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#56O que está acontecendo?Sociedade

A virada do feminismo: uma conversa com Vera Iaconelli

por Revista Amarello
Do direito de ocupar o mundo à recusa de carregá-lo nas costas

A ideia da família tradicional sempre foi sustentada pelo mito fundador — tão conveniente a alguns — que diz que o homem trabalha fora para sustentar a casa e que a mulher cuida da família por puro amor. Na verdade, é importante dizer, as mulheres nunca deixaram de trabalhar. Elas sempre estiveram nas lavouras, nas fábricas ou em bicos informais, quase sempre com vergonha de ganhar o próprio dinheiro. No entanto, enquanto o mercado abriu as portas e a rotina de trabalho virou cada vez mais normal para a população feminina, a ideia de maternidade e a responsabilidade pelo lar continuaram iguais às do século passado. Nesse ponto é que a conta fica pesada demais: trabalhar o dia inteiro fora e ainda continuar sendo a maior responsável por cuidar da casa, dos filhos e de tudo ao redor. A virada do feminismo atual nasce desse nó. A questão já não é só ocupar os espaços dos homens, mas também expor que as mulheres não aguentam mais carregar o fardo do cuidado sozinhas. 

 Quando o feminismo ganha tração, na segunda metade do século 20, e se consolida como uma busca por igualdade no mercado de trabalho, a conquista de espaços de prestígio e o topo das carreiras tornam-se pautas legítimas e fundamentais. Porém, em sua gênese, o feminismo surge na ordem da necessidade. Antes de ser uma formulação teórica, o movimento feminista foi a resposta emergencial a condições degradantes e sufocantes de existência. Foi a reação a um ecossistema que negava às mulheres desde direitos políticos básicos até a própria sobrevivência em ambientes industriais e domésticos insalubres. 

 À medida que esse processo de emancipação avançava, a conquista de territórios originalmente masculinos impôs uma transformação complexa ao próprio feminismo. Para ocupar o mundo público e provar valor em uma estrutura desenhada por e para homens, o conhecimento e as tecnologias associadas ao universo do cuidado foram, em larga medida, desqualificados. O feminismo daquela geração concentrou-se em assimilar as lógicas do desempenho e da autonomia profissional, deixando a reprodução da vida diária entregue ao esforço privado. 

Assiste-se agora a uma guinada nessa trajetória. A tentativa de emular a rotina masculina deu lugar à exigência de colocar o trabalho do cuidado no centro da política e da economia. Como a economia enxerga esse trabalho hoje? Da enfermagem ao ensino infantil, passando pelo trabalho doméstico, a remuneração continua baixa — prova de que a sociedade aprendeu a desvalorizá-lo. Logo, a transformação feminista em curso não propõe uma simples troca de posições com os homens, mas a exigência de que a responsabilidade por manter a vida funcionando seja dividida por igual. O afeto não deixou de importar, mas a prioridade atual é definir quem realmente arca com o peso dessa engrenagem. 

Disso nasce um impasse que se manifesta especialmente na maternidade, em que as promessas de realização pessoal entram em choque direto com a realidade prática. Com o arranjo social abrindo portas para que a mulher desempenhe uma jornada profissional plena e, ao mesmo tempo, continue assumindo de forma quase exclusiva a gestão doméstica e a criação dos filhos, o cotidiano se torna insustentável. Estudos recentes mostram que mulheres casadas relatam níveis de satisfação e bem-estar inferiores aos de mulheres solteiras e sem filhos, enquanto o inverso favorece amplamente os homens. E é fácil entender o porquê: o parceiro muitas vezes preserva o privilégio de desfrutar da paternidade sem absorver o desgaste da rotina. Diante desse descompasso, em que a responsabilidade por cada detalhe recai sobre ombros femininos, ganha muita força a recusa em ter filhos nos moldes em que a maternidade continua sendo vendida. 

 Essa “greve do útero” reflete a essência da transformação contemporânea. A escolha, obviamente, transborda o debate feminista e pode refletir um desânimo generalizado com o futuro, em que o colapso ambiental e a instabilidade política se fazem presentes. Ainda assim, a indisposição contra o modelo sufocante da maternidade permanece no centro de tudo. A questão ganha complexidade porque diferentes realidades se cruzam: há mulheres que desejam ser mães, mas adiam o plano por falta de suporte e condições materiais; há as que cedem à pressão social; as que recusam a maternidade por completo; e as que a exercem sem romantismos. Se, em décadas passadas, criticar o mito do instinto materno provocava escândalo, hoje as contradições da criação circulam abertamente, evidenciando o esgotamento de um modelo secular. 

