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psicologia

guerra (WWII) + porn + Noguchi + Ticiano (detalhe), de Deyson Gilbert (2025).
#54EncantoSociedade

O brilho das telas e o apagar da infância: uma conversa com Cristiano Nabuco

por Gustavo Freixeda
“Por trás desses joguinhos, existem mecanismos de persuasão que fazem você passar mais tempo do que gostaria, acionando sistemas dopaminérgicos do cérebro, quase como se fossem substâncias ilícitas.”

Pensar em infância é pensar em sonhos, em encantamento, num mundo cheio de mistérios, pronto para ser explorado e reinventado — ao menos para quem teve o privilégio de não ter nascido nos últimos quinze ou vinte anos. Afinal, ser criança e adolescente hoje em dia significa não conhecer a vida sem celulares e redes sociais. Ainda que o digital seja um símbolo de progresso, ele também representa um fardo enorme na vida emocional das pessoas, em especial a de quem ainda está se formando como indivíduo. Se não houver algum tipo de resistência, um esforço hercúleo por parte dos pais (que em breve serão, em sua grande maioria, também de gerações que não conseguem sequer conceber o mundo sem celular), sai-se do útero já como partícipe da loucura virtual da atualidade.  

Foi-se o tempo em que o lúdico, o faz de conta e o tédio eram ferramentas de aprendizado, e em que a criança se fazia no brincar, quando aprendia a imaginar, a experimentar, a se colocar no lugar do outro.  

A presença constante de telas, que nos últimos anos se agravou de maneira alarmante, redefiniu a experiência infantil. Se a vida adulta, sabemos, já se vê em estado de alerta, que dirá então a vida das crianças que não conhecem outra existência? A televisão já foi tida como um problema. O videogame também. As brincadeiras mais típicas da infância foram perdendo espaço, é verdade, e isso não é de hoje. Mas nada é tão nocivo quanto a confluência de celular, tablet, lógica on demand, redes sociais.  

O que acontece quando a infância deixa de ser um laboratório de possibilidades e se transforma em um espaço de consumo contínuo de estímulos digitais e doses dopamínicas? Que tipo de adulto surge de crianças que conseguem o que querem a todo instante, instrumentalizando o mundo a ponto de restringi-lo ao que dá prazer, mas apequena? Sem o embate de ideias, a colisão de novas perspectivas e o confronto, não há como crescer. É da tensão que ampliamos o mundo e nossa percepção.  

Para não simplesmente ecoar o discurso do “na minha época era melhor”, conversamos com Cristiano Nabuco, doutor em Psicologia e com pós-doutorado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, que há décadas se dedica a estudar os efeitos da tecnologia sobre o desenvolvimento infantil.  

Qual é o papel do sonhar e do lúdico na infância? 

Cristiano Nabuco: Sonhar tem uma importância enorme, porque, no momento em que somos inocentes e ainda não temos uma noção clara da vida, começamos a arquitetar nosso futuro. Lembro que, quando eu era pequeno, queria ser bombeiro. De alguma forma, aquilo capturava minhas ambições. Isso se reflete em grande parte das histórias infantis, que alimentam nosso imaginário coletivo: a princesa que recebe o beijo do príncipe, a intervenção divina, o pote de ouro no final do arco-íris. Elas passam a ideia de que, a partir dos nossos esforços, um dia podemos alcançar a felicidade. Essa fase inicial é fundamental, pois nos ajuda a desenvolver novas camadas de entendimento da vida a partir da realidade que temos. 

O que se perde quando o lúdico é substituído por estímulos contínuos? 

As telas cooptaram a infância, levando a criança para um mundo adulto que antes ela só podia explorar de forma lúdica. Antes, brincar nesse mundo adulto era experimentar jogos e atividades com liberdade. Hoje, por trás desses joguinhos, existem mecanismos de persuasão que fazem você passar mais tempo do que gostaria, acionando sistemas dopaminérgicos do cérebro, quase como se fossem substâncias ilícitas. Temos hoje uma expectativa de vida maior, e alguns chegam a dizer que a adolescência se estende até os 30 anos. Cronologicamente isso até faz sentido, mas emocionalmente estamos vivendo o que eu chamaria de “morte da infância”. A criança perdeu a ingenuidade necessária, a estimulação da vida subjetiva, o contato com histórias contadas, o “era uma vez” lido pelos pais. Hoje, cada um está com o celular na mão, e a infância como conhecíamos deixa de existir. 

Imagino que sejam muitos, mas há algum estudo que você traria para a discussão? 

Tem uma pesquisa do francês Michel Desmurget, autor do livro A fábrica de cretinos digitais. Logo no início do livro, ele traz um exemplo muito interessante: numa pesquisa que acompanhou crianças de zero a 24 meses, aquelas que passaram apenas 50 minutos por dia em dispositivos eletrônicos, ao final de dois anos, deixaram de ouvir cerca de 850 mil palavras. Por quê? Porque estavam interagindo com telas que oferecem respostas repetitivas, muitas vezes frustrantes, mas de um modo que engaja a criança a continuar tentando. No fundo, o que acontece é uma escalada de tarefas que não contribui para o desenvolvimento real da criança. 

