
Conversa Polivox com Julia Mestre
Ela completou 30 anos em junho de 2026, tem três álbuns solos lançados, duas indicações ao Grammy Latino e venceu uma das edições do prêmio junto à sua antiga banda, Bala Desejo. Julia Mestre tem um rosto angelical, mas exala sensualidade. Sua voz é doce, mas sua postura revela uma personalidade inquieta, de quem tem uma fome voraz de engolir a vida. Não à toa, ela está sempre em movimento nos próprios clipes: corre pelo mato, acelera na estrada, foge do trabalho burocrático, mergulha ou destroça uma festa vestida de noiva.
Formada em artes cênicas, a artista carioca encontrou na música um lugar para reunir algumas de suas paixões: a atuação, a composição, o palco e a construção de imagens. Desde que começou a carreira solo, vem se tornando uma das vozes de sua geração e ampliando seu espaço na música brasileira, delineando um universo estético e simbólico próprio, que faz nostalgia e contemporaneidade dialogarem.
Agora, contratada por uma major da indústria musical, Julia se prepara para uma nova fase. Enquanto segue apresentando Maravilhosamente Bem, já escreve as músicas de um álbum previsto para 2027. Na entrevista a seguir, ela fala sobre as suas referências, a construção de sua identidade artística e o impacto do reconhecimento.

Pérola: Julia, sua música sempre parece dialogar com diferentes tempos. Há algo de retrô, mas também é muito contemporânea. Como você enxerga essa construção estética hoje, tanto na sua música como em relação a seus pares?
Julia: Isso que você trouxe é exatamente o ponto que eu pesquiso, porque tem o flerte com o passado, é uma linguagem nostálgica, mas o ponto essencial é contemporâneo, pertence aos dias de hoje.
Eu acho que essa pesquisa é de longo prazo, vem pela minha formação. Antes da música, eu sou atriz, a minha faculdade é de artes cênicas. E eu brinco muito — entre aspas — que sou uma atriz frustrada, porque não é a carreira que eu segui, muito menos tenho histórico em filmes, mas é onde está a minha base, onde comecei na arte.
Eu sinto que, quando comecei a caminhar para a música, porque sentia que tinha facilidade para compor e conseguir traduzir certos sentimentos através da música, eu quis trazer o ambiente visual para o meu trabalho. É a minha forma de compor, também, através de narrativas, às vezes de ficção, de personagens.
Sobre essa volta no tempo, acho que começou sendo uma pesquisa e, quando vi, me dominou. Hoje eu converso muito com o lugar da nostalgia para poder trazer esse resultado. Faço uma pesquisa de câmeras, que muitas vezes são realmente da época. E aí eu também sinto que tenho que fazer uma pesquisa maior com os figurinos, com os letterings que uso. Isso me desafia mais, e eu sinto que acaba ficando com uma linguagem mais amarrada. Hoje, quando eu vejo, já trago sempre para esse lugar nostálgico, porque sinto que conecta a Julia Mestre, a artista, e, quando eu vejo, já estou 100% dentro desse universo.
Ao longo da sua trajetória, quais referências musicais — mas não só musicais — foram estruturantes para sua identidade como artista?
Bom, são muitas referências, né? Sempre existe primeiro esse impacto de ver, de se sentir seduzido por aquilo, e aí a gente vê o que a gente quer fazer, né? Eu acho que começa na infância. Eu já me sentia muito conectada quando ia num show ou quando via um filme. Eu gostava muito de ver musicais, era apaixonada por todo esse repertório. Chicago, Mamma Mia, Moulin Rouge eram meus filmes favoritos. Quando eu era criança, escolhia esses filmes porque eles me deixavam cada vez mais apaixonada, acho que por essa mistura da música com o cinema.
Mais tarde, eu fui me apaixonando por essa atitude mais do palco, do ao vivo. Eu tenho essas referências que são mais óbvias, de que eu falo muito, que é a Rita Lee, que é a Marina Lima, que flertam muito com o meu trabalho. E eu sempre me encantei muito por ver mulheres tocando no palco. Sempre me instiguei mais quando via uma figura feminina tocando. Esperanza Spalding é uma super referência pra mim; Tash Sultana, multi-instrumentista australiana, eu gosto pra caramba; e de MARO, que é uma cantora portuguesa.