 Sempre atento, o mercado logo identifica essa hesitação estrutural e é ágil em capturar as angústias geradas pelas novas configurações do feminismo. A indústria médica e farmacêutica passa, então, a comercializar a promessa da maternidade medicamente assistida como uma solução técnica para um dilema político e social. O congelamento de óvulos e o adiamento da gravidez são vendidos sob a ilusão de que a biologia pode ser dobrada pela tecnologia sem custos físicos, financeiros ou emocionais. A promessa de um “tempo estendido” transforma o desejo de maternidade em um produto de consumo de alto custo, o que gera novos dilemas éticos sobre embriões e procedimentos invasivos sem resolver a questão da ausência de uma rede real de apoio para criar uma criança. 

Paralelamente a esse mercado, cresce uma reação neoconservadora que tenta frear os avanços feministas romantizando a vida doméstica. É o caso do fenômeno das tradwives, as “esposas tradicionais”, que usam as redes para exaltar uma rotina dedicada apenas ao lar e ao marido. Em vídeos com luz suave e estética impecável, lavar a louça ou assar um pão artesanal aparecem como o ápice da paz feminina. Mas há uma ironia inescapável aí: essa suposta “volta às origens” só existe porque virou trabalho remunerado. Para convencer outras mulheres a abandonarem a carreira, elas produzem e negociam patrocínios como qualquer criadora de conteúdo. Ou seja, a nostalgia do lar tradicional virou mais uma mercadoria lucrativa da internet. 

No outro extremo, na faixa liberal, a conquista da autonomia, da liberdade real de escolher o próprio caminho, acabou capturada pela lógica da performance. O mercado não vende apenas o direito de decidir, é ardiloso ao vender, no mesmo pacote, a ilusão de que é possível ter tudo ao mesmo tempo. Ferramentas como o congelamento de óvulos ou o trabalho remoto, que surgiram para dar respiro e flexibilidade, viraram rapidamente novas cobranças. A mensagem velada que se ouve hoje é a de que a mulher precisa ser impecável em todas as frentes: ter uma carreira brilhante, manter o corpo em dia, aproveitar a vida de solteira e, ainda assim, deixar a maternidade engatilhada para o momento perfeito. 

 O problema é que a cultura da performance tenta apagar uma regra elementar da vida: escolher um caminho exige deixar outro para trás. Ao vender a ilusão de que a tecnologia, o consumo ou a disciplina pessoal podem fazer a mulher estar em dois lugares ao mesmo tempo, o mercado transforma a própria autonomia, que deveria ser libertadora, em um fardo de exigências sobrepostas. A mulher não se sente livre; sente que está devendo em todas as frentes. O resultado dessa promessa falsa é um cansaço permanente, em que o próprio desejo acaba sufocado pela obrigação de performar. 

 Enquanto a classe média se prende a esses dilemas, a transformação mais real do feminismo ganha corpo na periferia. Quando o Estado não aparece e a presença masculina falha, a vida diária exige soluções imediatas, e as mulheres acabam criando suas próprias pontes. É a vizinha que olha as crianças para a outra conseguir trabalhar, a cozinha comunitária que garante o jantar do bairro, o apoio que chega no momento do aperto.  

 Essa política do cotidiano nasce do afeto e da urgência prática de manter a comunidade de pé, e é, talvez, a resposta mais contundente, pois essa vivência cria um chão firme para o movimento, capaz de aproximações reais entre histórias muito diferentes. Os próximos passos do feminismo parecem depender de parar de exigir que cada mulher resolva seus problemas sozinha, usando essa força coletiva para cobrar leis, serviços públicos e estruturas de amparo que sustentem a vida de verdade. Esse é o caminho para aliviar os ombros de cada uma e assumir o cuidado como responsabilidade coletiva. 

 A maturidade do feminismo hoje exige desmontar a ilusão de que as mulheres precisam dar conta de tudo. Nenhuma sociedade pautada no afeto e no tempo humano vai nascer do esgotamento diário ou das saídas fáceis prontas para consumo. Encarar a vida como ela é, sabendo que abraçar um caminho significa inevitavelmente se despedir de outros, não tem nada a ver com conformismo.

Só assim será possível quebrar a tirania das expectativas e resgatar o direito de desejar de verdade. 


Vera Iaconelli é psicanalista, escritora e doutora em Psicologia pela USP. Atua na clínica e no debate público sobre maternidade, relações familiares e questões contemporâneas. É autora de O mal-estar na maternidade, Felicidade ordinária e Análise, entre outras obras. 

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