Antes se dizia que “as crianças de hoje só veem televisão”; depois, “as crianças só jogam videogame”. Agora, fala-se o mesmo sobre celulares e tablets. O que mudou? 

Antes, assistir televisão era uma experiência coletiva e com limites. Havia horários, supervisão e, muitas vezes, você precisava ver programas que não gostava. Hoje, tudo mudou. Você entra no quarto, pega o celular e vive em uma bolha personalizada, só vê o que interessa a você, e as plataformas devolvem aquilo que você mais gosta. O estímulo constante ativa regiões do cérebro ligadas à dopamina, como o núcleo accumbens e o córtex orbitofrontal, associadas ao prazer e à recompensa, enquanto outras áreas, responsáveis por criatividade, raciocínio lógico e abstração, ficam menos engajadas. 

Se você tem uma planta em uma janela e ela cresce apenas para o lado que recebe luz, as demais partes ficam subdesenvolvidas. Da mesma forma, o cérebro da criança habituada a respostas rápidas e estímulos constantes cresce apenas nas áreas ligadas à gratificação imediata, enquanto outras regiões não se desenvolvem plenamente. O resultado é uma geração impaciente, com pouca tolerância, menos habilidade emocional e dificuldade em lidar com frustração ou discordância. Isso se reflete até em comportamentos sociais, como na política: quem pensa diferente não é apenas discordante, é inimigo. Também afeta a vida profissional, pois essas pessoas têm dificuldade em permanecer em empregos que exigem resiliência e negociação. 

É uma equação multifatorial, mas as telas são um player importante, e cumprem um papel muito prejudicial. Ao final, fica a reflexão: evoluímos ou involuímos? 

Que transformações já conseguimos observar na forma como as crianças sentem, sonham e se relacionam com o mundo? 

Peço desculpas por parecer o portador das más notícias, mas o que estamos vivendo hoje é uma infância que praticamente deixou de existir. Crianças com atraso no desenvolvimento da linguagem, por exemplo: quanto mais tempo de tela até os dois anos, pior a linguagem aos três; quanto mais tela até os três, menor a capacidade de empatia aos quatro; e quanto mais tela aos quatro, mais comprometida a habilidade de se relacionar aos cinco. 

O futuro, então, não é muito animador. 

Hoje existe uma legião de jovens que, mesmo chegando à faculdade, não conseguem seguir adiante. Falta autocontrole, falta habilidade de se relacionar, falta manejo emocional. Muitos desistem entre o primeiro e o segundo ano, e acabam sendo julgados como se fosse falta de vontade, mas o problema é mais profundo: eles foram condicionados a buscar apenas o prazer imediato, o estímulo rápido. Atendo um rapaz assim. Está no terceiro semestre agora, lutando muito para continuar. Ele me disse: “Eu não sabia que estudar era assim. Na verdade, eu nunca estudei de verdade.” E é alguém que fez um ótimo colégio. Expliquei que ele tinha passado a vida treinando tiros de 100 metros. Só que a vida não é uma corrida curta, é uma maratona. É preciso aprender a controlar o ritmo, saber dosar esforço e fôlego. Ele respondeu: “Mas eu não sei fazer isso.” E esse é o ponto: muitos jovens não sabem. 

Claro que não é com todo mundo, mas quem já tem alguma vulnerabilidade, uma estrutura familiar mais frouxa ou pouca orientação de alguém mais velho, acaba sendo engolido por esse sistema. E o vício se instala. Os chineses têm um nome para isso: “heroína digital”. 

E a dependência a essa heroína causa uma estreiteza de mundo. 

Hoje a gente vive num mundo de infinitas opções, e as pesquisas mostram que, quanto mais escolhas existem, mais confuso o indivíduo se torna. É por isso que, de certa forma, as redes sociais acabam ajudando as pessoas a tornar o mundo mais inteligível. Tudo se resume a um binarismo simples: gosto ou não gosto, amo ou odeio. Antes era diferente. Eu podia ouvir você dizer que gosta de determinado candidato e responder: “Olha, eu entendo, mas veja por esse outro lado”, e a conversa seguia. Hoje, não. Ninguém entra mais numa conversa para ouvir o outro ou repensar a própria opinião. As pessoas entram para defender o seu candidato, a sua verdade. Não há mais espaço para analisar o que o outro realmente tem a dizer. 

Há movimentos para mudar isso? Qual é o panorama mundial e nacional? 

