violência.
Logo nas primeiras páginas, em Ceuta, Fatland desmonta qualquer leitura triunfalista da expansão portuguesa. O famoso Portão do Califado, atravessado pelas tropas lusitanas em 1415, tido como símbolo de conquista, aqui se torna o início de uma engrenagem histórica impossível de controlar. “A história não é uma linha reta, mas um caos permanente”, escreve a autora ao narrar a tomada da cidade marroquina. O método narrativo é esse: ela joga luz sobre as contradições do império português, sobre todos os acidentes e as consequências inesperadas da expansão marítima.

Isso aparece inclusive na forma como ela trata Henrique, o Navegador, figura mitificada pela historiografia portuguesa, que surge no livro como um personagem humano qualquer, envolto em propaganda, obsessões religiosas e ambiguidades históricas. Nada daquele estrategista genial. Fatland questiona até mesmo a existência da célebre escola náutica de Sagres, frequentemente tratada como marco fundador das navegações. O que interessa ao livro é a fabricação das narrativas históricas em si, os meandros por trás da maneira como impérios inventam heróis, justificam conquistas e transformam violência em glória.
Em muitos países visitados pela autora, o colonialismo permanece como memória viva, embora assumindo formas diferentes. Em Angola e Moçambique, as marcas das guerras de independência e dos conflitos civis ainda estruturam parte da vida política contemporânea. Em Goa, o passado português convive com o turismo globalizado e com uma identidade híbrida. Em Macau, a herança lusitana sobrevive em placas de rua, instituições jurídicas e fachadas coloniais enquanto a cidade se integra cada vez mais à China continental. Já no Timor-Leste, o português funciona quase como instrumento político de reconstrução nacional.
E a língua é decerto o elemento mais intrigante de Navegadores. O português aparece tanto como herança colonial quanto espaço de pertencimento. E aquilo que sobrevive apesar da violência histórica ganha destaque: palavras incorporadas ao cotidiano, receitas, práticas religiosas, nomes próprios, sotaques. O idioma atravessa oceanos carregando uma bagagem enorme, portanto é impossível dissociá-lo da colonização, do tráfico escravista e da exploração econômica. Ainda assim, em muitos contextos, ele também se tornou ferramenta de identidade local.
Então, o livro se aproxima do Brasil. Fatland relembra como a colonização portuguesa transformou radicalmente o Atlântico Sul através da escravidão — como sabemos bem e, por vezes, escolhemos não lembrar. O oceano que conectava Lisboa, Luanda e Rio de Janeiro era também um corredor de mercadorias humanas, foi a partir desse circuito violento que o império português construiu parte significativa de sua riqueza. Ao mesmo tempo, foi essa circulação forçada que ajudou a criar parte da formação cultural brasileira, misturando línguas, crenças e tradições de maneira irreversível.
Navegadores também chama atenção pela dimensão física da viagem. Fatland pesquisa arquivos e visita cidades, mas vai além, atravessando oceanos em cargueiros contemporâneos e repetindo parte das antigas rotas marítimas. Esses trechos são ótimos para aproximar tempos históricos diferentes. A autora observa marinheiros filipinos cantando karaokê no meio do Atlântico enquanto pensa nas antigas tripulações portuguesas confinadas em caravelas precárias. O passado deixa de parecer tão distante. As rotas continuam existindo, embora agora transportem automóveis, contêineres e trabalhadores globalizados.

O que ressoa daí uma reflexão importante sobre a própria ideia de globalização. Muito antes da internet ou do capitalismo financeiro contemporâneo, as navegações portuguesas já haviam conectado continentes, reorganizado mercados e acelerado fluxos culturais numa escala inédita. O “mundo global” começa em parte nessas travessias marítimas. Mas Fatland insiste em lembrar que essa integração nunca foi neutra: ela nasceu baseada em hierarquias, violência militar e exploração econômica.
O colonialismo não pertence apenas ao passado, as estruturas criadas pelos impérios continuam organizando o presente, seja nas desigualdades econômicas, nos fluxos migratórios, nas fronteiras militarizadas e até nas línguas dominantes. Não por acaso, Ceuta, o ponto inicial da narrativa, permanece como território cercado por muros, patrulhas e disputas geopolíticas. Seis séculos depois da chegada portuguesa, a fronteira continua sendo uma máquina de separação.
Um registro híbrido entre reportagem, ensaio histórico e literatura de viagem. Há espaço para dados históricos detalhados, mas o tempero principal vem nas pequenas observações humanas que deslocam a narrativa. Um motorista, um guia turístico, marinheiros, refugiados e trabalhadores aparecem constantemente no livro, figuras que extirpam Navegadores da narrativa que já conhecemos.
Nessa recusa da monumentalidade, Erika Fatland mostra como o império permanece espalhado em fragmentos pelo mundo contemporâneo. O oceano, assim, não separa territórios, ele costura continuidades históricas que ainda estamos tentando compreender.
Assine: IMPRESSO + DIGITAL
São 03 edições impressas por ano, além de ter acesso exclusivo ao conteúdo digital do nosso site.
Assine a revista