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#26Delírio TropicalCulturaLiteratura

Alguns dias depois do Donald Trump ser eleito

por Vanessa Agricola

É novembro, faz frio em São Paulo. Dezessete graus em novembro. O Donald Trump foi eleito, em que mundo estamos? Esse ano fez tanto frio, compramos casacos do North Face para as crianças e não foi dinheiro jogado fora. Eu dei um cachecol de presente de aniversário para a Tercina… e já é Natal.

Queria escrever uma crônica sobre todo ano a gente falar isto: mas esse ano voou. Ao mesmo tempo que a gente já nem se lembra do começo do ano: onde é que eu estava em janeiro, o que foi que eu fiz? É curioso, parece que faz muito tempo janeiro de dois mil e dezesseis. Mas foi ontem.

Vejo este homem, do outro lado da piscina, sentado. Ele me lembra uma música da Baby Consuelo, esse homem do outro lado da piscina sentado, com as pernas cruzadas, as mãos em cada joelho, parece que está meditando. Enquanto eu estou aqui, com meu biquíni preto, a parte de baixo vem até a cintura, a parte de cima é tipo uma regata, deixando a mostra dois dedos de barriga. Não é estilo. Eu estou gorda.

A primeira vez que o vi, dragão tatuado no braço, eu já estava aqui sentada na outra ponta da piscina, me achando gorda, pensando nas consequências da extrema extremíssima direita, e de uma possível abdominoplastia. Despertei dos meus devaneios com a água se movimentando na raia ao lado. O homem fazia uma cambalhota no fim da raia, as pernas davam o impulso…

— Não é o fulano?

Quem fez a pergunta foi o meu marido. Ele tomava o sol frio em uma cadeira afastada, mas não muito, da borda na piscina. Dali ele avistou o homem nadando, e achou que o homem era a cara do fulano, um ator tão conhecido da Globo.

— Nossa, é mesmo, muito parecido.

— Pede uma selfie!

Meu marido não tem o menor ciúme. Mas, no que ele retorna para o seu sol frio, naquela tarde de meio da semana no clube, tão agradável, o clube vazio, eu retorno para o homem tatuado meditando. Faz tanto tempo que eu não medito. O tamanho da minha barriga está ridículo. Eu ter me inscrito na academia em agosto, e ter largado a academia em agosto mesmo.

Aí eu comprei esse biquíni para fazer natação. Antes de ver aquele homem fazer uma cambalhota no fim da raia e dar um impulso, e as suas pernas, juro, eu já estava ali sentada na beira da piscina, segurando uma touca e um óculos de natação, invocando a coragem de começar a nadar naquele dia frio.

Sabendo, pelo acúmulo de anos que voam, e de vida, e de óbitos, e de óbvios que a gente aprende que são óbvios com o passar do tempo, que se eu nadar de novembro até janeiro, eu emagreço. Que se eu parar de comer pastéis de nata todas as quartas-feiras no Centro de São Paulo, eu emagreço. Se eu não levar a vida como se o verão estivesse longe deste dia frio.

Mas foi só aquele homem quem nadou. E sentou agora, farto, e cruzou as pernas, e fechou os olhos, e me parece, daqui, meditando. Alguns dias depois do Donald Trump ser eleito.

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