O que temos visto, nos últimos 20 anos, é que alguns países começam a exercer controles. A Austrália, por exemplo, proibiu redes sociais para jovens com menos de 16 anos. Grécia, França e Estados Unidos também têm avançado nesse sentido. Aos poucos, alguns lugares começam a ganhar voz. Participei, no Governo Federal passado, da elaboração de uma cartilha sobre o tema. Hoje falam da chamada lei Felca, mas estamos trabalhando nesse projeto há muito tempo, há pelo menos três anos, e ainda há muito a ser feito. O problema é: onde está a saúde mental nessa discussão? Não basta restringir publicidade para crianças ou apenas reduzir impactos isolados se as próprias empresas que criaram os problemas não assumirem responsabilidades. Não é justo que problemas criados por elas sejam deixados para a sociedade civil resolver. Esse é um tema que precisa ser discutido amplamente, porque a maioria das pessoas não tem noção da gravidade da situação. A velocidade das mudanças não acompanha as respostas necessárias. Eventualmente chegaremos lá, claro, mas, até isso acontecer, fica um rastro de destruição. 

E não dá para simplesmente jogar as redes sociais fora. 

Elas têm o seu lado bom. Servem para divulgar ideias, conectar pessoas, ampliar o círculo de relacionamentos. Também dão espaço para que minorias sejam ouvidas, representadas — e isso é muito importante. Mas o problema é que essas mesmas redes usam mecanismos de vício. E, com o tempo, as pessoas perdem o controle. O que estamos fazendo com esse uso? A sensação que dá é que estamos diante de uma grande epidemia de saúde mental. 

O que fazer para melhorar, sem demonizar a tecnologia?  

Não existe uma resposta única. O que existe é a necessidade de equilibrar a rotina. Hoje, o brasileiro passa, em média, dez horas e quinze minutos por dia em frente às telas digitais. Isso equivale a 150 dias por ano. E o que isso faz? Faz com que boa parte das nossas experiências venha de um mundo sem controle. A chance de a gente se alinhar a esse ritmo, sem nem perceber, é enorme. Então, por onde começar? Jogando fora o celular? Claro que não. Mas podemos conversar. “Filho, filha, agora é hora de jantar. Vamos deixar os telefones de lado e conversar? Como foi o dia de vocês?” Uma refeição em família por semana já funciona como um fator protetivo da saúde mental. Por que tanta gente escapa para as telas? Porque lá encontra o que não encontra fora: atenção, estímulo, companhia. Então, o que fazer? Trazer isso para o real. “O que vocês estão vendo? Me mostra.” Esse tipo de troca constrói vínculo. 

Claro, nem sempre é simples. Muitas famílias vivem jornadas duplas ou triplas de trabalho. Nessas condições, é difícil criar esse tempo de convivência. Às vezes, é até mais seguro deixar o filho no computador do que na rua. Mas, ainda assim, a conversa, o olhar, o mínimo de presença… Isso já faz diferença. 

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O que fazer com as histórias que contamos a nós mesmos?

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“Sou assim, sou assado”, “fiz isso, fiz aquilo”, “não sei, só sei que foi assim”. Quantas histórias cabem em uma personalidade? Nossa busca por felicidade, sentido, realização e, muitas vezes, aprovação externa é cheia de crenças cuidadosamente construídas (de maneira mais ou menos consciente), histórias que contamos a nós mesmos sobre quem, como, por que somos. Essas narrativas, em alguns casos, nos fortalecem, fazendo com que assumamos nosso papel no mundo; em outros, enclausuram, prejudicando nosso campo de visão e até reduzindo possibilidades. Vivemos a nossa própria Ilíada, recontando aquilo que tomamos como nosso, definindo o “eu” a cada vez que o fazemos.  

Um acontecimento pode ser visto por diversas perspectivas, e, em se tratando de algo que aconteceu com a gente ou perto da gente, seremos nós o ponto focal da história que contaremos dali em diante. Isso não quer dizer que contaremos versões falaciosas do que aconteceu, mas tudo será mediado a partir do nosso olhar, que de isento não tem nada. E nem sempre a interpretação que fazemos de nós é generosa. Em meio ao emaranhado das nossas histórias pessoais e das pressões sociais, é comum que nos joguemos para baixo, tão comum quanto nos jogarmos em bajulação própria. Quando não há uma verdade absoluta, o que sobra no quadro são as tintas que temos à disposição. 

O chamado “efeito Rashomon” descreve situações em que, por diferentes interpretações pessoais, não é possível saber o que realmente aconteceu. O filme de Akira Kurosawa de 1950 que dá nome ao efeito e que segue impressionante mesmo 75 anos depois de lançado, fez isso com o julgamento de um caso de estupro e assassinato em que três pessoas relatam sua versão do acontecido — daí o termo. Na vida real, raramente conseguimos “rashomonizar” qualquer história ou qualquer versão de quem somos, então ficamos com a interpretação que elaboramos ou que chegou até a gente, externa ou internamente. E assim seguimos, como mestres titereiros de nós mesmos. 

Mas e se “rashomonizássemos” nossas histórias? Com qual versão ficaríamos?  

A terapeuta Daniela Faertes tem olhado de perto para essas costuras invisíveis entre o eu e o mundo. Especialista em terapia cognitivo-comportamental, ela aborda como crenças limitadoras, baixa autoestima e o desejo excessivo de agradar fazem parte das narrativas internas que nos impedem de viver com autenticidade e satisfação. 

