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#56O que está acontecendo?Sociedade

Por que planejamos o Brasil como se ele ainda fosse jovem? Uma conversa com Ana Amélia Camarano

por Willian Silveira

Durante muito tempo, o envelhecimento foi tratado como uma etapa da vida privada, restrita ao âmbito familiar e às experiências individuais. Esse período, porém, chegou ao fim. Após séculos do apogeu da sua força de trabalho, aquilo que tecnicamente se costuma chamar de bônus demográfico, o Brasil está finalmente ficando grisalho. A transformação pode ser facilmente verificada na paisagem urbana no aumento da expectativa de vida, na redução das famílias e na consequente inversão gradual da pirâmide etária. Seja nos lares mais próximos ou nas ruas, o país se aproxima da realidade de ter uma população com menos pessoas em idade ativa e contar com uma parcela crescente de idosos.

O problema é que a mudança acontece em um ritmo acelerado e antes de termos superado problemas históricos, como desigualdade, baixa produtividade e fragilidades na proteção social. Por essas e outras, o envelhecimento costuma ser apresentado como uma ameaça às contas públicas. Mas, para a economista e demógrafa Ana Amélia Camarano, uma das maiores especialistas brasileiras no tema, o envelhecimento precisa ser entendido para além do seu impacto nas contas públicas. Pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ela estuda como as transformações demográficas impactam a sociedade e defende que uma população mais longeva também pode impulsionar a economia com força de trabalho e novas tecnologias. Os desafios para a Previdência, para o mercado de trabalho e para os sistemas de cuidado são inúmeros, mas o tema abre espaço para pensar uma economia voltada para uma sociedade que vive mais e, quem sabe, para um novo modelo de país. 

É tempo de mudar. Se viver mais deixou de ser exceção, por que continuamos organizando o país como se a velhice fosse um acontecimento raro?

Continuamos nos enxergando como uma sociedade jovem, como se a juventude fosse permanente. Estamos realmente envelhecendo?

Ana Amélia Camarano: Aqui, a fecundidade começou a cair no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970 e continua diminuindo. Desde os anos 2000, já estamos abaixo da taxa de reposição da população, ou seja, não nascem crianças suficientes para manter o tamanho da população estável. Nas minhas projeções, a redução populacional começará em meados da década de 2030; nas do IBGE, um pouco depois. O mais importante, porém, é entender que passaremos a viver em uma sociedade demograficamente dominada por pessoas mais velhas, e não mais por jovens, como aconteceu ao longo de praticamente toda a história. Essa é uma mudança inédita.

O envelhecimento da população acontece de forma diferente no Brasil em relação a outros países? O que caracteriza esse cenário?

A partir de 2030, que é praticamente amanhã, cerca de 45% da população brasileira terá mais de 50 anos. Nossa sociedade sempre se organizou a partir de mecanismos de transferência entre gerações. Os pais cuidam dos filhos, os filhos cuidam dos pais na velhice. A Previdência também funciona assim: quem está trabalhando financia quem já saiu do mercado de trabalho. Esse mecanismo começa a entrar em crise, porque teremos menos filhos para cuidar dos pais idosos e menos trabalhadores contribuindo para um número crescente de pessoas que receberão benefícios por um período cada vez maior. É por isso que países como Japão e, mais recentemente, a China investem tanto em produtividade. A China está desenvolvendo robôs para tarefas domésticas e de cuidado. Não se trata apenas de substituir pessoas, mas de aumentar a produtividade em uma sociedade que terá cada vez menos trabalhadores. Esse é o desafio brasileiro. Estamos envelhecendo sem ter conseguido dar esse salto de produtividade. 

Como aumentar a produtividade de um país que envelhece? Quais são as prioridades para o Brasil enfrentar esse cenário?