Eu entro, às vezes, em hiperfocos, como na pandemia, em que teve um momento em que eu passei a só ver shows, era uma coisa que eu gostava muito de fazer. E eu buscava vídeos no YouTube de artistas femininas. Acho que sempre fui uma pessoa muito curiosa e muito apaixonada pela arte. Eu realmente me inspiro assistindo a muitos shows, vendo muitas mulheres. Elas me fortalecem. Mais do que qualquer outro lugar de comparação, é uma coisa que realmente me bota para cima quando vejo outras mulheres no palco.
E você tem um instrumento preferido? Tem um clipe seu com uma cena simbólica em que você recebe uma guitarra, mas eu me lembro mais de você com o baixo.
Sim, é que é meu instrumento.
Você tem um preferido? Como que flui a sua relação com eles?
Gosto muito dos dois, mas, recentemente, a minha paixão tem sido o baixo, e é o que eu estudo. A guitarra já é de longo prazo, porque eu toco violão desde pequena.
Quando eu tinha 16 anos, fiz uma viagem entre amigos e lembro que uma noite teve uma rodinha de violão, aquele momento bem de adolescente de beijinhos e tal, e eu lembro que todo mundo era meio a fim do menino que tocava violão. Só que eu não me apaixonei por ele, eu me apaixonei pelo violão dele. No final da viagem, perguntei se ele estudava, onde estudava, quem era a pessoa que ensinava, se podia me passar o número. Então, em vez de pegar o número dele, eu peguei o número da professora. Foi aí que eu tive meu primeiro contato com o violão.
E eu acho que, quando a gente toca um instrumento, a gente tem independência, a gente consegue mostrar o nosso som e pode defender o que a gente acredita. Essa é a minha maior dica, estudar um instrumento, ter relação com ele, se conectar com a música, pra que, quando a gente for defender a nossa arte, a gente possa defender sozinha, sabe? Eu sinto que ele sempre me dá uma independência. Me sinto empoderada quando tenho um violão ou outro instrumento na mão.
Desculpa insistir, mas só para eu tentar entender um pouco da cabeça da Julia Mestre: por que, na hora que você terminou a escola, você foi fazer artes cênicas?
Sempre foi muito óbvio para mim que a arte era a minha direção. Pode não parecer, mas eu sou uma pessoa muito tímida. Às vezes, era especialmente tímida quando mais jovem. E acontecia essa controvérsia. Quando eu subia no palco, eu me sentia uma pessoa espontânea, que tinha facilidade para aquilo, mas, às vezes, fora do palco, eu era uma pessoa mais introvertida, às vezes com dificuldade de fala. E eu vi que, quando eu tinha essa conexão com a arte, eu conseguia me expressar. Quando eu estava no palco, sentia que eu conseguia ser uma pessoa engraçada, divertida. Então, acho que, desde criança, eu já tinha esses sinais de que aquele era o meu lugar.
O seu trabalho hoje expressa muito essa relação entre o som, a imagem, a narrativa, a atuação. O roteiro do Maravilhosamente Bem também é totalmente seu. Foi uma historinha que você criou na sua cabeça e falou: “vou montar isso”? Queria entender como você pensa essa relação entre as linguagens e como você emerge em cada processo. Como você faz para tudo ficar muito amarradinho, do seu jeito, quando entram os colaboradores?
Por mais que eu tenha a ideia criativa e de ser uma pessoa que gosta muito de dar as ideias, sempre acredito muito no trabalho em equipe, me conecto com pessoas que vibram nessa mesma energia, nessa mesma identidade. Quando falam que meus visuais têm sempre uma filtragem analógica, que parece que vêm de uma outra época, é porque eu encontro pessoas que também trabalham com essa linguagem.