Com sua ajuda, exploramos como essas histórias impactam nosso bem-estar, como reescrevê-las e quais mitos desconstruir para viver com mais plenitude. 

Como você entende o conceito de “mito pessoal”? Em que medida pode funcionar como limitador? 

Daniela Faertes: São crenças profundas, formadas ao longo do nosso desenvolvimento, que funcionam como constructos rígidos e convictos. Por isso, acabam nos atrapalhando: são limitadas e limitantes. Isso significa que, quando temos uma convicção muito forte sobre algo, fechamos espaço para outras possibilidades. Faltando essa flexibilidade, deixamos de considerar outras narrativas além dos nossos mitos pessoais. 

Como a terapia cognitivo-comportamental atua sobre eles? 

DF: Partimos da premissa de que não são as situações em si que nos fazem mal, mas a forma como as enxergamos. Enxergamos o mundo através de uma lente formada por nossas crenças, convicções e visão de mundo. Quando essas crenças são disfuncionais, podemos trabalhar nelas para mudar nossa forma de ver, pensar, sentir e agir. Nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos vêm dessas crenças. No fim, atuamos na vida conforme as narrativas que contamos a nós mesmos. 

Muitas pessoas escrevem seus próprios scripts sobre a felicidade, baseadas em expectativas sociais ou familiares? 

DF: O mais comum é que as crenças sobre felicidade estejam baseadas em padrões familiares e, depois, em influências sociais. É raro que essas crenças sejam totalmente individuais e desvinculadas dessas duas fontes. Às vezes, acontece até o contrário: a pessoa decide ser o oposto do modelo familiar porque não se identifica com ele, ou simplesmente segue a trajetória construída ao seu redor, mesmo quando sente algum incômodo. Essas crenças são muito enraizadas, moldam nosso olhar sobre a vida e até a forma como nos percebemos. Não temos como fugir completamente dos padrões sociais. Todo mundo diz “não se compare”, mas somos seres sociais, e o comparativo é natural. Esses modelos foram importantes para a sobrevivência dos grupos, para que pudessem se adaptar e se organizar. Porém, muitos desses scripts sociais hoje podem ser bastante adoecedores. 

A ideia de “narrativas que nos protegem” pode ser ambígua: às vezes dão estrutura, outras vezes aprisionam. Como diferenciar entre uma narrativa que serve como suporte e uma que mantém um ciclo de autossabotagem ou estagnação? 

DF: Elas tendem mais a nos limitar e sabotar do que, de fato, proteger. Em geral, funcionam como proteção contra rejeição, baixa autoestima… Até são protetoras, mas, justamente quando cumprem esse papel, se tornam menos críveis e mais difíceis de sustentar. A pessoa acaba criando um mundo que não é real. Na terapia cognitiva, buscamos evidências para flexibilizar essas crenças. Na verdade, qualquer rigidez é disfuncional. Uma crença muito rígida, ainda que pareça protetora, pode me impedir de entrar em contato com os meus medos, com o amor, com o risco. São protetoras, sim, mas limitantes. Sempre deixam uma interrogação sobre o quanto realmente fazem bem. 

Quais são os principais obstáculos que impedem uma pessoa de questionar suas próprias narrativas? 

DF: Eu apontaria dois. Um deles é quando a narrativa protege a pessoa de algo ainda mais difícil de encarar — algo que, psiquicamente, ela não está pronta para enfrentar. O outro tem a ver com a rigidez da personalidade, com a inflexibilidade para rever pontos de vista.  

A sociedade moderna, com a cultura do “faça o que te faz feliz”, cristaliza uma narrativa que nem sempre ajuda? 

DF: Essa cultura acabou sendo adoecedora, porque criou, principalmente entre os jovens, uma expectativa de que a gente tem que fazer só o que gosta. E nem sempre é assim — às vezes, o que a gente faz não é algo de que se gosta, ou esse gostar simplesmente não aparece. A felicidade é algo amplo e não pode ficar estagnada num construto, presa a uma única parte da nossa vida. Por outro lado, pesquisas mostram que ser uma pessoa mais positiva — não no sentido de buscar a felicidade o tempo todo, mas de ter uma postura mais otimista — costuma ter uma visão de mundo que abre mais possibilidades. Não é sobre certezas sem evidências, mas sobre um otimismo que se abre para o que pode acontecer. Quando a gente tem uma visão muito pessimista, a tendência é não enxergar saídas ou outras possibilidades. 

A hiperexposição do mundo atual atrapalha ou acelera a construção de uma narrativa pessoal mais autêntica? 

DF: Com esse bombardeio constante de informações e opiniões, as pessoas acabam deixando de criar narrativas próprias mais autênticas e passam a adotar discursos prontos. Com um mundo tão polarizado, a enxurrada de notícias dificulta o diálogo entre diferentes linhas de raciocínio e até mesmo o desenvolvimento de uma narrativa pessoal sólida. 

Quais sinais podem indicar que estamos presos a um mito pessoal que nos impede de evoluir ou mudar? 