A Previdência é uma delas. O regime de repartição simples, do jeito que está, se esgotou. Não adianta continuar fazendo reformas, porque, na prática, elas têm sido apenas puxadinhos. A reforma de 2019 aumentou a desproteção social e não resolveu a questão fiscal. Poucos anos depois, já se fala em uma nova reforma. Previdência é um contrato social, e um contrato precisa transmitir credibilidade. Hoje, muita gente não quer contribuir porque simplesmente não acredita que um dia vai receber o benefício. E a questão não é apenas demográfica: o mercado de trabalho mudou. A uberização, o trabalho por conta própria e as novas formas de contratação fizeram crescer o número de pessoas que não contribuem para a Previdência. Hoje, cerca de 40% da força de trabalho está fora do sistema. Então não basta discutir despesa. É preciso discutir receita, mercado de trabalho e um novo contrato social capaz de responder a uma sociedade em que as pessoas viverão muito mais.

Como resolver esse impasse?

O primeiro passo é garantir proteção para quem não puder mais trabalhar. O Brasil avançou muito com a Constituição de 1988, ao assegurar uma renda para essas pessoas. O problema é que o sistema atual caminha para proteger cada vez menos gente. Ao mesmo tempo, precisamos colocar a economia do cuidado no centro da discussão. As pessoas viverão mais, precisarão de mais cuidados, e essa é uma atividade que dificilmente poderá ser totalmente automatizada. O cuidado envolve contato humano, percepção, sensibilidade. Mesmo com o avanço da robótica, isso continuará sendo indispensável. É também um enorme gerador de empregos. Se houver empregos de qualidade, esse setor pode responder a uma necessidade social crescente e também fortalecer a economia.

Existe algum modelo que possa servir de referência para o Brasil?

Inglaterra e Chile, por exemplo, trabalham com modelos em pilares. Eu acredito que precisaríamos fortalecer um piso solidário, semelhante ao Benefício de Prestação Continuada, mas com alcance mais amplo. Esse benefício garantiria uma renda básica independentemente da contribuição individual. A partir daí haveria um segundo pilar contributivo, vinculado ao INSS, e um terceiro formado pela previdência privada. Hoje o Brasil devolve uma parcela relativamente alta do que foi contribuído, principalmente para quem contribuiu menos. Outros países trabalham com retornos menores, mas garantem primeiro uma proteção básica universal. 

A tecnologia pode ser uma aliada dessa política de cuidados?

Sem dúvida. Quando falamos em cuidado, muita gente pensa apenas no cuidador, mas existe toda uma cadeia tecnológica associada a isso. O Japão já utiliza bengalas com GPS, sensores capazes de medir sinais vitais, dispositivos de monitoramento e equipamentos que aumentam a autonomia das pessoas. No Brasil ainda estamos muito atrás. Além disso, nossos próprios sistemas públicos não conversam entre si. Saúde, assistência social e Previdência deveriam compartilhar informações, mas isso não acontece. Muitas vezes uma pessoa faz o mesmo exame duas ou três vezes porque muda de cidade ou de unidade de atendimento e o sistema não acompanha seu histórico. Precisamos de plataformas interoperáveis, capazes de integrar essas informações. 

No Brasil, a indústria que mais evoluiu com o envelhecimento talvez tenha sido a da anti-idade. Isso parece dizer muito sobre a nossa relação com a velhice.

A gente investe muito tempo e dinheiro tentando não envelhecer, mas dedica menos esforço para se preparar para viver mais. O Brasil é um dos líderes mundiais em cirurgias plásticas e a indústria de cosméticos anti-idade movimenta bilhões por ano. Isso revela o medo da velhice e, em última instância, o medo da morte. Só que esse preconceito dificulta o debate sobre políticas públicas. É muito mais confortável discutir envelhecimento ativo, academias, qualidade de vida. O lado mais difícil da velhice — a dependência, os cuidados de longa duração, as instituições de acolhimento — continua sendo tratado como tabu. Mas ele existe. Quanto mais envelhecermos, mais teremos de falar sobre isso.

Grande parte dos brasileiros vive para resolver o presente: trabalha hoje para pagar as contas de amanhã. Como construir uma mentalidade de longo prazo em uma sociedade assim? 

