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#56O que está acontecendo?CrônicaLiteratura

Afinal, as coisas estão melhorando ou piorando?

por Leticia Pinheiro Lima

Neste momento, é difícil não sentir que a maionese está desandando. Basta abrir as notícias, e as manchetes são avassaladoras. Guerras se alastrando, democracias enfraquecendo, enchentes, incêndios e terremotos, inflação subindo, doenças retornando, instituições falhando, um cenário geopolítico instável, corrupção e polarização. O pessimismo tornou-se não apenas um estado de espírito, mas quase uma forma de sofisticação. Ter esperança pode soar ingênuo, e o pessimismo, sinal de conhecimento, de estar a par da situação.

Os pessimistas estão certos.

Mas também errados.

Eles estão certos quanto ao perigo. Em 2025, um relatório do Instituto de Pesquisa pela Paz de Oslo registrou 65 conflitos armados envolvendo Estados nacionais, o maior número desde a Segunda Guerra Mundial. A Freedom House informou que a liberdade global diminuiu, em 2025, pelo vigésimo ano consecutivo, com pioras globais em indicadores como liberdade de imprensa, devidos processos legais e liberdade de expressão. Mais países apresentaram retrocessos do que avanços, e os regimes autocráticos aumentaram. A ansiedade climática tampouco é histeria. A última década foi a mais quente já registrada, e os sinais físicos do aquecimento já são visíveis hoje, e não apenas como cenários futuros.

O pessimismo não é à toa. Ele tem fundamento. Porém, apresenta um retrato incompleto.

Se nos afastarmos do ciclo diário de notícias e observarmos alguns marcadores ao longo de décadas, surgem dados mais animadores. Em 1990, a taxa global de mortalidade de crianças abaixo dos cinco anos era de 93,5 mortes por mil nascidos vivos. Em 2024, havia caído para 37,4, uma redução de cerca de 60%. Isso significa que milhões de crianças estão vivas hoje graças às vacinas, à melhoria da nutrição, aos antibióticos, ao combate à malária, a partos mais seguros e a medidas básicas de saúde pública — mesmo que ainda haja muito a ser feito para diminuir essa taxa.

O mesmo arco pode ser observado em termos da pobreza. Em 1990, aproximadamente 38% da humanidade vivia em situação de pobreza extrema. Hoje, o Banco Mundial estima que esse número esteja em cerca de 8,5%. Isso ainda representa um enorme fracasso moral, com quase 700 milhões de pessoas, mas a transformação histórica é profunda. Em uma geração, a pobreza extrema deixou de ser a condição de uma parcela significativa da humanidade e tornou-se uma crise mais concentrada e, portanto, mais passível de solução.

Há boas notícias para meninas e mulheres também. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, a desigualdade global de gênero diminuiu para 68,8%, impulsionada por avanços econômicos e políticos. Isso se deve em parte à melhora na educação. O Relatório de Monitoramento Global da Educação da Unesco revelou que, desde 2015, mais de 50 milhões de meninas foram matriculadas em escolas em todo o mundo. Além disso, há hoje cinco milhões a mais de meninas concluindo cada etapa da educação, do ensino primário ao ensino secundário superior. Além disso, o empoderamento político feminino apresentou maior melhora geral, com

a diferença diminuindo em 9,0 pontos percentuais globais desde 2006, e a participação e as oportunidades econômicas aumentaram 5,6 pontos percentuais ao longo do tempo.

Em contrapartida, 122 milhões de meninas continuam fora da escola, a maioria delas na África Subsaariana, onde pobreza, religião e práticas culturais, assim como falta de segurança ou de produtos menstruais, inibem a participação de meninas na escola. No Afeganistão, a exclusão em massa das meninas do sistema educacional significa que 60% delas não frequentam o ensino primário, e que 74% não frequentam o ensino secundário inferior, em um caso extremo de discriminação por gênero.

A discriminação por gênero tem um lado ainda mais violento. No Brasil, os casos registrados de feminicídio estão crescendo. Em 2025, 1.568 mulheres foram assassinadas em razão de seu gênero, o maior número já registrado no país. Além disso, os direitos reprodutivos das mulheres sofrem, no momento, um retrocesso global, alertam especialistas internacionais e a ONU, impulsionado pela ascensão de grupos conservadores, como o fenômeno cultural da “machosfera”, e pelas reformas restritivas.

É por isso que a pergunta “as coisas estão melhorando ou piorando?” é simples e um pouco insensata. A resposta é que estão melhorando e piorando, dependendo da escala de tempo e do tema analisado. Nos tornamos mais eficazes em manter as pessoas vivas, alimentar crianças, educar meninas, prevenir doenças e responder a desastres. O número de mortes provocadas por catástrofes naturais é muito menor do que foi durante grande parte do século 20 em parte graças aos sistemas de alerta, à infraestrutura e às respostas de emergência. Mas também enfrentamos o aumento dos conflitos, a erosão democrática, a instabilidade climática e uma desaceleração na redução da pobreza e nos direitos reprodutivos das mulheres. A desigualdade entre países está diminuindo, porém, aumentou internamente. Hoje, os 10% mais ricos retêm 75% da riqueza global. No Brasil, os 10% mais ricos ficaram mais ricos em 8,7%, enquanto os 40% mais pobres viram um aumento de apenas 3,7% de renda. Mesmo assim, a renda dos 40% com menores rendimentos atingiu nível recorde em 2025. Na comparação com 2019, houve aumento de 37,6% na média nacional.

O perigo é que, tomados separadamente, cada lado desse debate nos induz a uma falácia diferente. O otimismo pode transformar-se em complacência, na sensação de que estamos passando apenas por uma fase ruim e que as coisas tendem a melhorar. O pessimismo pode se transformar em amnésia, nos fazendo esquecer o trabalho e o esforço que gerou os avanços que temos hoje.

O que precisamos não é de despreocupação, tampouco de desespero, mas de sobriedade. O progresso não é uma lei da natureza. Ele foi construído por instituições, movimentos, ciência, políticas públicas e lutas políticas. Pode estagnar. Pode ser revertido. Mas, justamente porque foi construído, também pode ser defendido e ampliado. Talvez a frase mais útil para o nosso tempo seja: o mundo não é tão bom quanto deveria ser, mas é melhor do que acreditamos. É nossa responsabilidade continuarmos atentos, tentarmos corrigir os retrocessos e lutarmos pelos avanços.

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