DF: Muitas vezes, os sinais são mais externos. Os internos têm a ver com o nosso mundo emocional e mental — como está o nosso nível de angústia, de tristeza, de medo. Já os externos se expressam na paralisia, nas coisas que a gente gostaria que acontecessem e que simplesmente não acontecem. Por exemplo, crenças que temos sobre relacionamento podem impedir que a gente consiga ter um. Então fica esse empecilho. As pistas estão nas coisas que gostaríamos de realizar na nossa vida, mas que não estão acontecendo. Porque se a gente sente, pensa e se comporta a partir das nossas narrativas, é como se estivéssemos insistindo em um caminho — e talvez existam outros, em outros formatos.  

O cuidado da saúde mental individual pode ser considerado um investimento coletivo? 

DF: O cuidado com a saúde mental individual é, sem dúvida, um investimento coletivo. Como propõe o conceito de capital mental, trata-se de investir na nossa capacidade de lidar com a vida de forma mais saudável. Mas a terapia, no Brasil, ainda é um recurso muito elitizado. Os serviços públicos oferecem poucas alternativas de atendimento, e a maioria das pessoas precisa recorrer a atendimentos pagos, o que limita o acesso de boa parte da população. Existem faculdades e institutos que oferecem esse tipo de serviço, mas eles ainda não dão conta da enorme demanda. Quando falamos em capital mental, falamos também de investimento governamental em saúde mental. As consequências da falta desse investimento costumam ser mais graves e mais caras do que se pensarmos em ações realmente preventivas. 

Como entender a diferença entre autocuidado e individualismo? 

DF: A diferença é sutil, mas importante. O autocuidado é essencial para o nosso bem-estar. A partir do momento em que estamos bem, mas não convivemos, trocamos, contribuímos em nada com as outras pessoas, aí estamos diante de uma postura individualista. Há inclusive pessoas individualistas que nem praticam o autocuidado, mas continuam focadas apenas em si, de forma rígida, sempre buscando o que é melhor para elas. Isso as torna alheias ao mundo. Já o autocuidado é cuidar de si para ter condições de oferecer bem-estar também às outras pessoas. Quando dizemos, por exemplo, que a terapia individual é voltada ao indivíduo, isso não significa que ela não afete o coletivo. Quanto mais saudável está uma pessoa, mais ela contribui para o bem-estar coletivo. E o oposto também é verdadeiro: quanto mais adoecida mentalmente, mais adoecimento social ela pode provocar. 

Muito se fala em liberdade, mas a liberdade de se reinventar ainda assusta. Por que mudar continua sendo visto com desconfiança? 

DF: A liberdade de se reinventar às vezes esbarra naquele clichê do futebol, de que mudar de time é estranho — se você é de um time, tem que ser para sempre. Há uma ideia de que a pessoa deve manter uma posição fixa, não pode mudar de crença política, religiosa ou estilo de vida. Mas, na verdade, reinventar-se é a essência da vida e da liberdade, é o nosso potencial de transformação. A mudança ainda gera desconfiança, porque a sociedade criou esse hábito rígido de que as pessoas devem se manter iguais. 

O que você diria para quem sente que precisa mudar, mas está paralisado diante da complexidade da própria história? 

DF: Eu diria: valide essa complexidade. Todos temos uma história, mas não precisamos ser reféns dela. Não é sobre apagar ou negar o que aconteceu, mas sim sobre mudar a forma como enxergamos essa história. Temos essa capacidade cerebral — a neuroplasticidade, a flexibilidade cognitiva — que nos permite transformar a visão que temos da vida. Quem está preso à angústia da própria história precisa saber que pode mudar essa perspectiva. A partir daí, mudam também os sentimentos, os pensamentos e o comportamento. 

Em qual mito sobre felicidade você gostaria que as pessoas deixassem de acreditar? 

DF: Que as pessoas começassem a substituir a palavra “felicidade” pela busca do bem-estar no cotidiano. Vivemos o dia a dia, e não aquele grande sonho que pensamos que vai trazer nossa felicidade. Não vale a pena ficar só em busca da felicidade como um conceito amplo. A felicidade para cada pessoa é algo diferente, e o mais importante é buscar um estado de bem-estar, algo que pode ser cultivado no cotidiano. 

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Uma música para um coração partido. Um filme para quem está de luto. Um livro para reorganizar os pensamentos após um trauma. Há milênios, a arte, em suas diversas formas, acompanha a humanidade, exercendo um papel fundamental na formação emocional. O Rei Leão, por exemplo, fez muitas crianças chorarem e sentirem emoções inéditas. Ao provocar essas primeiras descobertas, a arte sensibiliza e ajuda a dar forma ao que sentimos. Daí adiante, ela se torna também um possível caminho para a cura. Para muitos, é um meio de autoconhecimento e superação — a ponto de se tornar ferramenta em práticas terapêuticas que fazem dela sua principal aliada.

