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#55Imagem BrasilCultura

A transição narrativa: do eurocentrismo à pluralidade

por Silvana Maria Rosso

Museu do Ipiranga. Foto de Gabriela Portilho.
De templos do saber iluminista a espaços plurais e críticos, os museus reinventam suas narrativas. Se eles antes organizaram o mundo sob uma lógica eurocêntrica, hoje revisam silêncios e ampliam vozes, assumindo papel democrático e social. 

Os museus contemporâneos enfrentam o desafio de reinventar suas narrativas para estabelecer um diálogo genuíno com novos públicos e novas tecnologias. Historicamente, essas instituições serviram como ferramentas de organização do mundo sob uma lógica puramente eurocêntrica, mas o cenário do século 21 exige a revisão de silêncios históricos e a ampliação de vozes anteriormente marginalizadas.  

Sandra Costa, museóloga e professora da Universidade de Bolonha, destaca a natureza política dessas instituições ao afirmar que “a narrativa de um museu nunca é neutra. É sempre ideologicamente conotada”. No contexto brasileiro, essa subjetividade resultou, por muito tempo, na prevalência da perspectiva dos colonizadores sobre temas sensíveis como a escravidão, mantendo negros e indígenas à margem das narrativas oficiais. Essa dificuldade narrativa é acentuada pela origem dos acervos, frequentemente constituídos por doações de elites e focados em objetos de luxo. Paulo César Garcez Marins, historiador e diretor do Museu Paulista, aponta que “narrar a história de uma sociedade complexa a partir de documentos restritos a certas classes é um desafio”.  

Refletindo sobre o peso ético de lidar com o passado, Alex Calheiros, doutor em filosofia e diretor do Museu da Inconfidência, recorre à poesia de Carlos Drummond de Andrade para afirmar que “toda história é remorso”, lembrando que o exercício de pensar o passado exige o reconhecimento imediato de ausências e silenciamentos. Atualmente, o pensamento decolonial busca desconstruir essas hegemonias, criando espaços para a memória de grupos subalternos. 

A evolução do foco: do objeto ao visitante 

A trajetória dos museus revela um deslocamento fundamental de prioridades. Nos primórdios, a centralidade repousava no objeto, como se podia observar no Ennigaldi-Nanna, primeiro museu que se tem notícia, datado de 530 a.C., ou no enciclopedismo iluminista visto nos gabinetes de curiosidades do século 18. No século 19, surgiram os museus de história com a pretensão de narrar a trajetória de “todos”, mas que, segundo Marins, acabavam por contar a história de apenas alguns grupos. Calheiros recorda ainda que, nessa lógica, quem não se adequava ao padrão europeu era frequentemente rotulado como “incivilizado, bárbaro ou, na melhor das hipóteses, exótico”. 

A mudança radical nas diretrizes museológicas ganhou corpo no século 20. Em 1934, a Conferência de Madrid reconheceu a diversidade do público, e os anos 1970 consolidaram a nouvelle muséologie, que deslocou o foco da coleção para o visitante. Costa explica que o centro da narrativa passou a ser a relação estabelecida entre a coleção e o observador, e não mais a coisa em si. Em 2022, o International Council of Museums (ICOM) reforçou essa visão, definindo o museu como uma instituição inclusiva e comprometida com as questões sociais e democráticas do seu tempo. 

Paradigmas de gestão, convivência e equilíbrio 

Museus modernos são cada vez mais vistos como espaços de convivência e até de cura. Ico Migliore, arquiteto, professor do Politecnico di Milano e especialista em projetos museológicos e expositivos, ressalta que estudos comprovam que lugares de cultura promovem senso de comunidade e bem-estar. Ele, no entanto, defende que os museus precisam mudar seus paradigmas. Embora a museologia tenha avançado no campo teórico, algumas instituições permanecem inalteradas por décadas, enquanto outras revelam uma “ansiedade espasmódica” de renovar continuamente suas montagens, ressalta o arquiteto e curador Roberto Duilio, professor e responsável pelo sistema arquivístico e bibliotecário do Politecnico di Milano.  

“A virtude está no equilíbrio”, defende Duilio. Para ele, obras centrais devem compor exposições de longa duração — não eternas, mas estáveis por anos. Já núcleos menos fundamentais podem ser revistos a cada dois ou três anos, pois “a história e a crítica estão sempre em transformação”.  

Um exemplo prático dessa aplicação é a Pinacoteca de São Paulo. Fundada em 1905, a instituição mantém em destaque em sua exposição temporária obras como Amolação interrompida (1894) e Caipira picando fumo (1893), de Almeida Júnior. Yuri Quevedo, arquiteto e curador da Pinacoteca, explica que essas telas, consideradas fundadoras do acervo, integram um debate secular sobre a figura do caipira. Embora tenham sido encomendadas por elites que contribuíam para o desaparecimento do modo de vida retratado, elas resistiram ao tempo pela sua “porosidade a novos significados”.  