Em Maravilhosamente Bem, eu fiz esse trabalho junto com o Gabriel Galvani, que dirigiu os clipes, e a gente pensou nessa ideia conjuntamente. Falei para ele que eu queria que cada música fosse um filme e um personagem diferente. E eu sinto que, no show, eu também tenho feito essa pesquisa bastante visual.
Agora, no Maravilhosamente Bem, atrás de mim fica o que eu chamo de portal, que é uma bola grande, e ela trabalha como se fosse um teatro de sombras, a gente trabalha muito com contraluz. E aí o espetáculo fica interessante, porque, junto com um estudo de partitura corporal, eu tento trazer uma narrativa também para as músicas. E eu acho que essa tem sido a minha pesquisa, misturar música com teatralidade.
Você já viveu o reconhecimento de um Grammy Latino com a Bala Desejo e, mais recentemente, recebeu duas indicações solo por Maravilhosamente Bem. O que mudou na sua carreira e na sua relação com o trabalho depois dessas experiências?
Eu acho que o amadurecimento de ver onde o seu sonho pode chegar. Às vezes, a gente acha que o sonho vai até aqui e, quando a gente vê, ele chega num prêmio gigantesco da música da América Latina. Ele foi maior do que o meu sonho podia chegar. Mas, num outro ponto, vem também a responsabilidade. Quanto maior o alcance da sua carreira, também vêm as cobranças da gente querer sempre trazer algo que seja tão impactante quanto, ou que a gente consiga entregar excelência.
Mas eu tento trazer esse tema com muita leveza, porque a gente também não pode se deixar cair nessa história, porque, afinal, é a nossa arte. Claro, eu acho que esse amadurecimento também vem com essa minha necessidade de aperfeiçoamento, de querer sempre trazer uma versão melhor, mais atualizada. Mas o futuro é um mistério, né? E eu não sei o que o futuro reserva pra mim. Já sou muito grata pelo que essa estrada tem me proporcionado, pelos encontros que tenho feito, pelos lugares que tenho visitado e pelas experiências de palco, de trajetória, de discos.
Você falou duas coisas que eu já queria perguntar. A primeira é sobre a cobrança. Existe uma tensão, para você, entre essa expectativa externa e a liberdade criativa, principalmente por ser uma artista da Universal agora? A segunda é que as discussões que eu vejo sobre música hoje estão muito influenciadas por essa questão dos fãs, da criação de comunidade e de como eles direcionam, mesmo, a evolução do mercado. Como você lida com isso na prática?
Começando pela gravadora: essa tem sido a minha recente novidade, eu estar agora numa grande gravadora da música, que é a Universal. Eu acho que, se eu falasse com a Julia do passado, até de um ano atrás, eu não imaginaria onde estaria agora. Mas sinto que a trajetória vai surpreendendo a gente. A apresentação do Grammy Latino foi um divisor de águas na minha carreira, por ter realmente me apresentado ao mercado musical. Foi uma grande oportunidade estar num palco onde todo mundo pudesse assistir a um pouquinho do meu trabalho e dar uma provinha de Julia Mestre para o mundo.
Essa pesquisa que tenho feito com o teatro de sombras se firmou quando fui convidada para cantar nesse palco do Grammy Latino. Fui ousada e pedi para manter a mesma assinatura do meu show. Tive reuniões com a equipe do palco para explicar meu projeto de luz e desenhar a apresentação. Quando disse que queria trabalhar com luz contra, a diretora de palco perguntou: “Como é que você, no maior palco da sua vida, quer apagar a luz da frente e trabalhar com luz contra?”. E eu respondi: “É que faz todo sentido. Essa é a minha assinatura, eu preciso mostrar esse trabalho”. No ensaio, um dia antes da apresentação, todo mundo ficou muito eufórico, porque havia ali uma personalidade muito forte.
Acho que, no final, é sobre acreditar nos seus símbolos, porque eles vão se aproximando cada vez mais da sua identidade. E sinto que foi também por eu sempre insistir na minha personalidade e na minha linguagem que a gravadora se encantou por mim. Então acredito que vou continuar sendo a criativa do projeto, como quem já me conhece do trabalho independente.
