
Amarello 56 — O que está acontecendo?
A Amarello lança a sua edição 56 com temas fundamentais para entender uma nova ordem mundial. Com Glória Kalil de editora convidada e capa de Gleeson Paulino.
Garanta a Amarello 56 em nosso site a partir do dia 29 de setembro
A conta chegou para o Brasil. O que acontece hoje não nasceu ontem; é resultado de mais de quinhentos anos de uma sociedade que negligenciou aquilo que deveria ter sido fundamental: a educação, os direitos humanos, a construção de uma esfera verdadeiramente pública, a separação entre o público e o privado, e, sobretudo, o enfrentamento do abismo social que atravessa nossa história.
Essa negligência produziu algo mais profundo do que desigualdade. Produziu uma erosão da confiança nas instituições, no outro e, talvez, em nós mesmos. Criamos uma sociedade assentada sobre solo arenoso, sem referências suficientemente sólidas para resistir às forças que agora a atravessam. E sobre esse terreno chegaram os algoritmos.
A ordem passou a ser a do lucro sobre o humano, e nossa velha corrupção colonial cotidiana, historicamente disfarçada sob o véu da alegria, da camaradagem, da informalidade e da felicidade, encontrou uma extraordinária afinidade com um capitalismo que transforma desejos, afetos, inseguranças e identidades em mercadoria.
Não se trata apenas da voracidade do capital. O problema se torna ainda mais grave quando essa voracidade encontra uma sociedade com pouco autoconhecimento e poucos instrumentos críticos para discernir aquilo que lhe serve daquilo que simplesmente a captura.
Talvez por isso a crise brasileira seja mais profunda do que uma crise institucional. Ela é também uma crise moral.
Perdemos referências compartilhadas sobre o certo e o errado. Confundimos liberdade com ausência de limite, intimidade com esfera pública, interesse particular com interesse coletivo. As fronteiras entre o público e o privado se dissolvem. A esperteza passa a valer mais do que a responsabilidade. A vantagem individual, mais do que o compromisso coletivo. É a vitória do malandro.
Estamos assistindo ao derretimento do mundo tal como o conhecíamos enquanto uma nova ordem começa a ocupar o seu lugar. Uma ordem para a qual ainda não temos instituições, linguagem, ética ou experiência histórica suficientes — e chegamos nela sem saber quem somos.
Uma sociedade que não tem a capacidade de escolher o que deseja corre o risco de ter seus desejos escolhidos por alguém em seu lugar.
Tomás Biagi Carvalho
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