Com um acervo de 12 mil obras, a Pinacoteca agora organiza uma mostra temática de longa duração, sob a curadoria de Quevedo, promovendo diálogos que causem “estranhamento” de tempos e características para estimular a reflexão crítica do público. A exposição coloca o artista no centro e transforma a parede em espaço de tensão e debate. 

Equidade e representatividade: o caso do MAC USP 

No Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), a narrativa do acervo de cerca de dez mil obras passa por revisão permanente sob critérios de equidade de raça, gênero, etnicidade e geração. Fernanda Mendonça Pitta, historiadora e curadora da instituição, destaca que iniciativas ligadas aos estudos decoloniais têm sido fundamentais para identificar ausências concretas. A pesquisa liderada por ela sobre a presença indígena na história da arte e nos museus revelou não apenas artistas indígenas incorporados no passado, mas também deslocamentos institucionais que ajudaram a apagar essa história. 

Experiência, acessibilidade e transparência 

ADI Design Museum. Foto de Leo Torri.

A visita ao museu deixou de ser meramente didática para se tornar uma vivência emocional e participativa. Para Migliore, as instituições devem “ativar a relação entre o usuário e a obra”. Ele cita o exemplo do Museo di Storia Naturale, em Milão, onde o público pode manusear gavetas de acervos, e do ADI Design Museum, que integra sua fachada à rua — ambos reformulados pelo escritório Migliore+Servetto. 

A democratização também envolve acessibilidade física e intelectual. O Museu do Ipiranga, vinculado à USP, utiliza 350 materiais táteis e recursos de vibração para que pessoas com deficiência auditiva sintam o ritmo de músicas como o samba-enredo. Além disso, a gestão moderna busca transparência ao tornar visíveis os acervos de reserva técnica, como ocorre no Victoria and Albert Museum, em Londres, e na exposição Da colher à cidade no ADI Design Museum, que integra todos os projetos vencedores do Compasso D’Oro. 

Reparação histórica em Ouro Preto e Recife 

Reconhecido pela Unesco em 2024 como parte da rota do povo escravizado, o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, vive uma transformação concreta. A instituição alterou seu plano museológico, substituindo o termo “inconfidência” por “conjuração”. “Quando se usa o termo ‘inconfidência’, transforma-se uma ação política num crime”, justifica Calheiros. 

O museu agora inclui salas dedicadas à cultura afro-mineira, inseriu no Panteão as lápides de Hipólita Jacinta e Bárbara Heliodora para reconhecer o protagonismo feminino e promove debates críticos sobre objetos que anteriormente trivializavam a tortura, com o projeto Este objeto, o que ele nos fala. 

De forma semelhante, o Museu do Homem do Nordeste, em Recife, vinculado à Fundação Joaquim Nabuco, discute a mudança de seu nome para Museu do Povo do Nordeste para superar perspectivas hegemônicas europeias. Sob a coordenação de Moacir dos Anjos, curador e pesquisador, a nova exposição de longa duração (prevista para iniciar em 2026) focará na resistência de povos silenciados, destacando religiões afro-brasileiras e manifestações como o maracatu e o boi-bumbá, ampliando a representação da cultura popular nordestina. 

Revisitando a identidade nacional e o papel do digital 

Museu do Ipiranga, em São Paulo. Foto de Gabriela Portilho.

Por décadas, o Museu do Ipiranga, braço do Museu Paulista, privilegiou figuras como Dom Pedro I, os fazendeiros e os bandeirantes Em 1989, a instituição revisou seu legado, adotando os eixos “história do imaginário”, “cotidiano e sociedade” e “universo do trabalho”, que orientam pesquisas e exposições, como a mostra Mundos do trabalho. Focada em homens, mulheres e crianças envolvidos na formação do país, esta trata de um argumento antes inexplorado em uma exposição de longa duração.  

Sobre a Independência, o museu agora apresenta uma visão plural, mostrando que o processo foi composto por várias independências regionais, como as do Nordeste e as do Sul do país. “No Brasil, foram várias independências”, assinala Marins. 

Por fim, cabe destacar como a revolução digital trouxe novas camadas de interpretação, especialmente na arqueologia, com o uso de realidade virtual para reconstruções históricas, como no caso do Museu dell’Ara Pacis, em Roma. No entanto, a historiadora e filósofa Irene Di Pietro, especializada em museologia e colecionismo, assistente didática na Universidade de Bolonha, alerta que a tecnologia não deve ser um espetáculo vazio ou apenas um substituto para o suporte analógico. Para ela, o desafio fundamental é garantir que o conteúdo digital mantenha “validade histórica e científica”, permitindo que os museus continuem preservando o passado enquanto constroem narrativas capazes de envolver públicos cada vez mais diversos. 

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