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Série Envolvimento, de Wanda Pimentel (1968). Foto de Paulo Scheuenstuhl. Todos os direitos reservados aos autores.
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Quem desenha a vida que se vive? Mulheres, casas e cidades

por Revista Amarello
Em “Mulheres, Casas e Cidades”, Zaida Muxí questiona a suposta neutralidade do espaço e mostra como arquitetura e urbanismo refletem e também produzem desigualdades.

O que define a vida nas cidades raramente está nos grandes gestos individuais. Está nas coisas “menores” que batem em conjunto, no tempo entre sair de casa e chegar ao trabalho, na facilidade de atravessar uma rua, na forma como os ambientes se conectam dentro de um apartamento, na possibilidade de circular com uma criança, de cuidar de alguém, de simplesmente encontrar um lugar onde permanecer. São aspectos que podem até passar despercebidos por quem vê de fora, mas é neles que a experiência urbana se organiza de fato. Quando observados com mais atenção, esses detalhes revelam que o espaço não é apenas um cenário bonito, ou feio, de se ver. Antes de ser forma, é uma espécie de coreografia que orienta o que pode ou não acontecer.

Em Mulheres, Casas e Cidades, Zaida Muxí, arquiteta e urbanista argentina radicada em Barcelona e referência nos estudos sobre gênero e cidade, se aproxima dessa coreografia por um ângulo pouco explorado pela narrativa tradicional da arquitetura. Em vez de partir dos grandes marcos ou de uma sucessão de obras consagradas, o livro publicado em 2024 pela Editora Olhares se constrói a partir de experiências que durante muito tempo ficaram à margem, não tomando-as como exceção, mas como parte constitutiva de como as cidades foram pensadas e vividas.

Mulheres, casas e cidades, de Zaida Muxí Martínez. Editora Olhares.

A pergunta que perpassa a obra pode até não aparecer de forma direta o tempo todo, mas é ela que organiza o percurso da leitura: o que muda quando se observa o espaço com os olhos de quem historicamente não foi considerado sujeito central daquele projeto?

“Em casos excepcionais, uma casa foi e é reconhecida como peça autoral e de prestígio, desde que tenha sido assinada por um arquiteto. Possivelmente considera-se que o homem alheio à domesticidade pode transformar algo cotidiano e banal em obra de arte, respondendo a partir do conhecimento dessa realidade com a monumentalidade adequada, sem se importar com como realmente aquele espaço é habitado ou simplesmente reproduzindo o espaço de controle conhecido. A moradia é ao mesmo tempo reflexo e pauta de normas. (…) A construção do ‘lar doce lar’ ou da moradia como lugar de descanso e do privado revela que foi levada em conta exclusivamente a experiência masculina.”

— Zaida Muxí em “Mulheres, Casas e Cidades”

A história consagrada da arquitetura costuma se apresentar como uma sequência lógica, quase inevitável. Estilos que sucedem estilos, soluções que evoluem em direção a uma suposta eficiência ou uma estética que está na moda. Nesse encadeamento, o espaço aparece como resultado de critérios técnicos, funcionais e universais. Muxí explora essa ideia ao mostrar que essa universalidade tem contornos bastante definidos e o que se consolidou como norma foi, em grande medida, um olhar específico, situado, que transformou sua própria perspectiva em padrão sem considerar uma visão humana ampla.

Esse deslocamento altera o modo de ler o passado e também o que se enxerga no presente.

Ao recuperar trajetórias de arquitetas que atuaram em diferentes contextos, o livro traz à baila nomes esquecidos e também evidencia outra forma de relação com o projeto. Muitas dessas profissionais trabalharam a partir de condições concretas que as afastavam do modelo tradicional de autoria plena, como restrições de tempo, divisão de responsabilidades domésticas e inserção desigual no campo profissional. Isso tudo poderia inviabilizar a prática, mas essas condições produziram outras abordagens. A casa, nesse contexto, deixa de ser um espaço secundário e passa a operar como um laboratório, pois é ali que questões como circulação, proximidade, uso do tempo e sobreposição de funções se tornam centrais. Decisões como a posição de um ambiente ou a relação entre espaços e a possibilidade de realizar múltiplas tarefas carregam um peso estrutural. 

