
Epidemia do desencanto: a crise da saúde mental em um mundo incapaz de imaginar o amanhã
Falar abertamente sobre saúde mental é uma conquista enorme, se compararmos ao silêncio e ao preconceito das gerações passadas. Porém, surge um problema quando essa abertura vira uma patologização do dia a dia, construída a partir da ideia de que qualquer desconforto exige um diagnóstico e uma solução rápida, quase sempre medicamentosa. Para os mais jovens, o sofrimento deixou de ser visto como uma reação natural às pressões da vida e passou a ser encarado como uma condição crônica e incapacitante. Só que tratar essa crise apenas como uma questão individual é um erro. O sofrimento psíquico atual é a extensão de um colapso muito maior, e tentar entendê-lo sem olhar para as fraturas do nosso tempo — a crise ambiental, a precarização econômica, a paralisia política e a degradação estética — é insistir em um diagnóstico incompleto.
Segundo o raciocínio do teórico britânico Mark Fisher sobre o “realismo capitalista”, vivemos sob o signo de um déficit estrutural de imaginação. Fomos capturados por um presente estático no qual a capacidade de projetar o amanhã foi substituída por um desânimo sistêmico, transformando o sofrimento na própria engrenagem da vida social. A virada dos anos 1980 e 1990, com o advento dos antidepressivos modernos e dos antipsicóticos atípicos, prometia que as neurociências inaugurariam uma era de controle e cura sobre a dor psíquica. O resultado, no entanto, foi um fracasso: sabemos muito mais sobre o cérebro, mas não desenvolvemos novas táticas para transformar a nossa relação com o sofrimento.
As psicoterapias baseadas em evidências apresentam resultados que mal superam o efeito placebo, e as medicações deixaram de ser pontes de recuperação para se consolidarem como regimes de manutenção contínua. Paralelamente, a própria arquitetura diagnóstica ruiu por dentro. O DSM-5 — quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais, uma espécie de “código penal” da psique — passou por uma expansão que chega a ser até suspeita, catalogando em menos de três décadas mais de duas centenas de novas patologias sem qualquer ganho de precisão terapêutica.
O próprio Allen Frances, psiquiatra estadunidense que dirigiu, durante anos, o DSM, admitiu que nossa forma de nomear a dor humana se tornou ampla e indeterminada demais. Isso gera uma perversão distributiva, com excesso tanto de diagnóstico quanto de remédio para quem pode pagar e escassez de assistência para as populações em situação de vulnerabilidade social. No Brasil, embora a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) seja uma excelente ideia, a falta de recursos a força a focar em casos extremos, abandonando a imensa faixa de complexidade média, ou seja, as depressões e ansiedades que, sem escuta, podem evoluir para o colapso.
O erro metodológico está na tentativa de transplantar para o campo da saúde mental a lógica mecanicista da medicina tradicional, buscando o “princípio ativo” da dor psíquica. Mas qual é o princípio ativo do sofrimento? É o casamento falido, o racismo estrutural, a precarização do trabalho ou a solidão da metrópole? O sofrimento não é uma coleção de sintomas biológicos isolados, é o produto direto de uma forma de vida. Sob a lógica neoliberal, o mal-estar deixou de ser um limite a ser minorado para virar um poderoso instrumento de extração de valor. A pressão contínua gera o burnout, mas assegura a entrega de metas, como se a indução da insatisfação permanente alimentasse a roda do consumo. Criou-se, assim, uma população adoecida e convencida de que o desconforto não pode ser tolerado, deixando de lado a visão da dor como parte do amadurecimento para vê-la como uma falha técnica a ser corrigida a qualquer custo.
Com a perda de força de narrativas morais, religiosas ou comunitárias que outrora davam sentido ao limite e à finitude da existência, a dor passou a ser tratada quase que estritamente como um defeito de desempenho. Prosperou uma indústria de soluções disciplinares, de modulagens da paisagem cerebral e de treinamentos de alta performance que vendem a ilusão de que esse mal-estar é apenas a incompetência individual de quem não soube otimizar a própria biologia.
A esse ambiente de cobrança incessante somam-se as tecnologias digitais e seus impactos profundos sobre os laços sociais, gerando um debate global que já se traduz em leis de restrição ao uso de celulares em escolas da França e da Austrália. No entanto, críticos e pesquisadores frequentemente questionam essas medidas por não encontrarem uma relação direta de causa e efeito entre o tempo de tela e diagnósticos de depressão, ansiedade ou déficit de atenção. O debate público muitas vezes busca uma causa biológica simplista, mas o colapso não vem dos raios azuis do visor, a tecnologia opera por uma cadeia indireta. O uso assíduo de telas gera, ao mesmo tempo, um aumento do isolamento e uma hipersociabilidade, servindo de terreno fértil para o avanço de compulsões, adições e impulsões, cuja febre das bets no Brasil é apenas a manifestação mais recente.