Você tem essa verve da pessoa que faz a direção criativa e tudo mais.
Sim, e tem sido muito divertido, porque, às vezes, quando a gente aposta nos símbolos, demora um tempo para as pessoas processarem. E eu sinto que, nesses últimos meses, tem sido muito legal, porque eu vejo que os fãs estão muito conectados com a linguagem do Maravilhosamente Bem. Eu vejo muitas meninas de franjinha e pessoas com estrelas, porque são símbolos que eu trouxe. Ou estão de gravata indo para o show. Isso é muito legal, porque eu sinto que o trabalho tem chegado e se comunicado com as pessoas.
Você falou sobre estar em vários palcos, com públicos diferentes, e Maravilhosamente Bem fez um ano de lançado em maio. Foram dois anos entre ele e o Arrepiada, que eu acho que é um tempo razoável para o artista criar, circular, fazer todos os processos que um disco traz. Você circulou bastante, e este ano ainda vai levar ele pra muitos lugares. Conta um pouco dessa experiência.
Isso é uma das coisas mais incríveis, né? O meu ofício me proporciona essa experiência de viajar por muitos lugares, de ter que levar minha música até a cidade das pessoas. Eu vou viajando e levando meu show, as minhas músicas, mas eu também volto pra casa carregada de memórias. E eu acho que o mais legal também é, na música, poder conhecer novas pessoas, tanto o público, os fãs, quanto os amigos que você faz na estrada. E, outras vezes, estar em festivais é dividir o palco com artistas que você admira e poder ter aquela proximidade de conversar com alguém de quem você é fã. Eu também me vejo sendo fã.
Olhando para a sua discografia, o que você sente que fica como fio condutor entre os discos, independentemente das mudanças de fase ou do que acontece entre eles?
Não é só um fio condutor que liga um ao outro. Acho que a narrativa de empoderar, de me empoderar, com outras mulheres, com a minha música. Tanto que o Geminis é o meu primeiro álbum, e a canção se chama Mudar o mundo.
O Arrepiada já é um disco um pouco mais rebelde, ele tem mais esse punch. E talvez seja a minha fase mais adolescente, de gritar pro mundo. Passarinha, da Bala Desejo, é uma música que fala isso: se eu tenho as minhas asinhas, não corta. E aí vem para o Maravilhosamente Bem, que é essa celebração sobre colocar a sua felicidade em primeiro lugar, e isso não se discute. Acreditar nesse amor e nessa vontade de querer contagiar. Eu acho que esse talvez seja o meu fio condutor.
Você acha que também existe, no seu trabalho, uma liberdade de expressão do desejo feminino? Rita Lee e Marina Lima foram importantes por falarem abertamente sobre isso num contexto em que era ainda mais raro do que é hoje, e são suas referências.
Sim, exatamente. Acho que elas me ensinaram muito. Eu peguei a canetinha, o papel e realmente tive essas palestras aí da Marina, como elas também ensinaram muitas mulheres a se empoderar, a se colocar em primeiro lugar.
E, depois do disco, você lançou o single Afim de Verão. Fala um pouquinho dele e do que ele representa em relação a uma possível nova fase do seu trabalho.
Afim de verão vai fazer parte já do próximo álbum. Ele não necessariamente aponta uma estética, mas já mostra um novo estudo de como eu venho querendo também sempre mudar o que já estou mostrando. Como em Maravilhosamente Bem, eu entrei em muitos personagens e vesti muitas personas. Com Afim de Verão, no clipe, pelo menos, eu tentei me despir um pouco dessas armaduras, dessas máscaras que eu também uso para me proteger, e tentei mostrar um pouco mais da Julia, quem eu sou com menos maquiagem, me mostrar um pouco mais leve.
Você mencionou esse novo álbum algumas vezes. Você já está em que fase dele?
Já tenho algumas músicas escritas. É um álbum que vai para 2027, mas eu acho que 2026 ainda prepara mais uma surpresa para o fim do ano. Nos palcos, acho que eu vou continuar com Maravilhosamente Bem, mas, na coxia, já estou falando um pouco da próxima fase.
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