Se as pessoas vão viver mais, terão de trabalhar por mais tempo, cuidar mais da saúde e também se preparar financeiramente para isso. E tudo passa pela educação. Educação financeira, inclusive. Desde cedo é preciso compreender que não se pode gastar tudo o que se ganha. Se você quer viver muito e viver bem, precisa poupar. A contribuição para a Previdência também é uma forma de poupança. Acho que essa consciência precisa ser construída desde cedo. Hoje vivemos a democratização da sobrevivência. Antes sempre existiram pessoas que chegavam à velhice, mas eram poucas. Agora, a maioria chegará.

Por isso, a educação continua sendo fundamental, inclusive para a inclusão digital. Não basta usar a internet; é preciso saber navegar, acessar serviços, encontrar informações. Também precisamos combater o etarismo. As pessoas podem trabalhar por mais tempo, mas o Brasil vive uma contradição: para o mercado de trabalho, aos 50 anos você já é considerado velho; para a Previdência, aos 60 ainda é novo para se aposentar. Se quisermos ampliar a participação das pessoas mais velhas na economia, é necessário investir em capacitação continuada. Com a velocidade das mudanças tecnológicas, ninguém consegue permanecer décadas trabalhando sem atualização. Um dos principais preconceitos em relação aos trabalhadores mais velhos é a ideia de que eles não acompanham essas mudanças. Isso se resolve com formação permanente.

Falamos sobre educação e Previdência. Em termos de políticas públicas, existe mais alguma frente indispensável para preparar o Brasil?

A questão da habitação e da infraestrutura urbana é fundamental. Precisamos de cidades acessíveis, com iluminação adequada, calçadas seguras, transporte adaptado. Muitas limitações atribuídas ao envelhecimento são, na verdade, socialmente construídas. Uma pessoa cadeirante, por exemplo, pode trabalhar, sair de casa e participar da vida social se encontrar um ambiente acessível. Quando isso não existe, a dependência acaba sendo produzida pela própria sociedade.

Também é necessário adaptar os ambientes de trabalho. No Japão, há muitos anos, já era comum encontrar espaços mais ergonômicos, equipamentos adaptados e tecnologias pensadas para uma força de trabalho mais envelhecida. Os empresários precisam compreender que valorizar essa mão de obra também é uma estratégia econômica. Quanto mais tempo as pessoas permanecerem trabalhando, maior será o tempo de contribuição para a Previdência. Muitas vezes o debate fica restrito ao corte de despesas, quando também deveríamos discutir como aumentar as receitas. 

Você diz que essa transformação acontecerá em menos de dez anos, mas parece que o país ainda não se deu conta disso. Quais são as iniciativas para que essa tomada de consciência aconteça?

No governo federal há uma Secretaria dos Direitos da Pessoa Idosa, e também uma Secretaria Nacional de Cuidados. Elas desenvolvem ações importantes, embora ainda muito voltadas para populações mais vulneráveis. Nos municípios também existem experiências interessantes, como programas de visita domiciliar, centros de convivência e iniciativas voltadas para o desenvolvimento cognitivo e o envelhecimento ativo. O mercado também começa a responder a essa realidade. Há empresas investindo em estimulação cognitiva, memória, inclusão social e outros serviços voltados para a população idosa. Mas ainda precisamos avançar muito. O Brasil tem muitas necessidades sociais acumuladas e precisa conciliar educação, saúde, segurança, assistência social e envelhecimento dentro de um cenário de recursos limitados.

Mas não estamos parados. Desde que comecei a trabalhar com esse tema, há mais de vinte anos, vejo avanços importantes. Eles talvez não aconteçam na velocidade necessária, mas existem. Precisamos deixar de enxergar o envelhecimento apenas como uma bomba fiscal. O envelhecimento, por si só, não é bom nem ruim. O que fará diferença é a maneira como a sociedade, as famílias, o mercado e o Estado escolherem responder a essa nova realidade.

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