Ao rivalizar com a presencialidade, diminuir a confiança no outro, destruir a potência da intimidade e corroer a comunalidade, esse império digital alimenta uma cultura da inadequação. As pessoas são empurradas para uma espiral de fobias, como o medo constante de não estar participando ou de estar atrasado em relação à tecnologia, podendo resultar naquilo que se descreve como uma morte por desespero ou por desistência.
Na medida em que a convivência presencial se torna mais custosa e arriscada, as pessoas se refugiam nos dispositivos digitais, buscando anestésicos de fácil acesso em redes, jogos e apostas virtuais. O dado de que mais de 40% dos jovens já recorrem a ferramentas de inteligência artificial em busca de aconselhamento terapêutico é a demonstração cabal da nossa crescente inabilidade relacional. Tudo isso revela que a saúde mental é um fenômeno covariante à qualidade das relações humanas e que construir laços de qualidade exige um ativo que o mundo contemporâneo confisca sem piedade: o tempo. Se o nosso tempo for encurtado pela exigência da performance, a qualidade relacional despenca vertiginosamente.
Outro sintoma é o exercício da sexualidade, que vem caindo em escala global. Essa queda não vem de uma perda de libido, mas do desgaste do convívio em uma rotina engolida pelo trabalho e pela atrofia de habilidades sociais. Estar com o outro exige presença e exposição ao risco e, em um ambiente tomado por interações superficiais, o espaço público passa a servisto como um terreno minado, onde o diálogo perdeu a capacidade de mediar conflitos. Sem conseguir lidar com o peso das emoções no encontro presencial, as pessoas se recolhem em bolhas e adotam a apatia como defesa.
Muito embora seja difícil falar de soluções definitivas, é nesse vácuo de convivência que a arte se torna indispensável. Diferente da medicina tradicional, a saúde mental se transforma conforme mudamos a forma de falar sobre ela: a maneira como nomeamos e compartilhamos a dor altera a própria natureza do sofrimento. Esse foi o tiro que saiu pela culatra quando começamos a diagnosticar além da conta. A arte, então — não a que é vendida como entretenimento rápido, mas aquela que dá nome ao que parece indizível —, é um dos poucos caminhos capazes de dar um novo sentido ao nosso mal-estar. Para além de combater os gatilhos externos da ansiedade, a saúde psíquica depende da nossa capacidade de imaginar o futuro, uma imaginação que o consumo artístico estimula ao nos reconectar com a história e com a memória coletiva.
A partir desse resgate, torna-se possível pensar em uma oniro-política, abordagem inspirada tanto na psicanálise quanto nas cosmologias indígenas — como as reflexões do pensador Davi Kopenawa. O sonho, de acordo com essa abordagem, não é um devaneio alienante ou uma fantasia infantil, mas a capacidade de transformar a memória cultural em imagens capazes de desafiar o presente e reorganizar a política. Enquanto a única linguagem disponível for a da competição, da performance individual ou da tragédia iminente,o futuro continuará parecendo apenas uma repetição cinzenta dos nossos problemas atuais.
A capacidade de voltar a imaginar o amanhã exige desarmar uma armadilha frequente: a conversa rasa entre otimismo e pessimismo. O pessimista escolhe o caminho confortável de esperar o pior, garantindo o luxo de sempre se dizer certo; já o otimista ingênuo prefere se anestesiar com a ilusão de que o progresso e a tecnologia resolverão tudo sozinhos. Ambas as posturas, no fim, servem apenas para alimentar a apatia. No lugar de meros pessimistas e otimistas, precisamos adotar uma atitude que recuse a promessa de que o sofrimento de hoje será compensado por um amanhã perfeito que nunca chega. A verdadeira postura crítica não minaa vontade de lutar; ela faz insurgir um desejo de futuro que recusa a espera e exige a transformação ativa do presente.
A geração que prometeu aos jovens um mundo conectado e próspero entregou exaustão, solidão e precarização. O desespero atual é a conta de uma promessa falida. Qualquer saída real para a saúde mental e para a nossa vida coletiva não virá de novos remédios nem de receitas individuais de bem-estar, mas do próprio fim desse desencanto. Aceitar a exaustão como destino é insustentável e, no momento em que as falsas soluções fracassam, renasce a urgência de reconstruir nossas formas de vida, recuperar o tempo e resgatar a presença física do outro.
Resta-nos reivindicar, mesmo sem garantias, a coragem de voltar a sonhar.
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