Dentre as diversas formas de arte utilizadas para acessar e reorganizar emoções, a literatura ocupa um lugar singular. O ato de ler exige um engajamento ativo, que precisa processar a informação verbal e construir mentalmente cenários, interpretar diálogos, projetar emoções nos personagens e, frequentemente, estabelecer conexões entre a narrativa e sua própria vida. Utilizamos nosso repertório imagético e sensorial para fazer pulsar as descrições de um livro. O texto pode ser o mesmo para todos, mas a experiência de leitura é única para cada um. E é nesse aspecto introspectivo e pessoal que a biblioterapia aposta.

O termo “biblioterapia” foi usado pela primeira vez em 1916. O responsável foi o ensaísta estadunidense Samuel McChord Crothers (1857-1927), que escreveu uma matéria satírica para o The Atlantic, na qual descrevia um encontro com um médico que lhe recomendava a leitura como remédio. O conceito é simples: livros e textos literários como instrumentos para aliviar o sofrimento emocional. E, apesar da leveza de sua primeira aparição, a ideia por trás do termo foi levada a sério por estudiosos ao longo do século XX, consolidando-se como um campo de pesquisa que investiga o uso da literatura para aliviar a dor e promover o bem-estar psicológico.

O estudo do vínculo entre literatura e emoções começou sobretudo a partir da aplicação da leitura em contextos hospitalares e psiquiátricos. Durante a Primeira Guerra Mundial, médicos e enfermeiros notaram que soldados traumatizados pelo combate apresentavam melhora emocional ao serem expostos a determinados tipos de literatura — seja pelo teor otimista e instrutivo, seja pela capacidade de gerar empatia e identificação no leitor. Obras de ficção, poesia e filosofia foram, então, introduzidas como complemento ao tratamento clínico, um experimento que, anos mais tarde, daria origem a programas de reabilitação psicológica baseados na leitura.

A partir da década de 1950, estudiosos como a estadunidense Caroline Shrodes, uma das principais referências na área, começaram a mapear os processos psicológicos que tornam a leitura uma ferramenta terapêutica. Shrodes descreve três fases essenciais no processo: a identificação, em que o leitor se reconhece em aspectos da narrativa, criando uma conexão com os personagens e situações descritas; a catarse, momento em que a leitura facilita a expressão emocional, permitindo que sentimentos reprimidos sejam experimentados de forma segura; e o insight, etapa em que o envolvimento com a narrativa leva a reflexões profundas sobre a própria vida, possibilitando mudanças de perspectiva e novos aprendizados.

Mais tarde, o impacto da biblioterapia começou a ser investigado, inclusive, sob a ótica da neurociência. Estudos conduzidos por David Comer Kidd e Emanuele Castano, da New School for Social Research, demonstraram que a leitura de literatura ficcional aprimora a Teoria da Mente (ToM) — a capacidade de compreender e prever emoções e intenções alheias. Em outras palavras, o contato com narrativas literárias torna nossos cérebros mais aptos a compreender e se conectar com o mundo emocional dos outros.

No Brasil, Clarice Fortkamp Caldin é a principal responsável por consolidar a biblioterapia como um campo de pesquisa acadêmica, não sem, de acordo com ela, sofrer muito preconceito da comunidade médica. A despeito das dificuldades, a professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tem investigado como a leitura pode atuar como um agente de transformação há décadas. Ela tem duas categorizações para a abordagem: “biblioterapia clínica”, utilizada como complemento em tratamentos psicológicos e psiquiátricos, frequentemente conduzida por profissionais da saúde mental; e “biblioterapia desenvolvimental”, aplicada em contextos educacionais e sociais, visando à construção da identidade, ao desenvolvimento da empatia e à promoção do bem-estar emocional. Essa diferenciação é essencial para entender que a biblioterapia não se restringe ao ambiente clínico, podendo ser incorporada a projetos sociais, educativos e culturais.

Atualmente, ao redor do mundo, programas de biblioterapia são amplamente aplicados em hospitais psiquiátricos, centros de reabilitação, escolas e até mesmo no ambiente corporativo. No Reino Unido, o programa Reading Well, desenvolvido pelo The Reading Agency em parceria com o Sistema Nacional de Saúde (NHS), estruturou uma lista de livros recomendados para auxiliar pacientes em tratamento de depressão, ansiedade e transtornos de estresse pós-traumático. Os resultados apontam que mais de 60% dos participantes relataram melhora no bem-estar emocional após a leitura guiada das obras indicadas. Outro exemplo é a Austrália, que, com o projeto Bibliotherapy Australia, promove grupos de leitura terapêutica em bibliotecas e centros comunitários, focando na construção de resiliência emocional por meio da literatura. 

Por aqui, a prática ainda está em expansão, mas existem iniciativas relevantes, como projetos de leitura em hospitais psiquiátricos e presídios. Um exemplo importante é o programa Livros que libertam, que utiliza a leitura como ferramenta de reintegração social em unidades prisionais. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apoia a remição de pena por meio da leitura, permitindo que pessoas privadas de liberdade reduzam seu tempo de detenção ao se envolverem com obras literárias. Livros que libertam, assim, contribui para a reintegração social, ampliando perspectivas e ajudando a reduzir a reincidência criminal.

