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Obra de Chico da Silva, Sem título. Fim da década de 1950.
#54EncantoCulturaEditorial

Canto Sagrado

por Gean Ramos Pankararu

Quem canta o encanto  
Encanta o encanto  
Quem canta o encanto  
Encanta  
Quem canta o encanto 
Encanta o encanto  
Quem canta o encanto  
Encanta
 

Quem é da Jurema 
É do ajucá  
Que é da Jurema  
É do ajucá 
Quem é da Jurema  
É do ajucá  
Que é da Jurema  
É do ajucá
 

A minha ancestralidade me conecta a tudo, ela é viva e atemporal. Os princípios e ensinamentos são de respeito a tudo, principalmente à natureza, aos mais velhos, às tradições, e isso pode ser uma velha forma de reinvenção da vida e do amor… 

Se imaginarmos um cenário catastrófico, apocalíptico, de final de espécie humana, eu queria que a sobrevivente fosse uma mulher indígena, com o poder de se reencantar e atravessar o tempo. Que lembrasse o nome dos animais, as cores da biodiversidade que a natureza oferecesse, que fosse uma mãe, com seu poder de parir e ser porta pra vida. 

A vida só tem graça porque tem encanto. 

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.  

Viver encantado é compreender uma ecologia, uma harmonia. Quando nos compactamos e nos moldamos a padrões comportamentais e de vida estabelecido pelo desconhecido, estamos nos afastando da matéria-prima que rege o universo em que vivemos. É difícil entender que uma vida, para estar equalizada, precisa de uma aproximação da consciência de que existem outros seres, que encantam os caminhos e os tempos, subvertendo os maus.  

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.  

Na minha época de escola, havia uma matéria que chamavam de ensino religioso, e eu estou escrevendo isso do nada, simplesmente veio, e, se veio, é porque preciso falar…  

Sim, voltando ao ensino religioso: eu me lembro de rezar na sala de aula e de os colegas dizerem que aquela aula não era importante.  

Quando o assunto é fé, geralmente ensinam que existe um único caminho, que é preciso sacrifícios para se ter a atenção do grande criador. Eu lembro da professora falando um pouquinho de outras religiões e bem muitão da religião católica, era ensinamento monofé, o colonialismo espiritual já estava correndo solto.  

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar. 

A geração do meu pai e da minha mãe quebrou um ciclo muito grave, eles se converteram. A quebra desse ciclo incluiu o afastamento de uma forma de fé específica, pautada na coletividade, na diversidade, na relação com a natureza e com os seres que nela habitam, contexto em que existem diversas forças e energias que corroboram com a gestão espiritual de uma grande força, a do grande espírito criador.  

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar. 

Eu nasci no monoféistico, apesar desse lar ser dentro de um território indígena, que tem seu próprio modo de ver a origem da vida e sua própria fé, e isso sempre foi contraditório para mim, quando criança e em grande parte da minha vida. Tudo muda para mim quando, através da música, busco incessantemente por autenticidade, e é voltando para minhas origens que me reconecto com o universo primário, aquele em que os meus pais quebraram o ciclo que meus avós mantiveram até se converterem. 

Deixei de ser monofé por indução, e passei a ser polifé por experiência e por consciência étnica, compreendi que a fé do meu povo não é sobre religião, mas sobre uma cosmologia que integra o ser humano, que o faz ser parte de um mundo que tem inúmeras outras partes, e compreendi que o encanto pode tornar a relação da vida mais simples e natural. 

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.  

É essencial a busca por equilíbrio e entender que o encanto está para a vida como todas as outras coisas. O que importa é como distribuímos isso. 

Não acredito que se relacionar com os encantados seja como uma peça de roupa que deixamos no guarda-roupa e escolhemos usar em determinada ocasião. Os encantados são princípios, fundamentos que devemos levar para tudo que fazemos.  

Muitas vezes, pensamos ou achamos que a espiritualidade nos abandonou. Será que são os encantados que se afastam da gente ou somos nós que nos afastamos? Porque a relação com os encantados precisa ser regada. A meu ver, o encanto está em tudo, é a ecologia humana. Encanto é como tempero, não pode ser tratado como artigo de luxo, que uns podem acessar e outros não. O que nos tem faltado é a capacidade de reconexão, de reencantamento. 

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.  

Na minha relação de proximidade com o encanto, há conversas, mensagens, conexão através de uma tecnologia que não foi desenvolvida por inteligência artificial 

Senhorzinho 
Senhorzinho mandou dizer 
Que esse mundo não tá bom 
Que o mal é o bicho homem 
Que destrói tudo que vê
Senhorzinho que mora longe  
Nos palácios dos encantos  
Peça ao nosso grande espírito  
Que proteja minha nação  
Senhorzinho, mestre encantado  
Salve a vida dos seus filhos  
protegei nossos te
souros  
Da ganância do poder  
Senhorzinho, preserve as fontes  
As nascentes de água pura  
As sementes crioulas  
E toda a planta nativa  
Não castigue os animais  
Eles são os inocentes  
Não merecem pagar  
Pela ruindade dessa gente 
 

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.   
Venho de tempo muito distante, em que o vento faz a curva a favor do que é bom  
Em que as leis dos inocentes  
Valem mais do que ouro  
No bolso dos homens maus 
Lá a casa do joão-de-barro  
Vale muito mais que uma mansão 
Lá ninguém morre, se encanta  
A morada é a casa onde mora  
O ancião   

Tudo que estou falando aqui é sobre encantaria, não corra, não desvie o olhar.
   
Quem corre sob o comando do cronômetro, se perde no tempo da natureza.  
Quem não constrói pontes não atravessa, não reencontra, não reconstrói. 

 

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