Chega a ser curioso constatar que o cotidiano, talvez a única realidade comum a todos nós, quando observado com atenção, revela uma complexidade que raramente aparece nos discursos mais celebrados da arquitetura. 

O livro bate na tecla da importância de tratar o cuidado como categoria espacial, porque cuidar demanda tempo, deslocamento e presença, dimensões que foram historicamente invisibilizadas nos processos de projeto. Ao trazê-las para o centro, Muxí aponta para uma lacuna que vai além da teoria. Ela se materializa em cidades que dificultam a vida de quem depende de redes de apoio, que fragmentam rotinas, que tornam tarefas básicas mais longas e mais exaustivas.

“Precisamos mudar o ponto de vista pelo qual observamos e nos observamos, criar novos sistemas de avaliação para sermos capazes de ver e valorizar as mulheres em todos os âmbitos, entre eles o urbanismo e a arquitetura. Tanto reconhecendo – muitas vezes descobrindo – as contribuições técnicas e intelectuais das mulheres às citadas profissões como tornando evidentes as diferentes necessidades dos homens e das mulheres no uso da cidade e dos edifícios. A partir de diferentes realidades vividas são obtidas diferentes experiências, e portanto diferentes dados de partida para abordar a resolução técnica de qualquer projeto. (…) Reconhecer essas distinções não significa reafirmar a desigualdade, antes é reconhecer que diferentes experiências requerem diferentes maneiras de conhecer e ser no mundo, e devemos aprender a atribuir um valor igual para as diferenças.”

— Zaida Muxí em “Mulheres, Casas e Cidades”

A escala doméstica e a escala urbana, nesse sentido, se entrelaçam. A organização da casa dialoga diretamente com a organização da cidade. Quando funções são rigidamente separadas no planejamento urbano, o impacto recai sobre o tempo de quem precisa transitar entre elas. Deslocamentos longos, pouca oferta de serviços de proximidade, espaços públicos que não acolhem diferentes formas de uso. O que parece eficiência no desenho pode significar desgaste na experiência.

Com habilidade e leveza, Muxí percorre diferentes momentos históricos para mostrar como essas dinâmicas se consolidaram. No pós-guerra, por exemplo, a expansão de modelos suburbanos trouxe consigo uma promessa de conforto que também implicava isolamento. Casas equipadas, afastadas, organizadas em torno de uma ideia de família que pressupunha uma divisão específica de papéis. A cidade se expandia, mas nem todas as presenças circulavam com a mesma liberdade.

Ainda assim, o livro evita leituras lineares. As arquitetas apresentadas não formam um bloco homogêneo, nem propõem uma única alternativa. O que as aproxima é a forma como suas experiências tensionam o que se entendia como dado. Ao trabalhar a partir do cotidiano, do tempo e do cuidado, elas ampliam o próprio repertório da arquitetura.

Nomear essas trajetórias tem um efeito que vai além da reparação histórica. Torna visível aquilo que, por muito tempo, foi tratado como inexistente. E, ao fazer isso, altera o horizonte do que pode ser imaginado. Se outras formas de pensar o espaço já existiram, ainda que marginalizadas, então o presente deixa de ser inevitável.

A planta de um apartamento, a organização de um bairro, o desenho de um equipamento público passam a carregar outras perguntas. Quem pode usar esse espaço com facilidade? Quem precisa fazer desvios, gastar mais tempo, adaptar sua rotina? Que tipo de vida está sendo considerada e qual está sendo deixado de lado? São perguntas que não se encerram no campo da arquitetura.

Elas atravessam políticas públicas, relações de trabalho, estruturas familiares, porque o espaço, além de abrigar a vida, também a organiza, a limita, a possibilita.

Mulheres, Casas e Cidades direciona nosso olhar para essas questões e nos faz perceber que casas e cidades nunca foram neutras, reconhecendo-as como construções e nos abrindo para a possibilidade de transformá-las. Olhar para casas e cidades por esse prisma é olhar para a própria vida, para o tempo que se gasta, para os caminhos possíveis, para os limites impostos e os que ainda podem ser redesenhados. Isso porque toda cidade é, também, uma biografia coletiva. E toda casa, mesmo silenciosa, conta uma história sobre quem pôde habitá-la por inteiro.

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