As pesquisas das últimas décadas e a eficácia de iniciativas como essas demonstram o poder da leitura em abrir portas para novos pontos de vista, ajudar a elaborar sentimentos complexos e fornecer respostas para perguntas que nem sabíamos que precisávamos formular.

No fim, a biblioterapia reafirma o que sempre esteve nas entrelinhas: os livros ensinam, acolhem, transformam e, em muitos casos, curam.

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Minha análise com Freud: Psicanálise na atualidade

por Revista Amarello

“Além da extraordinária perspicácia, a grande amplitude de visão desse homem e o fato de que ele mesmo estava de tal maneira no controle de um grande movimento se faziam sentir, especialmente em público. Presenciei esse aspecto de Freud nas reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, nas quais esse homem aparentava ser um gigante em meio a pigmeus.”

Sigmund Freud por Max Halberstadt (Domínio público via Wikimedia Commons).

Ler isso, e tendo ouvido o nome “Freud” pipocar aqui e ali nos mais variados contextos, faz surgir a pergunta: como devia ser a experiência dos pacientes do criador da psicanálise? Abram Kardiner, psiquiatra e psicanalista americano, mata um pouco dessa curiosidade no livro Minha Análise com Freud, lançado recentemente pela editora Quina. 

É verdade que, no caso de Kardiner, ele teve a oportunidade por ser um prodígio no mundo da psicologia e sua análise, portanto, serviria mais como um testemunho de como Freud aplicava sua psicanálise na prática e menos como uma terapia contínua. Mas, ainda assim, foi uma jornada que gerou um contato próximo com uma das pessoas mais influentes da história recente da humanidade.

“Poucas pessoas tiveram o privilégio de ser analisadas pelo próprio Freud. (…) Se eu fosse mais jovem, hesitaria em revelar os fatos biográficos necessários para essa empreitada. Em minha idade, no entanto, o que importa não é tanto dar uma contribuição à Freudiana, sobre a qual já existe material abundante. Minha motivação é um pouco diferente – revelar sua técnica, tanto quanto possível, em um caso específico.”

O psiquiatra Abram Kardiner (Bernard Gotfryd | Library of Congress)

Para se ter uma ideia de quem foi Abram Kardiner e entender o porquê dele ter sido selecionado para uma experiência como essa, basta citar alguns de seus feitos posteriores: foi responsável por promover estudos revolucionários sobre as interseções entre a psicanálise e a antropologia, além de ter feito contribuições seminais para a compreensão dos efeitos psicológicos do trauma e do estresse social, ajudando a estabelecer os fundamentos para o estudo moderno do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Embora nem sempre tão reconhecido, ajudou a expandir a psicanálise para além das fronteiras da psicoterapia individual.

Minha Análise com Freud, lançado fora do Brasil originalmente nos anos 1970, tem como força os trechos pessoais e reveladores do próprio autor, que compartilha suas experiências durante a análise entre 1921 e 1922, assim como suas reflexões sobre Freud enquanto analista e pessoa. Como o autor escreve no prefácio, a obra se caracteriza não como uma especulação sobre a teoria freudiana, mas por “revelar sua técnica, tanto quanto possível, em um caso específico.” Não à toa, um dos aspectos mais interessantes do livro é a análise crítica que Kardiner faz da própria análise que o dr. Freud está conduzindo. Ele discute sua técnica, apontando tanto suas virtudes quanto suas limitações. 

Revela, por exemplo, como Freud utilizava o complexo de Édipo como estrutura central da análise, mas também como se desviava de sua teoria da libido em determinados momentos. “Ele praticamente não falou nada sobre o erotismo anal, exceto de passagem (…). Em outras palavras, a análise foi iniciada com o complexo de Édipo, a derivação da constelação de dependência, com sua homossexualidade inconsciente, como uma das resoluções dos fracassos para resolver o complexo de Édipo satisfatoriamente, em cujo estado Freud me encontrou.”

Porém, ainda que cutuque uma ou outra atitude do psicanalista, Kardiner reconhece o “gigante entre pigmeus” quando escreve sobre a abordagem terapêutica de Freud, destacando sua habilidade única na interpretação dos sonhos e nas associações livres. Diferente dos outros, ele não lançava mão dos discursos inacessíveis, a genialidade de Freud também se manifestava ao fazer interpretações em linguagem comum, sem se prender excessivamente a formulações teóricas: “O que tornou Freud um analista extraordinário foi o fato de, pelo menos naquela época, ele nunca utilizar formulações teóricas, fazendo suas interpretações em linguagem comum.”

