
As cidades nunca foram neutras: Zaida Muxí sobre ser mulher no espaço urbano
Referência nos estudos sobre gênero e cidade, a arquiteta e urbanista Zaida Muxí fala sobre cuidado, cotidiano e as diferentes experiências que precisam ser consideradas na construção do espaço em que vivemos.
Em Mulheres, Casas e Cidades, durante o processo de pesquisa, como você lidou com o fato de que muitas dessas trajetórias chegam até nós de forma fragmentada, mediada ou até distorcida por estruturas que já as invisibilizavam? Em que medida isso influenciou suas escolhas metodológicas e narrativas, e como você equilibrou a necessidade de reconstruir essas histórias com o risco de, involuntariamente, projetar sobre elas uma coerência ou intenção que talvez não estivesse registrada?
Zaida Muxí: Quando comecei a pesquisar, em 2002, eu não sabia que o resultado seria um livro. Minha pergunta era onde estavam as arquitetas, mas naquele momento chegar até elas era muito difícil. A internet não tinha tanta informação e não existia sequer a categoria “arquitetas” em uma biblioteca. Minha primeira referência de que era possível escrever uma história diferente da arquitetura foi Dolores Hayden e seus livros.
Comecei buscando sobre mulheres em geral e sobre atividades atribuídas a elas pelo gênero, como questões relacionadas à casa e à família. Paralelamente, a leitura e o contato com os feminismos me revelaram que é possível e necessário escrever, reescrever a história, assim como os critérios que usamos para avaliar obras e trajetórias. O livro se baseia em uma seleção de mulheres que contribuíram para o habitat sem deixar de lado sua experiência como mulheres.
Como você definiria, hoje, uma cidade pensada a partir da experiência cotidiana, e não apenas do planejamento técnico?
ZM: Mais do que definir uma cidade, trata-se de definir para quê e para quem fazemos as cidades. Trata-se de tornar visíveis as tarefas de cuidado que historicamente foram invisibilizadas, desvalorizadas e atribuídas às mulheres. A cidade moderna e contemporânea busca sobretudo o benefício econômico, sem considerar as diferentes necessidades e, evidentemente, as classes sociais. A cidade é mais uma expressão do extrativismo capitalista e neoliberal, pois se baseia em extrair benefícios às custas de corpos e da natureza invisibilizados.
Para fazer ou refazer cidades, é preciso colocar no centro as necessidades de sustentação da vida e considerá-las como parte imprescindível da pergunta sobre que cidade, para quê e para quem. Fazer cidades habitáveis, caminháveis, com presença da natureza.
Como evitar que o urbanismo de gênero se torne apenas uma categoria teórica, sem impacto real nos projetos?
ZM: Depende da formação das pessoas profissionais e também das lideranças políticas, ao mesmo tempo em que é necessário que a sociedade compreenda isso com clareza e pressione para que as mudanças sejam realizadas levando em conta a perspectiva de gênero.
Quais práticas contemporâneas mais te interessam hoje na tentativa de reconfigurar o habitar?
ZM: São muitas as práticas que me interessam: desde a reflexão coletiva e feminista do Col·lectiu Punt 6 e Equal Saree, em Barcelona; as práticas com foco real na responsabilidade ambiental, como o Land Lab, também em Barcelona; as práticas comunitárias e cooperativas em geral, que propõem trabalhos colaborativos com a sociedade, repensando as formas de construir e com o que construir, como Lacol e CelObert, em Barcelona, Cooperación Comunitaria, no México, e Proyecto Habitar, na Argentina. Tenho muito interesse nas práticas do coletivo Kopa, no Rio Grande do Sul, de Ester Carro, em São Paulo, no trabalho da Casa Cidade pela interseccionalidade com que enfrentam seus projetos, também em São Paulo, e em Gloria Cabral, a partir de Laguna, Santa Catarina.
Também me interessam práticas consideradas mais tradicionais, mas que vêm abrindo caminho para outras formas de colaboração e de enfrentar os projetos, como o Taller de Gabriela Carrillo, C733, Tatiana Bilbao Estudio e Elena Tudela, do Taller ORU, todas no México.
Como o tempo aparece como elemento central na discussão sobre arquitetura e gênero?
ZM: O tempo, a partir da experiência do gênero feminino, não é linear; é um tempo sobreposto.
Em algum momento a pesquisa te levou a rever ideias que você já tinha sobre arquitetura e urbanismo?
ZM: Minhas ideias foram sendo modificadas e remodeladas; elas se recompõem continuamente.
Como pensar cidades mais justas sem cair em soluções universalizantes?
ZM: É possível aprender, e deve-se aprender, com o que é feito em outros lugares, o que não significa copiar resultados, mas entender as complexidades, os problemas, as pessoas e os processos por trás de cada solução. Cada projeto, cada melhoria urbana, precisa estar enraizado nas necessidades reais de um lugar, levando em conta uma perspectiva de gênero interseccional, ou seja, experiências situadas que não foram, e ainda não são, consideradas na tomada de decisões tradicionais.
Ao mesmo tempo, deve incorporar algumas diretrizes gerais: buscar uma mobilidade justa e sustentável, criar bairros caminháveis e seguros, propor a incorporação e recuperação da natureza, transformar áreas monofuncionais em áreas mistas. Cada projeto, por menor que seja, precisa somar passos positivos na direção de uma cidade justa. Não “mais justa”, porque as cidades não o são.
Há temas que se tornaram mais urgentes desde a publicação do livro?
ZM: Evidentemente, de 2018 até agora, o mundo piorou, tanto pela insegurança decorrente das guerras quanto pela crise climática. Não sei se ficou mais urgente, mas continua sendo necessário escrever e projetar tendo as mulheres como protagonistas.
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