Ao longo do texto, Kardiner compartilha insights valiosos não apenas sobre Freud, mas também sobre o contexto histórico e cultural da Viena do início do século XX. Ele destaca a influência da psicanálise na sociedade da época e levanta a bola para falar das tensões e rivalidades entre os principais nomes do movimento psicanalítico, como Alfred Adler. Chega a ser curioso imaginar essas pessoas carregando qualquer tipo de rivalidade, mas acaba sendo um deleite. “Na verdade, não havia muitos psicanalistas – talvez uns quinze ou vinte –, mas todos eles tinham de passar por Freud, de modo que ele tinha um grande controle tanto sobre os aspectos econômicos quanto sobre o progresso do grupo. Não se podia deixar de reconhecer que essa influência era perniciosa, uma vez que também criava um bocado de rivalidade, brigas internas e manobras entre seus discípulos, levando a que se bajulasse aquele que era o grande provedor.”

Com sua narrativa envolvente e análises perspicazes, Abram Kardiner nos leva pelas profundezas da mente humana, principalmente na sua. No meio disso, nos convida a refletir sobre o legado duradouro de Sigmund Freud, o que talvez seja o que a obra tenha de mais instigante. 

Hoje em dia, a psicanálise continua a ser uma influência significativa no campo da psicologia e da psicoterapia, embora tenha enfrentado críticas e desafios ao longo dos anos. Muitos terapeutas ainda utilizam conceitos fundamentais da psicanálise, como o inconsciente, a transferência e a interpretação dos processos mentais, como base para sua prática clínica. A psicóloga Karin Silva1 acredita “ser importante considerar que Freud rompeu com paradigmas científicos muito fortes da sociedade da qual fazia parte e daquele cenário histórico”, sendo inegável “que a teoria psicanalítica freudiana trouxe contribuições singulares para o campo da psicologia em geral ao propor um método que valorizasse mais a singularidade e a complexidade dos processos subjetivos.”

No entanto, a abordagem psicanalítica evoluiu e se diversificou, incorporando ideias de outras escolas de pensamento, como a psicologia humanista, a terapia cognitivo-comportamental e a psicologia positiva. Essa integração de diferentes perspectivas permite uma abordagem mais holística e flexível, adaptada às necessidades individuais dos pacientes.

Dentro da comunidade científica e acadêmica, a psicanálise tem sido objeto de críticas e debates, especialmente em relação à sua eficácia em comparação com abordagens mais orientadas para evidências. Apesar disso, muitos defensores da psicanálise argumentam que sua ênfase na compreensão profunda dos processos mentais e emocionais, bem como na relação terapêutica, oferece benefícios únicos que podem não ser captados por métodos exatos. Na visão de Karin, “a psicanálise é injustiçada no campo das ciências quando dizem que ela não é científica devido ao fato dela não reproduzir um modelo de ciência parecido com o das ciências naturais e exatas.” 

Ao refletir sobre o futuro da psicanálise, isso nos anos 1970, o próprio Abram Kardiner escreve: “Devemos aprender a diagnosticar as doenças do nosso tempo e aquilo que está acontecendo na mente humana, numa cultura cujos padrões básicos estão se alterando a uma velocidade estrondosa.”

E Karin endossa sua opinião, voltando os olhos, inclusive, para o Brasil: “O fato da psicanálise ter sido criada no período Moderno em uma sociedade europeia voltada para as elites, pouco foi considerado na disseminação desta abordagem no Brasil. Por essa razão, por muito tempo e muitas vezes ainda na atualidade, a psicanálise pode apresentar uma leitura reducionista e individualista da subjetividade. Isso porque a realidade da maior parte da população brasileira, que é negra e/ou pertencente a classes populares, vivencia dilemas e problemáticas muito diferentes do público considerado por Freud na elaboração das suas teorias. Não é à toa que, por muito tempo com o aval da psicanálise freudiana, a psicologia no Brasil foi reduzida à psicologia clínica e acessada somente pelo público elitizado, os únicos com condição financeira e tempo para falar sobre suas aflições.”

O Sigmund Freud pintado por Kardiner de fato temia pelo futuro da psicanálise. Ele tinha medo de que ela fosse ficar restringida — daí a importância das adaptações temporais, culturais e socioeconômicas. Portanto, para além de sua leitura agradável e acessível, Minha análise com Freud serve como um lembrete de que, mesmo em uma era de avanços tecnológicos e mudanças sociais rápidas, as questões fundamentais da psique humana permanecem profundamente arraigadas e requerem uma exploração contínua e sensível para alcançar uma compreensão mais profunda e um bem-estar emocional duradouro. 

Com esse livro, publicado no Brasil pela primeira vez, conseguimos vislumbrar um pouco da experiência de ser analisado por um fundador do seu campo de conhecimento — e, a partir daí, vislumbramos também a ressignificação sempre necessária de seu corpo teórico.

Mesmo presentemente, a psicanálise carrega uma responsabilidade para com as pessoas, sendo a oportunidade para um renascimento depois que todos os impedimentos tivessem sido removidos. Adaptando-se a novos divãs e a novas realidades, ela pode “fazer o bem”, da forma como Freud e Kardiner acreditavam que ela era capaz.


1Karin Silva, mestre e doutoranda em psicologia, é psicóloga clínica e social (psicologakarinjuliana@gmail.com / @_profpsi)

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